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sábado, agosto 27, 2005

Tudo para ler [revistas e suplementos, cadernos, papéis] 



Muito do que é preciso ler nunca será lido. E isso é definitivo. Resolvi fazer um balanço optimista do que tenho para ler nos próximos dias e que acredito que vou mesmo ler; apesar de amanhã [já hoje...] e domingo chegarem mais jornais, mais revistas, mais papéis, com mais urgência de leituras irrecusáveis e inadiáveis.

Nos jornais começo pelo destaque de primeira página e quando tenho tempo levo a leitura de seguida, como leitor obediente. Leio muita opinião, seja política, seja de índole mais social ou cultural. Aprecio os artigos técnicos do suplemento do Público consagrado aos transportes, que têm fervido com o grande debate em torno do aeroporto da OTA e com a opção do TGV. Leio tudo sobre a alta velocidade. Em parte porque aprecio a perspectiva estética da velocidade, desde a minha preferência actual pela imobilidade - os versos modernistas de Pessoa, aliás Álvaro de Campos ["Com tal velocidade desmedida, pavorosa,/ A máquina de febre das minhas visões transbordantes gira agora..."], de Witman ["Eu canto o corpo eléctrico."], são uma consagração da beleza da velocidade e da máquina veloz -, em parte porque gostava de poder chegar a Badajoz numa hora e a Madrid em menos de três horas, para poder subir e descer a Cuesta de Moyano, junto ao Prado e ao Real Jardim Botânico, ao entardecer, ainda a tempo de salvar algum livro usado para ler na viagem de regresso.

Por vezes folheio o jornal ao contrário. Ou numa regressão parcial, de secção em secção, até decidir refazer a leitura sequencial. No caso do Público [às vezes penso que não há outro jornal] procuro frequentemente a secção de Sociedade, onde os temas da Educação se refugiaram cobardemente, a secção dos Media, as páginas onde provavelmente encontro ciência, cultura, etc. Evito o desporto, nem me prendo na secção que lhe é dedicada, ainda que hoje o destaque que li integralmente fosse acerca das competições europeias de futebol...

Mas são os suplementos e os cadernos aquilo que procuro com mais fervor, que guardo mais tempo na esperança de poder chegar a lê-los. Tenho alguns de culto. Começo pelo EL PAIS, que é, como todos sabem, um dos melhores jornais do mundo. Sobretudo é muito jornal, onde se escreve muito, sobre o mundo todo, e muito bem. Tenho lido, ao longo de muitos anos de leitor do EL PAIS, agora muito mais irregular do que antes, alguns dos melhores textos de jornalismo de que me lembro. A sua revista - agora EP[S] - faz parte da nossa família, da minha e da nossa história familiar. Temos na varanda centenas de exemplares desbotados pelo sol da El PAIS Semanal, mas definitivamente não sou um leitor de revistas. Prefiro os cadernos, os suplementos e as separatas em papel pardo, em papel rosado ou noutra combinação que não seja a opção coquette do papel couchée.


No caso do EL PAIS aprendi a gostar do excelente suplemento Domingo, que é consagrado a grandes temas de desenvolvimento em todas as áreas imagináveis que marcam a actualidade frenética do mundo. O último que me chegou às mãos ocupa-se com o Japão e as feridas ainda abertas de Hiroshima... num contexto de redefinição da política da região. Um artigo de Rosa Montero, recordando o seu trabalho para o mesmo jornal sobre a "matanza de Atocha", em 1977, vale por tudo. Uma entrevista com Jordi Savall e o mistério da música antiga, um relato estival de Julio Llamazares... completam o menú.


A Babelia é outra das minhas referências. Tenho-as todas guardadas ou pelo menos estou convencido disso. Se fosse verdade seriam largas centenas, milhares de páginas de informação e de puro prazer de leitura. A Babelia de 13 de Agosto, de há duas semanas, comprada na minha breve passagem por Ayamonte, trago-a ainda na mochila preta. Tem um conjunto de belíssimos textos sobre a Novela e as grandes histórias da literatura, e a capa com uma ilustração de Fernando Vicente parece ter-me enfeitiçado. É belíssima. Li esse dossier temático em viagem de regresso de Vila Real, numa leitura tremida. Continuo a lê-la.



O Le Monde é outras das minhas referências absolutas. Aprecio a simplicidade do lettering, associada a um gosto moderadamente clássico e conservador, a leveza da sua primeira página, com poucas fotos e sempre com a graça de uma gravura. O texto respira aqui, como no interior austero deste jornal que se oferece ao leitor como uma das suas leituras diárias. Não é absorvente, não nos prende a leituras evitáveis, não ilude, não pesa. É um jornal ultraleve e pouco espesso. 22 páginas não chegarão, a cada dia que passa?


O último número que comprei, em Vila Real, é de 12 de Agosto. Destaques para o impasse no Iraque e um caderno com um tema inesperado: o islão feminino da China, com as mesquitas reservadas a mulheres, onde mulheres imanes oficiam para outras mulheres. Um texto sobre a biblioteca particular de Enrique Vila-Matas [Un écrivain nous ouvre sa bibliothéque] - que bela ideia para o BME! - incluido num caderno que se chama, em títulos de azul, LIVRES D'ÉTÉ.



A outro nível, mas sem desprezo, também gosto de compulsar os textos do caderno ACTUAL que vem com o jornal Expresso. Há sempre que ler. A ÚNICA, revista de prestígio do mesmo jornal pesa várias vezes o Le Monde, sem a vantagem proporcional da qualidade. Também leio algumas coisas, pelo menos folheio. Ainda do Público o MIL FOLHAS, que aprecio e devoro quase sempre que posso. Parece-me um formato estável, nada pretensioso e cumprindo bem o seu papel cultural.


Recentemente também temos o Courrier Internacional [o sítio encontra-se ainda em construção]. Transporto na mochila preta os últimos dois números: o de 12 deste mês, dedicado inteiramente às Viagens, e o de 19 dedicado aos Desertos. A ler, ainda. Recentemente, porque foi um hábito de anos, muitos anos [merece um post próprio], entretanto interrompido, volto a ter à disposição o JL - Jornal de Letras, Artes e Ideias. Também um número com o tema das viagens, outro sobre o erotismo na ficção portuguesa. Sei qual o que me dá mais tesão neste momento. Nada a acrescentar...



O que é que fica de fora? A crónica encantada de Benard da Costa [sempre belíssima], no Público, as crónicas por vezes apatetadas de João Carlos Espada, cuja deriva conservadora acompanho há anos sem saber quando terminará [mas que leio e por vezes com proveito], as diatribes sempre divertidíssimas de Clara Ferreira Alves, a Pluma Caprichosa, os textos inverosímeis de Luís Fernando Veríssimo, alta literatura na folha do jornal, a crónica caudalosa e estritamente idiossincrática de Joaquim Manuel Magalhães, que eu leria com o mesmo prazer se duplicasse ou triplicasse a sua extensão, numa destas publicações, mas agora que me perdi, nem sei qual será. Bom, as opiniões do Expresso... e se quisesse ser politicamente incorrecto, mas justo e verdadeiro neste depoimento das leituras soltas, não poderia esquecer a leitura quase diária daquela referência do jornalismo popular e de proximidade, que é gratuitamente disponibilizada em praticamente todos os cafés que conheço: O Correio da Manhã.

Amanhã, quer dizer hoje [neste momento já há muito que rolam as rotativas, gemem os prelos] receberei mais leitura urgente. Os jornais não podem parar... e a leitura também não!


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