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segunda-feira, setembro 12, 2005

Os meus cafés [2]: Uma sondagem desfavorável, à mesa do Dom Casmurro 



De esplanada no Dom Casmurro

Não é o meu café, mas reconheço que é o mais bem concebido dos que por aqui há; desde o nome, que cita o famoso personagem do livro de Machado de Assis [perguntei hoje, finalmente, e disseram-me isso] ao cuidado com o espaço e com os acabamentos de verdadeiro café de sociedade. É um café café. Apenas fica a perder com a perspectiva que se alcança da esplanada, que não é propriamente um cenário balnear.

Mas aqui não há nenhuma que escape sob esse ponto de vista. O melhor é ocupar uma mesa e mergulhar em qualquer coisa absorvente, incluindo uma chávena de café bem fumegante, esquecendo o ruído, a sujidade, o cocó de cão, a grosseria da mesa do lado, a obscenidade pública, o tráfego infernal. A esplanada, qualquer uma, nem especialmente esta do Dom Casmurro, é uma ilusão medíocre, sem verde, sem plantas, sem vergel, sem rasgo e com vista para nada que valha a pena.

O Dom Casmurro fica bem em frente à escola primária; por vezes observava a sala do Miguel no primeiro andar, desde uma das suas mesas. Mas não frequentava. O interior parece-me demasiado metalizado, escorregadio, lavado com Pronto. Mas está-se lá bem; hoje fiquei lá duas horas a ler o dossier do DN sobre o início do ano lectivo. Ontem e anteontem estive lá com o Miguel, na esplanada, fugindo de um sol de penitência, tentando ler umas coisas e percebendo que já começou a nossa despedida, uma certa forma de luto. Agora as nossas conversas procuram marcar esse território que se estreita, entre mim e ele, e que dentro de dias será uma incomensurável distância que só pode ser medida em sentimento, no vazio de uma imensa perda. Provavelmente não voltaremos os dois ao Dom Casmurro tão cedo.

Mas posso fantasiar uma rua estreita, percorrida por uma corrente incessante de gente apressada e um café pequeno, numa atmosfera húmida e sufocante. A mesa está junto à montra com caracteres vermelhos e o desenho de um dragão que cospe fogo, de frente para a rua, e dali podemos observar pouco mais do que um tumulto contínuo, como um rio. Eu tomo um café ou uma bebida exótica. O Miguel toma uma Coca Cola incompreensível. Mas isso será daqui a muito, muito tempo, e muito, muito longe do Dom Casmurro.


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