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domingo, agosto 21, 2005

Quem foi este poeta? 



Apareceu morto nas águas o Tejo, há cerca de três anos. Ninguém sabe se foi suicídio, se foi descuido. Parece o mesmo, bem vistas as coisas. Tinha um problema com o alcoól, com a solidão, com a vida. Nos últimos tempos parecia ter perdido o sentido de tudo. O funeral foi em Alvito, a aldeia manuelina onde nasceu em Novembro de 1945. Disseram-me que veio muita gente de Lisboa, amigos das letras, que não esquecem a simplicidade de um homem que não pediu nada e não esperava nada. E que, como se viu, não teve nada. Sobraram pelo menos quatro livros de versos [talvez mais, mas não encontro rasto deles], algumas dezenas de poemas de uma simplicidade por vezes arrebatadora, de um lirismo eólico.

Sebastião Penedo, que falava pausadamente, e que um dia me explicou com toda a tranquilidade deste mundo que se considerava, sem humilhação ou falsa modéstia [a sua modéstia era sincera], um poeta de terceira linha - Pessoa, na frente, Raul de Carvalho, seu primo também de Alvito, na segunda e ele, no melhor dos casos na terceira... nasceu em Alvito e estudou nos seminários de Beja e dos Olivais. A guerra colonial levou-o como alferes-miliciano, de onde regressou com problemas. Demasiados problemas que não terá resolvido nunca. Ingressou de novo num seminário, quando voltou da guerra, da guerra dele, sobretudo, mas abandonou sem se decidir pela vida religiosa. Encontrou um emprego na Segurança Social, onde se manteve num lugar modestísimo durante toda a vida. Vivia em quartos, gastando o pouco dinheiro em edições de autor, de que sobraram sempre exemplares por oferecer. Há três anos atrás o seu corpo deu à margem do Tejo, junto às docas. Não se sabe o que aconteceu.

Apenas lhe conheço quatro livrinhos de versos:
Livro de Versos [1969]
Claridade [1973]
Meu Silêncio Amigo [1977]
Sumo Natural [1979]

Colaboração: NOVA 2 [Outomo, 1976]

A Publicar:
Lampada
Ponte Verde da Infância [Prémio da Academia Internacional de Letras do Rio de Janeiro]
Destes dois últimos títulos não encontro qualquer exemplar nem outras referências. Presumo que terão sido publicados; de contrário, pelo menos um livro premiado, teria permanecido inédito. Ao que me consta, uma segunda parte da sua biblioteca pessoal poderá ter ficado esquecida na sua última residência de Lisboa. Talvez aí tenham também ficado alguns exemplares destas últimas duas obras anunciadas. Chegou-me a falar, numa das poucas conversas pausadas que tive com ele, que tencionava publicar um livro de prosa, com relatos de cariz biográfico. Não sei mais do que isto.
Volto lá acima, para continuar a resgatar os livros.

Comments:
Descobri agora por acaso o seu texto sobre o Sebastião. Fui muito amigo dele, bem como colega de trabalho e de copos.Obrigado pela sua homenagem póstuma, que me sensibilizou muito. Ela era um bom homem.
Saudações
João Fagundes
 
Passou muito tempo mas hoje li este post e conheci o poeta - que ignorava. Poeta alentejano, como eu sou. Obrigada!
 
Conheci o Sr Sebastião (como eu o tratava) quando era criança. Conheci o senhor afável, bondoso, inteligente, bom conselheiro,que me incutiu o gosto pela literatura. "Belinha, quando quiser ler um livro tire da prateleira e leia. Não precisa de pedir autorização para o fazer", disse-me ao longo de vários anos. E eu tirei, li e ingressei num curso de línguas e literaturas, sabendo que a minha escolha iria proporcionar-me uma vida modesta. Fi-lo por gosto. O tempo passou, perdi-lhe o rasto mas foi sempre recordado com muito carinho. Um dia decidi tentar contactá-lo e encontrei este blog. Fiquei chocada e triste, não pensei que a sua vida terminasse tão cedo. No entanto o seu sonho concretizou-se: alguém conheçe o poeta que sempre me disse que não venderia os seus direitos de autor.A poesia era o seu mundo. Obrigada pelo tributo prestado ao homem e poeta que tanto contribuiu para o meu desenvolvimento pessoal e profissional.
Isabel Baeta
 
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