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sexta-feira, setembro 30, 2005

Chegaram 

Depois de um dia inteiro sem sinais, - nada de nada -, já a deixar crescer alguma ansiedade, recebi uma chamada do outro lado do mundo. De PC para o telefone fixo. De momento, tenho mais curiosidade do que saudades, mais desejo de saber como foi e como é tudo; o pormenor do desenho da chávena de café ou o desenho da voluta, a cor do rodapé da casa que se engordura com o tempo, a cor das nuvens e o sabor do vento na boca, o ruído da madeira das escadas do prédio velho e o esgar do chinês que vende cigarros na esquina, o cheiro das ruas e o ruído das folhas das árvores agitadas pelo vento que vem do continente.

Sei que se apanham rãs pelas ruas [estranho país aquele], que se sua abundantemente dos dedos à chegada, que o barco partiu tarde, que o imprevisto também irrompe por aquelas bandas do mundo, que a Taipa fica longe num país onde tudo é próximo. Amanhã saberei mais.

quinta-feira, setembro 29, 2005

Chegaram? 

Não sei, mas imagino que sim. Pelas contas que sobreviverem aos fusos horários são agora 18.15 naquela parte do mundo. O ferry deve estar a partir, quase tocando a superfície da água, sem fricção, para percorrer os 60 km em cerca de uma hora. A chegada ao porto exterior de Macau não a imagino sequer, porque a imaginação consiste frequentemente em elaborar extraordinariamente o que é banal e rotineiro para todos menos para nós, para quem tudo parece excepcional e festivo em alto grau. Fico à espera de notícias.

Nas nuvens 


Sem atrasos, chegam a Hong Kong dentro de três horas. Mais floco menos floco. Quando eu me levantar, para corrigir o meu jet lag de trazer por casa. Depois é o barco directo para Macau, com hora marcada, e então, fim de tarde, princípio de noite na ciadade do delta do Rio das Pérolas.

O meu jet lag 



Eu também sofro de jet lag. Mas sem o prazer e sem o incómodo da viagem. De momento, enquanto escrevo, estou a tentar apanhar o sono para não perder a manhã. Adormeci pelas onze da noite, reabri os olhos durante a parte final da Quadratura do Círculo, voltei a acordar mais tarde e depois despertei. Vim aqui ver as notícias; cá estava o mail de Londres. Agora que passaram algumas horas, vou tentar dormir um pouco mais para não dar este tempo por desbaratado.

Tenho de me habituar aos fusos horários... só não sei a quais. O meu tempo não é a hora legal de Lisboa; não se mede pelo UTC + 1, de certeza absoluta. Mas qual é afinal a hora por que devo acertar os ponteiros do meu relógio? Apetecia-me que esta pergunta não fosse retórica.

Miguel, mais rápido que a própria sombra 

O Miguel chegou a Londres e colou-se ao primeiro PC para me escrever um mail:

"Oi ja estou em londres.
como e que vai ai?
tao todos bons?
respondam mas nao vou ler neste pc."
Eram oito da noite, aqui e lá, eu estava a ver as notícias ou no café a ler, distraído com o tempo. Só agora, depois de um sono perdido, vi a mensagem. A minha resposta irá lê-la talvez só em Hong Kong ou em Macau, não sei quando; certamente mais cedo do que imagino.
E agora onde estarão? Algures, no sono, entre a Índia e a China. Na Ásia, nessa parte do mundo que nos falta e agora entrou definitivamente nas nossas vidas. Também na minha, que fiquei por cá.

quarta-feira, setembro 28, 2005

Partida, Departures 



Cheguei a tempo, bem a tempo de confirmar que uma partida para uma separação tão prolongada não nos é cobrada de uma só vez. Estivémos mais de uma hora no Meeting Point, depois um rápido cheek in e a caminhada para a zona de partida. Tudo estava bem, finalmente sem a demasiada excitação que parece preceder sempre em muito tempo, em tempo excusado e perdido, a hora da partida, que acabamos por descobrir lá mais para diante, bem resguardada de qualquer atraso.

Não sabia despedir-me, porque não tenho esse costume com os que me são mais próximos. Mas julgo que não me enganei no protocolo; nem demasiada secura, nem excessivo sentimento. São os meus, a minha família. Isso também não conta demasiado. Enquanto sobrevoam a velha Europa, a caminho de Londres, onde nunca estive, fico à espera de notícias. Das cartas do Oriente, de ouvir a voz clara e nítida do outro lado da linha.

Os meus cafés [3]: da despedida, uma paixão breve, uma espera 



Em frente à António da Costa, a escola breve de poucos dias, o trânsito e o barulho são infernais. Quando as aulas terminam parece que tudo desaba, numa orgia de ruído e de confusão. E no entanto, aquele recanto, coberto de uma folhagem fresca muito rara [não há esplanadas debaixo das árvores] é um lugar onde apetece estar. Chegávamos sempre uma hora antes, com tempo suficiente para esperar. Mas estes dias já foram de ansiedade e de stress. A partida estava inscrita em todos os momentos, nas conversas de mesa, no silêncio, na ideia de que aquele era, de certo modo o nosso café da despedida.

Esta tarde não foi diferente, porque foi a última tarde, a última ida à escola. Estive todo o tempo ao teclado, a escrever freneticamente recados de última hora. Quase anoitecia quando saímos dali e voltámos para casa.

A esplanada fica um pouco ao lado e à vista do novo Teatro de Almada, o Teatro Azul. Imaginei, antes de Macau, que iria aqui passar belos momentos de espera, no café daquele edíficio insólito que parece o interior de uma piscina virada do avesso, como um polvo ultrajado. Não sei o que parece visto desde o interior; talvez pareça, definitivamente, o exterior de outra coisa cujas vísceras ainda não foram vistas. Afinal tudo foi diferente.


Não sei como será a espera junto ao edifício condenado da Escola Portuguesa de Macau, nem sei se alguma vez terei o prazer de esperar lá, numa mesa de plástico vermelha, pela saída dos alunos das aulas da tarde. Posso prescindir da fantasia da montra recoberta com os desenhos barrocos de um dragão que cospe fogo, mas gostaria de viver algumas vezes a espera sob as ramagens de uma vegetação exótica, agitada pela brisa fresca que vem do lado do mar. Não sei o que estarei então a beber, mas sei que a espera é o único tempo que nos sobra e liberta. Ele já aprendeu isso comigo e repete-o a mim como argumento, como evasiva, quando lhe parece que o censuro por ter de esperar demais em algo em que notoriamente se atrase. Disse-lhe, nalgum momento de paz entre nós, que esperar é um dos maiores prazeres que nos pode ser oferecido, uma verdadeira dádiva que nos liberta da economia inexorável do tempo. Quando esperamos, esse tempo é verdadeiramente nosso, não do outro que nos promete a sua presença e nos ameaça com a agenda rotunda da sua vontade e das suas palavras. Esperar, tanto quanto possível sem a expectativa de que nos encontrem realmente, ou pelo menos, sem essa consciência excessiva de que seremos encontrados por quem nos procura e vem ao nosso encontro. Eis aquilo de que falo.

Tenho algumas histórias felizes de esperas longas, demoradas, que acabaram bem. Tenho uma história infeliz de uma espera que foi quase um desencontro, mas que acabou mal, muito mal, com a espera interrompida e toda a perspectiva de uma tarde de café junto ao rio, de viagem fluvial depois, de passeio pela cidade e regresso a casa, completamente sabotadas pela excessiva simpatia e pelo cuidado extremo do retardatário. Ter esperado a tarde inteira teria sido uma espera feliz, um momento raro de liberdade e de evasão.


Quando esperamos, todo o tempo é apenas nosso, e nós pertencemos inteiramente a essa falta, sem laços e sem vínculos. É como se ficássemos do lado de fora, ou ao lado de todas as cadeias de acontecimentos, de todas as séries de factos e de coisas vertiginosas. Nada nos condiciona, estamos em face de nada, apenas em face de nós mesmos. Não sei como vai ser esta nova espera que começa amanhã, pelo final da tarde, que afinal já principiou esta noite. Que foi começando desde há três semanas talvez. É, contudo, uma espera de sinal diferente. Espero o que me faz falta, não o encontro contingente. É outra espera. A espera de uma parte de mim que se afasta contra o próprio instinto de conservação e de sobrevivência, não a espera do outro que se aproxima. Não sei, nunca aprendi a conviver com isto, com esta falta. Mas sei que se aprende rapidamente com a adversidade, mesmo se a aprendizagem pode por vezes imitar uma pequena agonia, uma pequena morte. E que essa aprendizagem rápida e silenciosa é, nada mais, que a resignação. Estou pronto para começar.

Pela China Dentro, em frente ao Pav. Atlântico 



É o livro para a viagem longa, entre Londres e Honk Kong; também em metáfora, entre um mundo e outro. Um livro especialmente bem escrito que ajuda a compreender a singularidade e a excepcionalidade chinesa. Depois de ler este relato de um jornalista português no Oriente, António Caeiro, vivendo a China com a consciência da diferença e da proximidade, com a família, vivendo a China como um lar emprestado, durante doze anos, a minha visão mudou. O autor escreve com rigor, distância, afectividade, ironia e sentido crítico e o resultado é um livro de viagens, como alguém comentou na imprensa, com grande fôlego, mas também um livro de análise das transformações económicas, sociais e e culturais recentes que varreram a China.

A China é um país capitalista, sob a direcção política do Partido Comunista. O dogma é o mercado a funcionar, sob a batuta das directivas do Partido que não abdica do seu papel dirigente. Alguns dos deputados do Congresso do Povo chegam às sessões no seu jacto particular; são os empresários que injectam na economia chinesa um novo princípio, fazendo convergir a economia de mercado com os princípios da sociedade socialista. A justificação dogmática é frágil, intelectualmente nula. Puro pragmatismo e, portanto, parece resultar em pleno, para felicidade da classe média emergente.

As histórias são exuberantes, os exemplos abundam, a imagem da China é esmagadora. Um país continente, povoado por um povo enigmático, como todos os outros afinal, e convicto da sua tremenda força de trabalho e da sua pujante criatividade. A juventude chinesa aspira a tudo o qué é novo e mostra isso no seu estilo de vida moderno e cosmopolita.

Pela China Dentro, de António Caeiro é, provavelmente, uma das melhores obras recentes para entrar na China e para a compreender. E olhando sobre o ombro desse gigante que se movimenta ainda com passos lentos e indecisos, podemos entrever Macau. Lá em fundo, como um caso especial, uma sombra de Hong Kong, uma citação oportuna da China moderna.

Lido ali, naquela mesa em frente ao Pavilhão Atlântico, no Parque das Nações. Mesmo à saída da estação do Oriente. E lido no sono de várias noites.

terça-feira, setembro 27, 2005

Quase 



É o primeiro relógio do Miguel, uma prenda de anos, um relógio a sério para medir o tamanho exacto da ansiedade, o tempo que se perde, o tempo que se esgota; agora é para medir o tempo que falta. O primeiro relógio, e logo para mudar de meridiano muitas vezes ao redor do mundo. Com vários continentes pelo meio.

Faltam poucas horas. Amanhã por esta hora estarão quase a caminho de Macau, de Londres, da Ásia, de outro mundo. Um dia inteiro entre as nuvens. Ainda falta um dia inteiro.

Fugiu 

Esta tarde, na esplanada em frente à António da Costa, em Almada, uma cigana chamou pelo filho: "- Anda cá Nazareno!"

Oração da noite 



Quando aqui chego, se venho tarde, já depois do jantar, lá pelas dez, onze da noite [agora passa da meia noite e meia, hora UTC+1], já quase amanhece em Macau. São mais sete horas, se as minhas contas andam certas. Dentro de meia hora as crianças da Escola Portuguesa começarão as aulas, a não ser que a monção seja uma ameaça e o vento sopre demais. Imagino as ruas de nomes exóticos, portugueses, como um formigueiro contínuo, de pessoas que se esquivam ao trânsito, de motas que buzinam aos peões, de carros que buzinam a todos eles. Uma cidade que acorda, como acontece com todas as cidades que dormiram um sono intranquilo, agitado.


A minha ronda nocturna por Macau, enquanto Macau desperta para um novo dia, começa por ver como está o tempo. Depois vou dar uma vista de olhos às notícias da TDM, que resumem a actualidade do território em três breves blocos, três flashes do MediaPlayer, que me dão a ilusão de assistir a um verdadeiro serviço informativo em directo. À Rádio Macau, que fornece ficheiros dos programas diários, notícias, entrevistas, análises detalhadas das peripécias da superliga portuguesa, etc, não costumo dedicar muito tempo. Passo aos jornais. São três. O HOJE MACAU, com aspecto gráfico de uma revista de choque, quase tablóide [a Ana Rita Alves, que colaborou lá até há poucos anos, que me desculpe], o Ponto Final, que é o Portal do Diário de Macau e, finalmente, o Jornal Tribuna de Macau .

As eleições para a AL [Assembleia Legislativa ] foram no domingo passado. Pereira Coutinho, da Lista "Nova Esperança" superou todas as expectivas, sendo eleito com quase dez mil votos. Foi o sexto melhor resultado, em termos de listas, obtendo um lugar de deputado em doze da eleição directa. O único nome com sílabas em português, da nossa etnia, como explicava uma apoiante. Sales Marques ficou abaixo das piores previsões.

Hoje, terça-feira, a esta hora da manhã, quando as crianças da Escola Portuguesa de Macau já entraram nas salas de aula e começam o dia, ainda é tempo de rescaldo. Uma parte disto, que li e que escrevi, e que mal compreendo ainda, já me pertence e já me ocupa um pouco da noite. Como uma oração.


A etnia portuguesa de Macau 

Dar com um parágrafo destes num dos jornais de Macau, é coisa para mudar de repente a nossa visão do mundo: "A directora de campanha da lista Nova Esperança, Rita Santos, disse ontem ao PONTO FINAL que foi realizada uma sondagem há cerca de quatro meses, que revelou que trinta a quarenta por cento dos nossos eleitores é de etnia portuguesa”.

Nunca me tinha imaginado como fazendo parte de uma etnia. Provavelmente porque nunca me imaginei noutro lugar entre outra gente. E a ideia de uma etnia portuguesa parece-me contraditória em termos.

Fui ao Houaiss ver: "etnia s. f. (sXX cf. AGC) ANTROPOL comunidade de indivíduos que se diferencia pela sua especificidade sociocultural, reflectida principalmente na língua, religião e maneiras de agir; grupo étnico [Para alguns autores, a etnia pressupõe uma base biológica, podendo ser definida por uma raça, uma cultura ou ambas; o termo é evitado por parte da antropologia actual, por não haver recebido conceituação precisa.]"

segunda-feira, setembro 26, 2005

Pesadelos, sonhos 

Veio de um pesadelo; de um daqueles terrores nocturnos que ajudam a desenhar penosamente os contornos da consciência, enquanto se está no recato do sono. Afinal nem o sono é seguro, porque a imaginação de uma criança está sempre povoada de monstros e de figuras inverosímeis, que não existem mas que são possíveis. Medos, inseguranças, dúvidas... está lá tudo, sem forma, sem um sentido preciso, mas à espera de uma oportunidade para jorrar com o ímpeto de um vulcão que expulsa a lava. Felizmente eu estava aqui ao lado e acorri para o tranquilizar. Agora dorme de novo, a respiração é regular, ouve-se daqui, enquanto toco no teclado. Dentro de horas, apenas horas, este sopro, pelo qual eu também respiro e que me mantém vivo, estará muito longe. Demasiado longe para ser possível imaginar agora o quanto é longe. Talvez que nesta distância de meio mundo, continentes e oceanos entre um e outro, acabemos por trocar de pesadelos. Eu aceito ficar com todos só para mim, para que ele possa gozar apenas dos sonhos. Os meus e os dele.

Está-se ou não se está 

Umas vezes sim, outras não. Por vezes sinto-me 'flamenco', outras vezes nem por isso, seja lá o que for esta confidência cheia de presunção e água benta. Há dias falhei, meio de propósito um recital aqui em Almada, - [felizmente não perdi há semanas atrás o Vicente Soto 'Sordera' nem a Macanita, com um esforço físico proporcional ao prazer que me deram], - e agora não me prendi ao programa da TVE, com jovens cantores do género. Desligar a televisão a meio de um fandango de Huelva, parar de ouvir uma música destas, é uma das minhas fórmulas do sacrilégio. Mas às vezes pecamos com naturalidade, mesmo se sem volúpia. Voltarei ao flamenco, um dia destes.

sexta-feira, setembro 23, 2005

"O cheiro do napalm pela manhã..." 

Vale por um grande verso diabólico de um poeta da guerra e da epopeia. A deixa do coronel surfista de Apocalipse Now. "Adoro o cheiro do napalm pela manhã." O filme de Copolla está a terminar na RTP 1 [Kurtz já deve ter sido esquartejado como uma vaca no sacrifício] e estas frases nunca se esquecem.
Vim à estante procurar o livrinho de Joseph Conrad - El Corazón de las Tinieblas - que li numa tradução espanhola da Alianza Editorial. O filme adapta o livro, ou melhor, aproxima-se da sua atmosfera sufocante e agónica. Apenas isso aproxima o filme de Copolla, - uma tragédia no Vietnam, - do livro de Conrad, que é uma vaga e fiel citação semi-autobiográfica, na subida do rio Congo.
Para ajudar à festa li o livro há alguns anos, enquanto descia de canoa o rio Douro. Não foi tão dramático e foi a descer, o que me afasta desde logo daquela suspensão dramática que percorre todo o livro de Conrad e me deixa a meio de um exemplo ridículo.

Um intestino em férias [2] 

Sou um intestino em férias, a deslizar devagar para o stress de cada dia. E hoje foi um daqueles dias consagrados a inventar metáforas sobre o trânsito intestinal e a interpretar as contrações, os espasmos e as manifestações ruidosas que ocorreram sob o meu abdómen. Não é possível falar disto sem um certo despudor, sem alguma falta de gosto. Mas prefiro assim; aceitar esta orgia lodosa enrolada sobre si mesma, como uma cornucópia, que protesta, que geme e que encaminha para fora uma massa irreconhecível de comida esmagada e diluída em ácidos. Estes dias ajudam-me a confirmar que nada somos sem os intestinos, mas que também pouco somos com eles neste desvario. Acredito que eles são a nossa alma, ou o essencial da nossa alma. E isto é dizer tudo. Por eles passa tudo o que nós somos. E neste momento sou apenas um intestino em férias que redescobre num recesso da imaginação a fantasia de morder uma fatia de coirates.

terça-feira, setembro 20, 2005

O mais completo livro sobre Dragões [os Anjos e os Monstros...] 

Chama-se Dragonologia e é um livro sobre os Dragões. Tal como os livros sobre os anjos ou sobre os elfos, os faunos, este Tratado tem a imensa pretensão de discorrer com minúcia acerca do que sabemos que não existe. Claro que é um simples divertimento para crianças que cativa qualquer adulto mais disponível para a fantasia. Nenhum escrúpulo da mais estrita racionalidade tem de resistir à fábula de um mundo simplesmente possível, em que os Dragões do Ocidente se distinguem, pela natureza da sua chama, dos Dragões do Oriente mágico, cujo veneno não tem nestes qualidades combustíveis.


O Tratado, que também é um manual, ensina o explorador a localizar e observar Dragões. A busca e a obervação obedecem a um protocolo de minúcia e paciência que são parte da verdadeira atitude científica.

Lembrei-me dos Anjos de Swedenborg e dos Monstros de José Gil, o mesmo autor que escreve agora sobre o mal português. Outra história. Emanuel Swedenborg escreve-nos acerca Do Inferno, do Céu e dos Anjos [Do que foi visto e ouvido por...], José Gil faz-nos em Monstros, uma taxonomia apurada e precisa dos monstros que representam a potência máxima da alteridade. Os Dragões são o inexistente, os Anjos o inefável, que representam o homem de forma inversa, os Monstros são o outro, aquela parte precisa de que eu me retiro, de que retiro tudo o que havia ainda de humano.


Recomendo este Tratado de Dragonologia, sobretudo aos ateus de todas as fés, como eu. Uma obra do Dr. Ernest Drake, publicada pelos Livros Horizonte. Manufacturada na China, terra de dragões, como sabemos bem. Foi a nossa prenda de anos para o Miguel, ontem. Vou ler.

Expresso para Díli 

Eu bem tento apanhar o Expresso Lisboa - Díli, mas a Thipon continua completamente a leste. Só sei que partiu daqui e chegou a Timor, a 29 de Agosto, depois de uma longa espera: "Finalmente em Timor, ao fim de anos de uma relação intensa mas distante. Aqui ficará um diário de viagem, com passagens por outros destinos."

Vou seguir este diário da viagem a um país jovem e remoto. Mas como poderei chegar à fala com esta viajante que também fala de Macau?!

Fui à Baixa! 

Ia apenas para fazer uma lista de livros de Filosofia - uma lista de aquisições. Acabei por comprar, inesperadamente, dois livrinhos na FNAC. La vie sans principe [Life without Principle] de Henry David Thoreau, traduzido ao francês e publicado nas Éditions Mille et une Nuits. Entenda-se como um elogio da liberdade livre, da vida sem sistemas: "Venir au monde en étant simplement l'héritier d'une fortune n'est pas être né, mais plutôt être mort-né." [p. 17]

Também O Movimento Sofista, de G. B. Kerferd, da Edições Loyola de São Paulo, colecção Leituras Filosóficas. É um livrinho com capa de papel pardo, belíssimo na simplicidade da edição, como se tivesse sido envolto num hábito. Consiste numa tentativa de recuperação filosófica, contra a tradição da autoridade platónica, do prestígio intelectual e da modernidade teórica da sofística grega. Uma leitura que promete. Começa assim: "A hostilidade de Platão em relação aos sofistas é óbvia e sempre foi reconhecida."

segunda-feira, setembro 19, 2005

Preciso de um chapéu 



O sol afecta-me a ponto de poder apanhar uma insolação em menos de um fósforo. Quando ando pela rua procuro a sombra por instinto de sobrevivência. O sol ameaça-me. Preciso de um chapéu. Talvez encontre alguma coisa no Rossio; procurarei lá, naquelas duas lojas tradicionais, duas chapelarias de comércio antigo e de prestígio, na esquina da Praça com as Portas de Santo Antão, ao lado da Ginginha... Só aceito cobrir a cabeça com um chapéu de marinheiro, marselhês ou outro. Como já tive, aliás, e desapareceu de forma suspeita nas profundezas do armário da casa.

Tenho alguns modelos: o marinheiro da ilha de Malta e aquela imagem fugaz de Helmut Schmitd, chanceler alemão, a chegar ao nº 10 da Downing Street, de sobretudo comprido e chapéu de marinheiro na cabeça. Só vou tentar ser mais discreto que ambos. Nada de aventura, nada de política.

Um café de onde se vê o mar 



A Expo' 98 de Lisboa valeu a pena só para termos uma réplica credível do Peter ali para os lados de Loures. Estou a repetir-me. Raramente passo por lá, mas gosto sempre de entrar para ver as bandeiras e os emblemas que espalham em redor um cheiro a maresia, mais imaginado que real, apesar da proximidade do rio Tejo. O Peter é uma instituição, lá na cidade da Horta, e do seu interior vê-se a montanha do Pico, "inutile phare de la nuit". Vê-se o cais mítico da Horta, o paredão pintado com imagens saídas da imaginação delirante dos que passam nos barcos à vela, sabe-se lá à procura de quê. No Parque das Nações a magia não é tão óbvia, mas a imaginação ajuda. Ontem passei por lá, o interior estava vazio, mas cá fora a esplanada regurgitava de um público cosmopolita e bem composto. Apetecia ficar. Voltarei em breve para entrar e ficar por lá uma hora, perdido entre leituras.

Noutro lugar do Parque, na esplanada do Centro Comercial Vasco da Gama, avista-se o Pavilhão Atlântico. Outro bom lugar para estar e ver passar quem passe. Também me apeteceu ficar por ali, mas o nosso tempo estava medido. O livro é sobre a China, do António Caeiro.

domingo, setembro 18, 2005

Os Pássaros, o terror que veio do céu 

O Público fez na passada sexta-feira a entrega de um livrinho com DVD, o primeiro de um novo colecionável que me parece iresistível. Podem espreitar aqui o que vem a seguir. São alguns dos melhores filmes de Hitchcock, com um pequeno texto explicativo, e extras no DVD. Os Pássaros constituem a abertura desta pequena antologia, a que se acrescentam um "Making Of", um trailer de Cinema, o teste da personagem feminina principal, algumas cenas cortadas, fotos de produção e um final alternativo. Fica na fila, para ler e para ver.

sexta-feira, setembro 16, 2005

O novo HP está a chegar 

"Half-Blood Prince" vem traduzido por "Príncipe Misterioso". É o sexto livro da saga mística do Harry Potter, J. K. Rowling e é incontornável. Li todos os anteriores, página a página, capítulo a capítulo, noite após noite, ao Miguel, antes de dormir. O novo Potter sairá em Portugal a 15 de Outubro, um sábado, e na FNAC rondará os 17.10 €, 1.90 € abaixo do preço de capa.

Já pode ser encomendado. Informações cada vez mais frescas e actualizadas, com a aproximação da data, provavelmente aqui no sítio da FNAC.

quinta-feira, setembro 15, 2005

O Leitor Nocturno [2] 




Sou um leitor nocturno que divaga, de livro para livro. Emigro de uma leitura para outra, porque a seguinte é sempre mais urgente e reclama mais o cuidado e as tremuras da minha pupila. As minhas leituras foram abaladas pela necessidade de escrever, pela quebra com a rotina das férias e por Macau, que entrou de rompante.

Quando chego à cama leio pouco e com um cansaço tão grande que o sono rapidamente me vence e desbarata a leitura.

Parei a leitura do Desconhecido do Norte-Expresso, de Patricia Higsmith, interrompendo a corrente de policiais [mais 3 estão já à espera - Bentley, Innes e Rice] para ler Uma Época no Inferno, de Rimbaud, e para relê-lo acto contínuo em estado de maravilha. Ainda não considero acabada a releitura em estado de graça, porque entretanto chegaram outros papéis. Depois chegou Macau.

E agora estou a ler até à próxima terça-feira Pela China Dentro - Uma Viagem de 12 anos, do jornalista António Caeiro. Livro escrito pelo jornalista da Lusa que trabalhou como correspondente no Império do Meio e que conta, numa prosa irrequieta e imprevisível, como a China se transformou no final do século passado. Esse é o livro que a Manuela levará na bagagem de angústia e agonia, no avião, para a China.

Por mim, depois de terminar o livro de António Caeiro, prossigo as minhas leituras erráticas, antes que se tornem titubeantes.

terça-feira, setembro 13, 2005

Dom Casmurro, "uma noite destas"... 

Para ter acesso ao texto integral do Dom Casmurro, de Machado de Assis, clássico da Literatura Brasileira, entrar nesta Biblioteca Virtual. Creio que não há entraves de qualquer espécie. Deixo aqui os primeiros parágrafos da obra celebrada.
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Capítulo Primeiro / Do Título

Uma noite destas, vindo da cidade para o Engenho Novo, encontrei num trem da Central um rapaz aqui do bairro, que eu conheço de vista e de chapéu. Cumprimentou-me, sentou-se ao pé de mim, falou da lua e dos ministros, e acabou recitando-me versos. A viagem era curta, e os versos pode ser que não fossem inteiramente maus. Sucedeu, porém, que, como eu estava cansado, fechei os olhos três ou quatro vezes; tanto bastou para que ele interrompesse a leitura e metesse os versos no bolso.

- Continue, disse eu acordando.
- Já acabei, murmurou ele.
- São muito bonitos.

Vi-lhe fazer um gesto para tirá-los outra vez do bolso, mas não passou do gesto; estava amuado. No dia seguinte entrou a dizer de mim nomes feios, e acabou alcunhando-me Dom Casmurro. Os vizinhos, que não gostam dos meus hábitos reclusos e calados, deram curso à alcunha, que afinal pegou. Nem por isso me zanguei. Contei a anedota aos amigos da cidade, e eles, por graça, chamam-me assim, alguns em bilhetes: "Dom Casmurro, domingo vou jantar com você."-"Vou para Petrópolis, Dom Casmurro; a casa é a mesma da Renania; vê se deixas essa caverna do Engenho Novo, e vai lá passar uns quinze dias comigo."-"Meu caro Dom Casmurro, não cuide que o dispenso do teatro amanhã; venha e dormirá aqui na cidade; dou-lhe camarote, dou-lhe chá, dou-lhe cama; só não lhe dou moça."

Não consultes dicionários. Casmurro não está aqui no sentido que eles lhe dão, mas no que lhe pôs o vulgo de homem calado e metido consigo. Dom veio por ironia, para atribuir-me fumos de fidalgo. Tudo por estar cochilando! Também não achei melhor título para a minha narração - se não tiver outro daqui até ao fim do livro, vai este mesmo. O meu poeta do trem ficará sabendo que não lhe guardo rancor. E com pequeno esforço, sendo o título seu, poderá cuidar que a obra é sua. Há livros que apenas terão isso dos seus autores; alguns nem tanto.


Capítulo Segundo / Do Livro

Agora que expliquei o título, passo a escrever o livro. Antes disso, porém, digamos os motivos que me põem a pena na mão.

Dom Casmurro, Machado de Assis

O móvel novo 

Num blog sobre livros e leituras, sobre bibliotecas e sobre os caprichos de um leitor em processo acelerado narcísico patológico... não me posso esquecer de assinalar que hoje fomos buscar dois móveis novos para aumentar a nossa Biblioteca. Depois de montados, permitirão reordenar a confusão deste lugar onde os livros ocultam outros livros numa vertigem que promete não parar nunca.

Um deles ficará no hall, à entrada do escritório, com os grandes dicionários de História, as Enciclopédias e outras obras de referência. O outro ficará talvez no quarto ou na sala [logo veremos] com as biografias, as obras políticas, a memorialística... as obras feitas para o sono e para o esquecimento. Imagino-me a acordar com os livros pela frente, as biografias desafiadoras dos grandes homens. Etc.

Isto permitirá uma nova geografia aqui no escritório, com mais espaço livre, com lugar para as literaturas, para a poesia. Depois segue-se a limpeza.

segunda-feira, setembro 12, 2005

Palavras Andarilhas VII, Festival de Narração e Estafeta dos Contos, em Beja 




A VIIª edição das Palavras Andarilhas - Encontro de Aprendizes do Contar, O Festival de Narração e a original Estafeta dos Contos [em que muito indirectamente já participei num ano dos que passou], estão prestes a começar em Beja.

A 22 e 23 de Setembro são as Palavras Andarilhas, com um Programa recheado e intenso, onde pontuam nomes da literatura infantil como Matilde Rosa Araújo, António Torrado e Aliete Galhoz.

A 23 e 24 de Setembro será a vez do Festival da Narração, onde a poesia o teatro e a animação da leitura em Bibliotecas Escolares terão o seu lugar. João Paulo Cotrim e José Fanha também participam neste encontro sobre escrita e leituras.

A 22 de Setembro terá início a Estafeta dos Contos. Para perceber como funciona esta louca correria através da terra das histórias, ver aqui.

De tudo, de todo o programa, se solta um inconfundível perfume soixante huitard... se é que a famosa expressão se escreve assim como a escrevi. Mas deve valer a pena, porque a leitura não tem de ser sempre uma actividade solitária.

Os meus cafés [2]: Uma sondagem desfavorável, à mesa do Dom Casmurro 



De esplanada no Dom Casmurro

Não é o meu café, mas reconheço que é o mais bem concebido dos que por aqui há; desde o nome, que cita o famoso personagem do livro de Machado de Assis [perguntei hoje, finalmente, e disseram-me isso] ao cuidado com o espaço e com os acabamentos de verdadeiro café de sociedade. É um café café. Apenas fica a perder com a perspectiva que se alcança da esplanada, que não é propriamente um cenário balnear.

Mas aqui não há nenhuma que escape sob esse ponto de vista. O melhor é ocupar uma mesa e mergulhar em qualquer coisa absorvente, incluindo uma chávena de café bem fumegante, esquecendo o ruído, a sujidade, o cocó de cão, a grosseria da mesa do lado, a obscenidade pública, o tráfego infernal. A esplanada, qualquer uma, nem especialmente esta do Dom Casmurro, é uma ilusão medíocre, sem verde, sem plantas, sem vergel, sem rasgo e com vista para nada que valha a pena.

O Dom Casmurro fica bem em frente à escola primária; por vezes observava a sala do Miguel no primeiro andar, desde uma das suas mesas. Mas não frequentava. O interior parece-me demasiado metalizado, escorregadio, lavado com Pronto. Mas está-se lá bem; hoje fiquei lá duas horas a ler o dossier do DN sobre o início do ano lectivo. Ontem e anteontem estive lá com o Miguel, na esplanada, fugindo de um sol de penitência, tentando ler umas coisas e percebendo que já começou a nossa despedida, uma certa forma de luto. Agora as nossas conversas procuram marcar esse território que se estreita, entre mim e ele, e que dentro de dias será uma incomensurável distância que só pode ser medida em sentimento, no vazio de uma imensa perda. Provavelmente não voltaremos os dois ao Dom Casmurro tão cedo.

Mas posso fantasiar uma rua estreita, percorrida por uma corrente incessante de gente apressada e um café pequeno, numa atmosfera húmida e sufocante. A mesa está junto à montra com caracteres vermelhos e o desenho de um dragão que cospe fogo, de frente para a rua, e dali podemos observar pouco mais do que um tumulto contínuo, como um rio. Eu tomo um café ou uma bebida exótica. O Miguel toma uma Coca Cola incompreensível. Mas isso será daqui a muito, muito tempo, e muito, muito longe do Dom Casmurro.


O Livro do Fernando chegou dos Açores 



apenas um tédio que a doer não chega

É muito belo, este título do último livro do Fernando Martinho Guimarães. E o objecto, como tudo o que sai da oficina literária da Sociedade Guilherme Cossul, sob a orientação do maestro Alberto Augusto Miranda, também é um pequeno primor. O livro do Fernando chegou-me pelo correio, numa tarde em que acordei de um sono perturbador e profundo. Veio de Ponta Delgada, Açores, num embrulho que o envolvia como uma segunda pele. O conjunto era em si mesmo um objecto de arte postal, foi como o recebi, com um sorriso, algo a despropósito.

Depois retirei a primeira pele: dei com uma breve tábua de poesia, elegante e dócil aos dedos que a folhearam. A outra pele é mais difícil. Resiste mais. É preciso ler e reler, puxar, agarrar com as mãos, fazer que rasga sem medo de estragar. Estou na função.

É um livro que espalha no leitor a melancolia das ilhas, aquele torpor de que se fala e que eu senti quando lá estive. Mas não sei dizer como o Fernando diz num poema para a luisa: "Uma ilha é um sonho adiado/ que para sempre nunca morre/ Um sonho de sal e horizonte em redor/ Uma ilha é o lugar de só nós/ sem que ausência alguma se sinta"

Continuo a leitura, poema a poema, retirando pedaços de pele que resistem. Também gosto muitos dos dias de chuva, passados no conforto da cafeína e da lã sobre a pele.

* * *

Os dias de chuva são os dias mais belos do mundo

Os dias de chuva são os dias mais belos do mundo
Se acontece pela manhã entrar no café
passando pelas notícias do dia que já foi
pouso o jornal e acendo um cigarro
como pretexto para ficar olhando
apenas olhando

A chuva ininterrupta limpa a calçada
e pela vidraça do café agrada-me
ver as pessoas com o olhar surpreso
do habitual

Medo e Terror, as duas luas 



Bem a propósito o Abrupto, sempre fascinado com o que se pode ver no céu, postou hoje esta breve "janela" da órbita de Marte. É uma visão que nunca teremos, porque a Lua tem o exclusivo da nossa noite, reinando solitariamente sobre uma parte da humanidade que dorme.

Quando regressámos do Dom Casmurro, já o sol tinha desaparecido sob a linha do horizonte matemático... para falar aqui com o devido rigor astronómico. Meia lua já subia por entre os prédios e as árvores do parque, reflectindo uma luz fosca de prata. Eu e o Miguel reparámos nessa palidez e imaginámos um mundo onde a noite fosse acompanhada por duas luas, ou por uma lua maior e mais próxima. Pensámos que noutro lugar remoto, à mesma hora, outros seres racionais pertencentes a uma humanidade para nós sempre desconhecida, poderiam caminhar por outro parque, regressados do café do bairro, pensando o mesmo que nós. E que a distância entre nós e eles, com quem poderíamos muito bem trocar perplexidades e angústias, nos impedirá provavelmente de comunicar antes de que se extingam as espécies a que pertencemos.

Como será o céu visto em Macau, desde outro hemisfério, quase desde um mundo estranho?

domingo, setembro 11, 2005

NYC 

La Aurora

La aurora de Nueva York tiene
cuatro columnas de cieno
y un huracán de negras palomas
que chapotean las aguas podridas.
La aurora de Nueva York gime
por las inmensas escaleras
buscando entre las aristas
nardos de angustia dibujada.
La aurora llega y nadie la recibe en su boca
porque allí no hay mañana ni esperanza posible:
A veces las monedas en enjambres furiosos
taladran y devoran abandonados niños.
Los primeros que salen comprenden con sus huesos
que no habrá paraíso ni amores deshojados:
saben que van al cieno de números y leyes,
a los juegos sin arte, a sudores sin fruto.
La luz es sepultada por cadenas y ruidos
en impúdico reto de ciencia sin raíces.
Por los barrios hay gentes que vacilan insomnes
Como recién salidas de un naufragio de sangre.

Federico Garcia Lorca


In Poeta en Nueva York, Federico García Lorca, edición de Maria Clementa Millán, CATEDRA, col. Letras Hispánicas, 1992, Madrid

Consequências de Macau 



Ainda não falei de Macau, que entrou na minha vida sem pedir licença. Macau, onde nunca estive, nem mesmo em sonhos, porque apenas imaginava de longe, sem grande convicção, que um dia poderia passar por lá, numa viagem inverosímil pelo oriente misturada com livros e poetas. Agora pode ser diferente e Macau vai, seguramente, entrar também neste blog como uma referência permanente. Ainda não avaliei inteiramente as consequências de Macau, mas serão muitas. "Um Oriente ao oriente do Oriente"...

quinta-feira, setembro 08, 2005

Mariza 



Faz amanhã um mês que a vi e a ouvi na Praça cheia, em Vila Real. No final do espetáculo esperei junto de uma porta, com outros admiradores, livro de autógrafos em punho, mas eu fiquei ali só para a ver. Ela foi passando junto de nós, com paciência, rabiscando o nome e as dedicatórias em pedaços de papel, com letra larga e floral, recusando beijos, falando com desenvoltura, construindo o seu mito, como quem tece uma teia, deixando-se fotografar sempre com um sorriso, com o mesmo.

A Mariza está a construir um mito. Fiquei ali para a ver, depois de me ter comovido com alguns dos versos que cantou.

quarta-feira, setembro 07, 2005

Fuligem 

Sair de casa, com esforço e desgastado pelas irregularidades do dia, apenas para saborear o amargo do café. A impureza, a fuligem da água preta, misturada com uma solução química intravenosa, às voltas cá dentro. Por momentos parece que esse sabor amargo e profundo salva e redime, que preserva da barbárie.

Os Livros da vida deles 

A partir deste sítio, da Câmara Municipal de Beja [CMB] podemos chegar a algumas boas ideias sobre a leitura e o acto de ler.

Teve início hoje [estará agora a decorrer a primeira sessão, a terminar talvez num beberete] a primeira conversa sobre livros organizada pela Biblioteca Pública José Saramago, de Beja. Título genérico da iniciativa: "Os Livros da Minha Vida" . Os convidados são um abanico de personalidades, politico-culturalmente muito variadas, pluralistas.


Manuel Carvalho da Silva [hoje, pelas 21.30], Odete Santos [9 Set.], Francisco Santos [13 Set.], Januário Torgal Ferreira [15 Set.], João Paulo Ramõa [19 Set.], Carlos Figueiredo [21 Set.], Alberto Matos [27 Set.], Eduardo Sá [30 Set.], João Lobo Antunes [14 Out.], Vasco Graça Moura [20 Out.], Vitor Melícias [27 Out.], Manuel Monge [10 Nov.], Domingos Duarte Lima [18 Nov.], Mário Soares e Pedro Abrunhosa [com datas a confirmar]. Sempre pelas 21.30.

De acordo com os organizadores do programa não são "apenas os livros [que] são determinantes na construção daquilo que somos como pessoas". Claro que não, nem tãopouco o são, exclusivamente, os livros que lemos. Também os livros que não lemos e que perseguimos durante parte da nossa vida de leitores erráticos, vagos por vezes, nos marcam e nos orientam por onde há luz, por onde há sombras.
Eu carrego uma tralha de livros por ler, como um peso morto. Alguns meio lidos, outros apenas começados, a maior parte nem isso. Um dia isto merecerá um post.... O Ulisses do Joyce, nunca passei da primeira página, naquela majestosa edição da Difel, com tradução de Houais, que mete qualquer leitor em respeito. A Montanha Mágica, que já li até meio, quase, para parar no interior de uma tenebrosa tempestade de neve, que representa um arrepiante dilema metafísico, de que saí saltando da leitura por mais de uma vez. A la Recherche, apenas começado; li o primeiro volume da edição dos Livros do Brasil, nos Açores, e fiquei por aí. Salambô... dolorosamente lido antes e durante uma tormentosa viagem de avião, em classe turística, para Monastir, na Tunísia. Não pegou, nem mesmo a circunstância de ter Cartago logo ali, junto à linha do comboio ligeiro, a caminho de Sidi Bou Said, me valeu. Parei de ler, até hoje. E tantos outros: Guerra e Paz, Ana Karenina [ainda não sei hoje porque li a Ressurreição], Crime e Castigo, o Arquipélago de Gulag, A Cidade de Deus, A Decadência do Ocidente, etc.

E já agora, reler? Era outro post.

Só isto 

S. Pedro das Águias , Távora, 14 de Fevereiro de 1964 - Quando é que a arte, a servir outra fé, povoará de novo os lugares ermos e abissais de Portugal?


Diário Vols. IX a XVI [1964 - 1993], Miguel Torga,
Publicações D. Quixote, s/l, 1999


Diário X, de Miguel Torga, breve nota escrita entre o Pinhão e a caminho de Coimbra. Secura, concisão, objectividade, profundidade. Só isso, mas isto é muito.

domingo, setembro 04, 2005

Primeira visita [pioneiros do turismo cultural] 

O meu amigo Francisco, a minha amiga Isabel [O Diogo, a Beatriz], foram as primeiras visitas. Convidei-os para virem até à biblioteca do poeta; foram, de certo modo, os primeiros "turistas culturais" que chegaram aqui, a esta terra ressequida, atraídos pela força centrípeta da poesia de Sebastião. Mostrei-lhes os livros da sua obra mínima, a biblioteca reunida no armário de madeira, já em ordem, a outra parte mais desordenada, no sotão da casa; abri a arca onde guardava o restante espólio, cartas, postáis, apontamentos diversos. Vimos algumas das raridades; os livros autografados, as edições inesperadas, Raul de Carvalho, o Pacheco, Herberto, outros. Falei-lhes da obra oculta, perdida, esquecida [sabe-se lá onde] e mostrei-lhes o trabalho de escrita neste blogue, muito ao sabor do improviso, do entusiasmo e da oportunidade. Depois do "turismo cultural", sempre desgastante, veio a parte social e digestiva com um lanche dos antigos que se prolongou até à goleada do Portugal - Luxemburgo [2 golos de Pauleta, 2 de Simão, 1 de Jorge Andrade e outro de Ricardo Carvalho].

Espero que voltem, ainda antes desta obra terminada.

sábado, setembro 03, 2005

Regresso do MIL FOLHAS 

Regressou de férias estivais o caderno de sábado do Público, o Mil Folhas. Faz a capa com a biografia de Fernão de Magalhães, livro saído recentemente na Bertrand e com autoria de Laurence Bergreen. Venderá menso que o Código da Vinci, mas desconfio que é uma leitura imperdível. Longa recensão e apreciação histórica da obra para ler, no caderno do jornal.

Raúl de Carvalho entra na campanha autárquica 

Mário Simões é o candidato do PSD à Câmara Municipal de Alvito. Um grupo de apoiantes ofereceu-me esta manhã algum material de propaganda, enquanto lia o jornal no Café da Vila. No folheto que recebi lá está a proposta: "Vamos reinstituir o "Prémio Raúl de Carvalho", um grande poeta filho desta terra e que a autarquia tem ostracizado nos últimos anos."

Não voto no candidato, mas concordo inteiramente com esta proposta. Aliás, há mesmo uma história a contar acerca da atribuição do nome à Biblioteca Municipal deste concelho. Fica para contar noutro post. E talvez a palavra usada pelo candidato, - ostracismo -, não seja desajustada.

Só falta associar ao património cultural deste concelho, ao ambiente cultural da sua Biblioteca, ao seu programa, o nome e a obra modesta e silenciosa de Sebastião Penedo. Sebastião, poeta, primo de Raúl de Carvalho. Irmãos e camaradas na poesia, também na solidão em que morreram. Um, afogado nas águas sujas do Tejo, outro na frieza de um quarto de hotel, durante um certame de poesia em que participava. Encontrando finalmente a serenidade que tão bem evocou no seu poema.

Ambos poderão dizer agora, à margem das campanhas e dos partidos, e de todas as frívolas inquietações humanas: "Serenidade, és minha!"

Ler no escuro 

Acordar durante a noite, no quarto escuro. Na casa em que se nasceu há algumas dezenas de anos, mas de que se ignoram os recantos mergulhados na escuridão. Tactear com os dedos esticados como antenas até encontrar a parede, uma linha, um caminho que nos conduza até ao interruptor. Depois seguir o instinto, lendo no escuro todos os sinais. A parede é rugosa e resiste à leitura, os dedos encontram o caixilho de um quadro que balouça e não revela nada, depois a ombreira de uma porta que se desloca e se abre para mais escuridão. A madeira pintada dá lugar a mais parede, a outros caixilhos de quadros com figuras religiosas que a escuridão não deixa ver, e o sentido desta leitura começa a tornar-se caótico e perturbador. Estarei noutra divisão, longe do quarto? Cada objecto é um obstáculo, mas não chega a ser um símbolo, não explica nada. Mais parede na ponta dos dedos e a impressão confusa de que ando em círculos por uma casa conhecida, de que desconheço afinal uma coisa tão simples como a localização do interruptor. Continuo mergulhado na mais completa escuridão, como quem cai no meio de um texto escrito numa língua conhecida mas de que não se percebe nada, porque falta o interruptor. Passaram segundos, talvez alguns minutos, e a escuridão parece constituir em meu redor uma gaiola de paredes robustas, uma espécie de parede de vento que ninguém pode penetrar. Um cárcere feito de imagens e representações duras, como na novela de Bioy Casares... El Informe de Brodie. Senti que uma espécie doméstica de pânico se aproximava; o de sentir-me preso num lugar familiar, estranhamente familiar, mas ilegível. Cada vez mais confuso. Com mais simplicidade que esta Felinni metaforizou a morte num dos seus filmes... o Amarcord?
Finalmente, mais cedo do que merecia, encontrei o interruptor com a ponta dos dedos curvados. E não consegui afastar a suspeita de que, durante minutos, tinha andado em círculo, num círculo mínimo, fechado, cego e tonto. À procura de um interruptor, na casa em que nasci.

De regresso à biblioteca do poeta 

Não contava com este regresso súbito ao trabalho de arrumação e inventariação do espólio do poeta. De novo junto dos seus livros, dos seus papéis, dos documentos esquecidos na mala de fundo vermelho, posso aprofundar um pouco mais o trabalho de arrumação e limpeza da parte material, que iniciei há duas semanas, sem descurar a escrita e o levantamento fotográfico, vertidos neste blog, aos quais concedo igual importância. Primeiro a escrita, depois voltarei a meter as mãos no pó. Ora, onde é que eu ia?...

Mas hoje tenho visitas, aqui na "oficina"!

quinta-feira, setembro 01, 2005

Que se passa com as imagens [recentes] deste blogue? 

O fim de Agosto, a chegada de Setembro, trouxeram-me um problema mais: as fotografias que acompanham os últimos posts, nomeadamente sobre a pesquisa do espólio do poeta... desapareceram. Parece que recolocando o "código genético" da foto desaparecida ela retorna miraculosamente. Mas vou esperar que a anomalia se corrija por si - a ver se pega. Aos meus pacientes e raros leitores, um pedido de desculpas pelo incómodo.