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sábado, novembro 12, 2005

Amniótico 

Dar banho é bom; recebê-lo, com cuidado e precaução, é ainda melhor. O primeiro banho, da primeira vez aqui, foi uma experiência inesperada. Uma fantasia enérgica, dada com água morna, bem cheirosa, de que me não esqueço. Uma espiral de energia, de água derramada sobre os membros, o rosto, os abdómen e logo a seguir uma toalha quase áspera que não deixava emm paz. O quarto iluminado comm muita luz solar e uma equipa que parecia estar a fazer o melhor trabalho do mundo, quase me atordoou naquela cama da UCI. Hoje é diferente, nalguns pormenores. O banho assistido é diário. A força é nula. É logo pela manhã. De novo a água tépida a deslizar por todos os veios do corpo. O rosto e o côncavo dos olhos, o cabelo , depois o pescoço e o tronco emagrecido. Lavagem e limpeza, atenta a todos os pormenores do corpo e do ânimo, com uma eficiência que não exclui uma infinita delicadeza. Cuidado, subtileza, entrega e eficácia são as marcas diárias do meu banho. Uma experiência ameniótica, quase erótica.

quarta-feira, novembro 09, 2005

Memória da Adriana 



Uma fotografia de Adriana com as primeiras folhas de Outono escorrendo as primeiras gotas de chuva desta estação. A frescura de dilúvio delicado e consentido, as gotas simples da água caindo para o chão e perdendo-se, são um lenitivo para o braseiro que me toma desde dentro. Obrigado à amiga Adriana.

quinta-feira, novembro 03, 2005

Humildade 

As lições de humildade que tenho "levado para casa" nestas últimas semanas, meses poucos, têm sido em catadupa. E tipo goleada, do tipo: "Vai buscar!" Ao contrário da gratidão, que é um sentimento insustentável, antinatural, a humildade é o sinal de que contamos com as forças dos outros frequentemente mais do que com as nossas próprias fraquezas. Nada a a acrescentar. É assim.

quarta-feira, novembro 02, 2005

Livros não lidos, coisas 



Quando voltar a casa vou pôr os livros na ordem. Já está planeado há muito. O móvel novo, depois de estar em condições, receberá as memórias, as biografias, as homenagens, as autobiografias, epistilografias, ideias políticas dispensáveis e géneros periféricos. Até lá é como o longo "dia do patrão fora, dia santo na loja".

Depois há o direito de não ler. Com tábua explícita dos direitos do não leitor. Para além deste direito, amplamente reclamado e de que muitos são useiros sem sequer terem lido o livrinho de Daniel Pennac, - "Como um Romance" - também deve haver o "medo de ler", o "pudor de ler", o "escrúpulo da leitura", o "tédio de ler"... etc. Encontro-me, de momento, como já avisei, na parte do tédio. Tenho comprado livros, através daquele maravilhoso sistema que nós trás o livro embrulhado no jornal até às mãos, muitas vezes antes de imaginarmos sequer que o livro existia, mas quanto a ler... nada. Nem uma linha.

A colecção de policiais do Público está a terminar e hoje recebi já o penúltimo. Metade estão lidos, os outros repousam para melhor ocasião. Os filmes de Hitchcock, que são um DVD mascarado de livrinho, também chegam regularmente mas nem o facto de ser leitura breve e de poder ver o filme no portátil, me dá grande vontade. Os dois tomos do Quixote, na edição de Aquilino, re-editada pelo Público, ou os fascículos da edição da mesma obra, no Expresso, traduzida por Serras Pereira e ilustrada por Júlio Pomar, também repousam para outro dia. Os livros de BD, bem esses são do Miguel. Guardo-os no quarto, lá mais para o Verão.

Os meus cafés [5]: o Arcadas, que é alcunha, no fio do vento 



O Café "Arcadas", e "Arcadas" é alcunha, já disse, porque não me consigo lembrar nunca do nome verdadeiro que deve ser bem pior que este, é um pequeno Café de Bolso. Fica no topo de uma calçada comercial, paralela à estrada, na esquina redonda de um troço de lojas e comércios de pequeno fôlego [cabeleireira, Pub, roupa, loja de Informática entre outras] com pretensões a galeria exterior. Antes era um de três cafés de bolso, num pequeno arco de 30 metros. Agora, se não estou enganado, sobrevivem dois e o das "Arcadas" é o mais simpático deles. Pelo menos é o primeiro que encontro, no topo das escadas, vindo de baixo, ou na curva da calçada, quando venho de casa a bater com a bengala desnecessariamente no chão.

O dono, toda a família [à excepção da funcionária, alta e magra, que pertence a outra raça], são uma espécie de habitantes da Terra Média, criaturas laboriosas e cordias, tal como as inventadas pelo Tolkien. De pequena estatura, girando de um lado para o outros sem movimentos demasiados, cuidando do seu cliente combalido e de hábitos "morigerados". Falamos pouco, praticamente apenas o essencial e alguma que outra resposta a alguma pergunta ociosa. Também consumo sempre o mesmo e a minha frequência é irregular, por vezes quase de cliente em fuga. Uma meia, como é hábito, algum café, nos dias de calor uma coca-cola, um bolo para enganar a fome.



Mas gosto do "Arcadas", apesar de uma certa tibieza do lugar, como se pode ver nas fotos. Prefiro a esplanada, ao interior banal e acanhado com mesas em cima de cadeiras ou vice-versa. Encosto-me a uma das colunas, disponho as minhas coisas sobre a mesa, ajeito a bengala e peço. Li muito naquele lugar. Jornais mas também livros, nem me recordo quais. Sei que lá li os Evangelhos, mas agora trabalhava já nas actividades da escola e lia coisas de trabalho.

O sol evito-o, quando não de outro modo, escondendo-me atrás da pedra da coluna. O vento fresco quase sempre é agradável. Quando ultrapassa o que deve saio para o interior, vou-me embora a tiritar.



A fórmula de Einstein fez anos. O jornal falou disso e fez uma festa. Nesse dia passei pelo "Arcadas" e estive por lá num bom dia de sol e vento. Mal posso esperar pelo momento de me sentar de novo ao sol, ou evitando-o atrás da coluna, para pedir então em apoteose de regresso inesperado: "Uma meia de leite e uma tosta mista, ou uma torrada barrada com manteiga; por favor!"

Macau, desde o 12º andar com vista para o delta das Pérolas 

Eram oito horas e picos, oito e meia, dezasseis e trinta. Tarde calma. Como não há televisão o Miguel lia o Tintim, que levou aos quilos. Silêncio em fundo, como sempre. Um silêncio de 12º andar sobre o ruído constante da rua. Lá em baixo o parque com as máquinas fantásticas que não são do professor Hoffman [!], o Caravela onde se bebe bom café, se come comida portuguesa e se leva para casa, para lá disso o rio. E lá em cima aquele silêncio de prédio grande. Uma tarde calma. O Miguel com a voz embargada pela constipação, depois do almoço de bitoque. Todos bem, tudo vai bem. Apenas tudo é demasiado caro. É sempre demasiado caro, nunca como se diz.

E o Tintim em chinês, vendido na loja ao lado do Caravela, quanto custará?

terça-feira, novembro 01, 2005

Buffet internacional, cabeça de borrego no forno, bacalhau à braz, batido de morango, etc 

Parece um desvario, parece que a fantasia já não obedece a regras, nem a precedências, nem olha às estações. Alguma vez obedeceu, alguma vez 'olhou', alguma vez teve juízo? Um atropelo de palavras, frases, imagens e descrições minuciosas. Tudo a jogar na minha cabeça, mas sem fazer sentido na cabeça dos outros. Tenho passado o meu tempo a lembrar estas coisas. A tal salada de tomate, de tomate carnudo e sumarento, que termina num caldo de vinagre; a verdadeira salva de peixe frito para quatro, com salada de alface, numa praia da costa de Cádiz [um hino de frescura e de boa comida]; a inesperada cabeça de borrego no forno, bem tostada sob um naco de gordura, com um olho ressequido que também deve saber bem a quem come com gosto; bacalhau à braz e à Gomes de Sá, quem foi que falou nisto? E que mais? Costeletas de borrego com ovo mexido e batatas fritas, uma refeição ligeira como seriam os calamares com uma salada e arroz de manteiga, ajudados pela cerveja ou pela limonada. E o buffet do pequeno almoço, no Savoy ou no outro hotel: batido de morando ou de baunilha, acompanhado de torradinhas e fatias de ovos com mel; depois os pudins ou o leite creme, de chocolate e de baunilha. Creio que estaria bem. Não?

O Prazer do Vómito 

Tiraram-me um dos poucos prazeres que ainda tinha, aqui nesta cama. O prazer de vomitar. Não digo isto para ser tremendista, mas porque nas últimas semanas apurei a técnica em cerca de uma centena de vezes que passei pela experiência. Nada do espasmo penoso e contra-natura, que parece que nos sufoca e leva à morte, quando entramos nesse transe. Pelo contrário. Uma libertação que deixa o organismo em equilíbrio e o ânimo aberto ao mundo. Quando o vómito respondia a essa necessidade de harmonia, depois sentia-me como novo. Por vezes apenas água, só água. Jorrava uma inesperada onda de frescura, ao contrário do ciclo, água bebida momentos antes, ainda fresca. Nos últimos dias o vómito era um pouco menos espontâneo e era preciso forçá-lo e lutar para que prosseguisse até ao seu final. Deixar um vómito a meio é um asco. O resultado material disso era um bojudo saco azul pendurado na mesa de cabeceira todas as manhãs. Ainda lá está o último, mistura diabólica que o estômago não quer.

O Terramoto 

Se não estivesse aqui teria dado atenção ao terramoto de há 250 anos, precisamente. Mas o não-acontecinento passou-me completamente ao lado. Posso mesmo dizer que, depois de ter iludido a possibilidade de comemorar no bloco, entre mecanismos de terror e esperança que cortam, rasgam, abrem, penetram, remendam, cosem e fecham o padecente corpo humano, trémulo de tanta fraqueza, o meu dia do terramoto passou sem que eu visse passar diante dos olhos qualquer imagem. Nada de imagens. Apenas o repicar de sinos na televisão distante, lá no corredor. Só isso e chega.

Macau, mon amour... 

Tenho escrito pouco sobre isso; tenho recebido notícias de lá, tranquilizadoras, de uma vida de se normaliza num mundo que é diferente deste em muita coisa. O Miguel está fascinado com os estranhos equipamentos do parque para o exercício físico, mesmo frente ao bloco de apartamentos em que vivem. Muito procurados pelas pessoas que frequentam o jardim, inscrevem-se naquela filosofia geral oriental de compor uma boa unidade entre corpo e espírito. Ali cuida-se do corpo. Ele adora. E mais detalhes deliciosos sobre as rotinas, os nomes dos cafés, dos restaurantes, o mercado, os preços e a dolorosa constatação de que afinal tudo é caro. E ainda falta saber tanta coisa. Para outro dia.

Agora o fino sabor do limão 

Agora penso no fino, fresco, saudável sabor a limão. Procuro esse sabor que ressuma frescura e profundidade de gelo, nos refrigerentes, na limonada, mas não o encontro. Ainda não tive aqui a opulência de frescura e sabor de um verdadeiro limão cortado ao meio, sangrando o seu sumo que não poupa o palato, que o cura da sede.