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sábado, agosto 20, 2005

Sobre a COMUNIDADE do Pacheco 

Começo por corrigir a nota de ontem. O folheto não se apresenta em folhas soltas, como me pareceu de início. Trata-se de uma brochura de 28 páginas, de papel pardo, impresso na Tipografia Correia, do qual se fizeram 6.000 exemplares, mais uma edição especial de trezentos exemplares, "numerada e assinada pelo Editor, com um "poster-hors-texte", original de Carlos Ferreiro". A edição tem as suas páginas numeradas, da página de capa à contracapa, e as duas primeiras folhas encontram-se separadas do corpo do folheto, presas apenas por um clip. Provavelmente rasgadas por descuido. Dois agrafos seguram, nas páginas centrais, as restantes folhas da brochura. COMUNIDADE tem dedicatória impressa [para além do autógrafo pessoal a que me referi em post anterior] ao escritor e amigo Mário Cesariny: "Ao/ Mário Cesariny de Vasconcelos./ Poeta do corpo."

Para registo mais completo colocarei neste mesmo post, dentro de uma semana, fotos do livrinho do Luiz Pacheco. De momento nada feito...

* * *

COMUNIDADE é um texto arrancado da carne e da miséria. Mas consegue elevar a pobreza a uma dimensão de ternura e de grandeza humana que eu não esperava. Nunca tinha lido nada de Luiz Pacheco, que me lembrasse que era dele, e digo ler com a consciência de estar a seguir um fio narrativo. Agora li-o [na noite passada, durante o jogo do Sporting] e gostei muito desta escrita tão desabrida, mas contida pela ternura do pai pelos filhos e pela mulher, que é quase uma menina.

Ele fala da noite, da partilha da cama estreita, que parece uma jangada para cinco, onde todos dormem, procurando a melhor posição. Uns para a cabeceira, outros ao contrário, depois inventando novas geometrias. A cama é uma jangada, ele aprecia a imagem: "A cama é larga, de madeira, alta, gingona, parece uma jangada. Eu comparo-a a uma jangada, onde vamos nós cinco, cercados de noite, de ventos, de ondas caprichosas, perigos desconhecidos. É uma imagem literária, esta, da cama-jangada, a literatura, a quem muito, sôfregamente lê, dá isto. Comparações para tudo, referências imprevistas, casos, tipos, situações paralelas que já houve ou foram inventadas, uma outra vida ou realidade como a nossa de todos os dias e que se infiltra no sangue, ferve na memória sem que a gente dê por isso. Não ajuda a viver, é certo, porque nada ajuda a viver; antes a figurar-se." [p. 10-11]

Toda esta escrita é percorrida por uma imensa ternura carnal, e é essa ternura pelos seus que são a sua carne [ele toca com a ponta do pé na bochecha de carne macia e mole.. de quem? nem sabe...] que faz da noite partilhada na mesma cama uma intensa comunidade. A promiscuidade é uma coisa pura: "Somos gente pura: os mais novos não sabem o que é a promiscuidade, a minha rapariga se vir a palavra escrita deve achá-la muito comprida e custosa de soletrar. [...] A promiscuidade: eu gosto. Porque me cheira a calor humano, me sobe em gosto de carne à boca, me penetra e tranquiliza, me lembra - e por que não?! - coisas muito importantes (para mim, libertino se o permitem) como mamas, barrigas, pele, virilhas, axilas, umbigos como conchas, orelhas e seu tenro trincar, suor, óleos do corpo, trepidações de bicharada. E a confusão dos corpos, quando se devoram presos pelos sexos e as bocas. E as mãos, que agarram e as pernas, que enlaçam. Máquinas que nós somos, máquinas quase perfeitas a bem dizer maravilhosas, inda que frágeis, como não admirar as nossas peças, molas e válvulas e veias, todas elas animadas por um sopro que lhes parece alheio mas sai do seu próprio movimento, do arfar, dos uivos do animal, do desepero do anjo caído." [p. 14]

Entre o profundo sentimento de intimidade, a ternura e o fascínio da carne e das peças do corpo, olhadas uma a uma... a curva da orelha, o mamilo, o pé, a bochecha... não há passagem, não há diferença, nem pecado. Esta promiscuidade é pura, liga-o à sua tribo: "Em toda a cidade que dorme e respira, eu luto com a dispneia e escrevo. Em toda a cidade que repousa e se esquece, na Avenida dos Combatentes eu debato-me contra a morte e escrevo diante da minha pequena tribo que dorme. [...] Mas a minha força é grande. Respiro ao mesmo tempo por cinco pulmões; quatro corações jovens (certeiros e cheios) com muitos anos de corda para badalar, batem ao lado do meu e dão-lhe ânimo e companhia." [p. 19-21]

Um texto surpreendentemente belo, quase imaculado. Quem esperaria isto do Pacheco?

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