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quarta-feira, setembro 28, 2005

Os meus cafés [3]: da despedida, uma paixão breve, uma espera 



Em frente à António da Costa, a escola breve de poucos dias, o trânsito e o barulho são infernais. Quando as aulas terminam parece que tudo desaba, numa orgia de ruído e de confusão. E no entanto, aquele recanto, coberto de uma folhagem fresca muito rara [não há esplanadas debaixo das árvores] é um lugar onde apetece estar. Chegávamos sempre uma hora antes, com tempo suficiente para esperar. Mas estes dias já foram de ansiedade e de stress. A partida estava inscrita em todos os momentos, nas conversas de mesa, no silêncio, na ideia de que aquele era, de certo modo o nosso café da despedida.

Esta tarde não foi diferente, porque foi a última tarde, a última ida à escola. Estive todo o tempo ao teclado, a escrever freneticamente recados de última hora. Quase anoitecia quando saímos dali e voltámos para casa.

A esplanada fica um pouco ao lado e à vista do novo Teatro de Almada, o Teatro Azul. Imaginei, antes de Macau, que iria aqui passar belos momentos de espera, no café daquele edíficio insólito que parece o interior de uma piscina virada do avesso, como um polvo ultrajado. Não sei o que parece visto desde o interior; talvez pareça, definitivamente, o exterior de outra coisa cujas vísceras ainda não foram vistas. Afinal tudo foi diferente.


Não sei como será a espera junto ao edifício condenado da Escola Portuguesa de Macau, nem sei se alguma vez terei o prazer de esperar lá, numa mesa de plástico vermelha, pela saída dos alunos das aulas da tarde. Posso prescindir da fantasia da montra recoberta com os desenhos barrocos de um dragão que cospe fogo, mas gostaria de viver algumas vezes a espera sob as ramagens de uma vegetação exótica, agitada pela brisa fresca que vem do lado do mar. Não sei o que estarei então a beber, mas sei que a espera é o único tempo que nos sobra e liberta. Ele já aprendeu isso comigo e repete-o a mim como argumento, como evasiva, quando lhe parece que o censuro por ter de esperar demais em algo em que notoriamente se atrase. Disse-lhe, nalgum momento de paz entre nós, que esperar é um dos maiores prazeres que nos pode ser oferecido, uma verdadeira dádiva que nos liberta da economia inexorável do tempo. Quando esperamos, esse tempo é verdadeiramente nosso, não do outro que nos promete a sua presença e nos ameaça com a agenda rotunda da sua vontade e das suas palavras. Esperar, tanto quanto possível sem a expectativa de que nos encontrem realmente, ou pelo menos, sem essa consciência excessiva de que seremos encontrados por quem nos procura e vem ao nosso encontro. Eis aquilo de que falo.

Tenho algumas histórias felizes de esperas longas, demoradas, que acabaram bem. Tenho uma história infeliz de uma espera que foi quase um desencontro, mas que acabou mal, muito mal, com a espera interrompida e toda a perspectiva de uma tarde de café junto ao rio, de viagem fluvial depois, de passeio pela cidade e regresso a casa, completamente sabotadas pela excessiva simpatia e pelo cuidado extremo do retardatário. Ter esperado a tarde inteira teria sido uma espera feliz, um momento raro de liberdade e de evasão.


Quando esperamos, todo o tempo é apenas nosso, e nós pertencemos inteiramente a essa falta, sem laços e sem vínculos. É como se ficássemos do lado de fora, ou ao lado de todas as cadeias de acontecimentos, de todas as séries de factos e de coisas vertiginosas. Nada nos condiciona, estamos em face de nada, apenas em face de nós mesmos. Não sei como vai ser esta nova espera que começa amanhã, pelo final da tarde, que afinal já principiou esta noite. Que foi começando desde há três semanas talvez. É, contudo, uma espera de sinal diferente. Espero o que me faz falta, não o encontro contingente. É outra espera. A espera de uma parte de mim que se afasta contra o próprio instinto de conservação e de sobrevivência, não a espera do outro que se aproxima. Não sei, nunca aprendi a conviver com isto, com esta falta. Mas sei que se aprende rapidamente com a adversidade, mesmo se a aprendizagem pode por vezes imitar uma pequena agonia, uma pequena morte. E que essa aprendizagem rápida e silenciosa é, nada mais, que a resignação. Estou pronto para começar.

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