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sábado, setembro 03, 2005

Ler no escuro 

Acordar durante a noite, no quarto escuro. Na casa em que se nasceu há algumas dezenas de anos, mas de que se ignoram os recantos mergulhados na escuridão. Tactear com os dedos esticados como antenas até encontrar a parede, uma linha, um caminho que nos conduza até ao interruptor. Depois seguir o instinto, lendo no escuro todos os sinais. A parede é rugosa e resiste à leitura, os dedos encontram o caixilho de um quadro que balouça e não revela nada, depois a ombreira de uma porta que se desloca e se abre para mais escuridão. A madeira pintada dá lugar a mais parede, a outros caixilhos de quadros com figuras religiosas que a escuridão não deixa ver, e o sentido desta leitura começa a tornar-se caótico e perturbador. Estarei noutra divisão, longe do quarto? Cada objecto é um obstáculo, mas não chega a ser um símbolo, não explica nada. Mais parede na ponta dos dedos e a impressão confusa de que ando em círculos por uma casa conhecida, de que desconheço afinal uma coisa tão simples como a localização do interruptor. Continuo mergulhado na mais completa escuridão, como quem cai no meio de um texto escrito numa língua conhecida mas de que não se percebe nada, porque falta o interruptor. Passaram segundos, talvez alguns minutos, e a escuridão parece constituir em meu redor uma gaiola de paredes robustas, uma espécie de parede de vento que ninguém pode penetrar. Um cárcere feito de imagens e representações duras, como na novela de Bioy Casares... El Informe de Brodie. Senti que uma espécie doméstica de pânico se aproximava; o de sentir-me preso num lugar familiar, estranhamente familiar, mas ilegível. Cada vez mais confuso. Com mais simplicidade que esta Felinni metaforizou a morte num dos seus filmes... o Amarcord?
Finalmente, mais cedo do que merecia, encontrei o interruptor com a ponta dos dedos curvados. E não consegui afastar a suspeita de que, durante minutos, tinha andado em círculo, num círculo mínimo, fechado, cego e tonto. À procura de um interruptor, na casa em que nasci.

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