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segunda-feira, setembro 12, 2005

O Livro do Fernando chegou dos Açores 



apenas um tédio que a doer não chega

É muito belo, este título do último livro do Fernando Martinho Guimarães. E o objecto, como tudo o que sai da oficina literária da Sociedade Guilherme Cossul, sob a orientação do maestro Alberto Augusto Miranda, também é um pequeno primor. O livro do Fernando chegou-me pelo correio, numa tarde em que acordei de um sono perturbador e profundo. Veio de Ponta Delgada, Açores, num embrulho que o envolvia como uma segunda pele. O conjunto era em si mesmo um objecto de arte postal, foi como o recebi, com um sorriso, algo a despropósito.

Depois retirei a primeira pele: dei com uma breve tábua de poesia, elegante e dócil aos dedos que a folhearam. A outra pele é mais difícil. Resiste mais. É preciso ler e reler, puxar, agarrar com as mãos, fazer que rasga sem medo de estragar. Estou na função.

É um livro que espalha no leitor a melancolia das ilhas, aquele torpor de que se fala e que eu senti quando lá estive. Mas não sei dizer como o Fernando diz num poema para a luisa: "Uma ilha é um sonho adiado/ que para sempre nunca morre/ Um sonho de sal e horizonte em redor/ Uma ilha é o lugar de só nós/ sem que ausência alguma se sinta"

Continuo a leitura, poema a poema, retirando pedaços de pele que resistem. Também gosto muitos dos dias de chuva, passados no conforto da cafeína e da lã sobre a pele.

* * *

Os dias de chuva são os dias mais belos do mundo

Os dias de chuva são os dias mais belos do mundo
Se acontece pela manhã entrar no café
passando pelas notícias do dia que já foi
pouso o jornal e acendo um cigarro
como pretexto para ficar olhando
apenas olhando

A chuva ininterrupta limpa a calçada
e pela vidraça do café agrada-me
ver as pessoas com o olhar surpreso
do habitual

Comments:
era mesmo de alguém como vc que precisavamos no nosso novo semanário... que está em www.imprensacritica.blogspot.com... parabéns
 
Agradeço as palavras simpáticas do seu comentário. Mas afinal o que é "óbvio"? E de que negação se trata? Tem a ver com o meu texto? Fiquei um pouco perdido... Em geral é sensato, não digo negar o óbvio porque sim, de forma automática, porque isso seria uma contradição lógica, mas ter uma atitude crítica contra tudo o que é apresentado como sendo óbvio. Nada é assim tão óbvio, nem mesmo esta afirmação... infelizmente. Por isso, no nosso conhecimento, parece que tudo é relativamente inconsistente.

Cumprimentos.
 
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