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segunda-feira, outubro 17, 2005

O Leitor Nocturno [3] 





Continuo com a propensão para ler de noite, ainda que a compulsão tenha atenuado grandemente como actividade vital. Não há nada como a vida real para deitar por terra todas as boas fantasias de leitura de um plano magnífico. A mínima gravilha na engrenagem das minuciosas rodas da leitura solitária acabará por sabotar o plano, que cairá sem glória. Ou basta algo menos que gravilha, apenas grão de poeira no ar, a dar à volta do nosso nariz.

Os meus últimos meses têm sido meses e dias de grande decomposição. A todos os níveis. Pessoal e familiar [parar, mudar de sítio, recomeçar de outra maneira], profissional, se posso falar assim quando tenho profissão em reserva [regressar, reconfigurar, retomar rotinas, reinventar... partir de novo], na saúde [parar e tocar a marchar de novo, com interregnos e esta vinda às boxes, de agora]... Preciso de me recompor destes últimos meses, inventar novos caminhos para a leitura que tem de ser feita, que está por fazer. Preciso de me recompor de tanta intensidade frouxa. Tenho leituras à minha volta, meio derrotadas, sem leitor de cabeça levantada. Livros, jornais, DVDs, mais livros e a miragem que tanto desejo de uma cálida mesa de café, sob a fina película vertical da chuva que cai ou que apenas ameaça, que me promete horas e horas de leitura tranquila e redentora.

Quando regressar a casa não sei onde aninharei os jornais e os livros para ler, sob o conforto da chuva. Talvez nas "Arcadas" ou no "Quintal". Ou na "Pequena Maravilha"... tudo lugares sem nomes à altura da dignidade de que gostaria de investi-los: verdadeiros templos da leitura ao meu serviço. Mas é o que há, nada a fazer. Estou-lhes imensamente gratos a todos e em breve chegará a Primavera com a sua ameaça de chuva e a sua montra de sol e vento fresco a modelar-nos o sovaco e o resto desprevenido do corpo.

Também posso ir para a geografia do sul, lá mais a sul, onde estaria provavelmente agora se não estivesse no HGO. Mas isso são outros saffaris. Depois, a terra branca em que retomo o gosto de viver as pequenas grandes coisas familiares, a terra mareada de sal, lá mais confinada, onde redescobri que pode haver sempre outro lugar para se estar perdidamente bem sem fugir para longe.

E também poderia mudar o título, antes de retomar a leitura. E tentar ser um leitor diurno. A começar sempre de noite, claro. Podia tentar e acho que é isso que vou fazer quando tiver sobre o meu corpo e sobre o meu espírito um mais forte domínio da vontade. Depois "leremos" todos, depois falaremos.

Comments:
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