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sábado, outubro 22, 2005

Descrição perturbadora e obsessiva acerca do modo de comer caracóis 



Devemos dar a uma obsessão a sua verdadeira importância: toda a que ela tem, muita, o mais possível. É o meu caso com os caracóis cozinhados de acordo com as receitas tradicionais portuguesas. Aos caracóis ou os como com imenso agrado e voracidade, ou os fantasio ardentemente. Mas também estou, frequentemente, imensos períodos de tempo esquecido, amnésico, sem os comer e sem os fantasiar. Depois desperto e faço uma destas duas coisas obsessivamente. Como é o caso, agora.



Este ano comi caracóis menos de uma meia dúzia de vezes, o que não é nada, e agora não paro de os fantasear permanentemente. Ontem falaram-me de uma casa, um templo aos caracóis, que fica para os lados da Torre da Marinha, inteiramente dedicada aos caracóis de todas as cores, tamanhos e feitios. Desde então a minha alma penada tem vagueado por lá, por aqueles lugares, em busca do sítio.

Imagino que entro no templo e me sento a uma das mesas. Não imagino o cenário com detalhe. Peço, não caracóis, mas caracoletas. Mais cheias, volumosas e carnudas. Com algo para comer. O grau de relutância cresce em muitos quando falamos de caracoletas. O que há de suspeito no gosto pelos caracóis, cadaveres moribundos encolhidos dentro da concha no momento da morte, cresce quando falamos destes frutos maiores, as caracoletas. Quem não gosta dos primeiros deve abominar os segundos, imagino eu.



Falo de cor, porque não como caracoletas há décadas. Comia-as à mistura com caracóis, quando era garoto, na casa da avó. Não me recordo de o ter feito noutra altura, mas não é possível que tenha entretanto perdido o gosto pela bizarria.



Imagino que uma caracoleta estende o corpo para fora da casca, ficando paralisada e preparada para o meu banquete, depois de cozida na água fervente. Assim até é mais fácil. Basta pegar na casca redonda e acastanhada, mergulhada no fundo do molho, fixar o corpo escurecido com os dentes e puxar. Um movimento de gáudio ainda contido, que desenrola continuamente a espiral da caracoleta. A parte escura, que nalgumas receitas é retirada, a que levanta mais suspeitas quer pelo conteúdo, quer pelo formato espiralado e retorcido que se envolve no interior da casca, vem no fim, recalcitrante. Uma aspiradela rápida, coordenada com um movimento de abertura da boca, deixa cair para dentro o petisco. A carne da caracoleta resiste mais que a do caracol, esta, naturalmente é mais miúda e quase se desfaz na boca. A caracoleta come-se mesmo. No caracol, por vezes, a espiral parte-se, o que obriga a exercícios de uma motricidade digital muito fina. Nas caracoletas penso que o ênfase está dado no mastigar. Mais para mastigar, um prazer mais denso, mais radical, mais perto da estranheza de comer deliciadamente um bizarro e inofensivo animal deslizante.

Por vezes a carne deixa escorrer o molho que sobra. Não se pode perder sequer uma gota desse molho que envolve, embebe, impregna de ominoso sabor picante e apaladado a carne que mastigamos. Podemos depois usar a concha vazia como colher e retirar o que está no fundo, uma mistura irrepetível de sabores e temperos.



Não sei quando se termina, quando paramos isto. Só sei que não é no fim.


Comments:
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