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quarta-feira, agosto 31, 2005

Os meus cafés[1]: à mesa do Martinho da Arcada 



Por falar em cafés, esplanadas, em passar horas perdidas em frente a uma mesa onde apenas repousa uma chávena vazia que jé esteve a fumegar, lendo o jornal do dia, os suplementos em atraso ou o livro que se segue. Houve um tempo em que o meu café era o velhinho Martinho da Arcada, em Lisboa, entretanto remodelado e revestido de uma laca de novo-riquismo a que nunca me habituei.

Nessa altura, lá pelo início dos anos 80, vinha do Beato, ensurdecido pelo ruído dos grandes aspiradores de cereais que sugavam milho, cevada e trigo dos batelões para os silos, para repousar no ambiente soturno e aconchegante daquele café antigo e com patine. Geralmente ia ao encontro de um amigo de sempre [que não vejo há demasiado tempo, por estrita culpa minha, o Rui Teixeira], ao encontro de livros e de uma ingénua ideia de poesia e de criação literária, partilhada a dois, em partes iguais. Mais tarde chegava da Faculdade de Letras, num tempo em que tudo isso parecia ainda ser uma imensa e magnífica aventura de final incerto e era.

É claro que cheguei ao Martinho atraído pela fama de Pessoa. Depois fiquei cliente regular, porque ali ainda era possível, numa Lisboa já em grande transformação dos espaços públicos, ficar horas a falar de coisas inúteis, a ler, a escrever, esperando quem não chegava ou quem vinha finalmente, após uma demorada espera já sem esperança.

No Martinho refugiei-me uma vez, em certo Natal dos 80, para fugir ao frenesi e ao trânsito frenético de quem fazia as suas últimas compras. Repousei numa imobilidade física tão completa, durante cerca de uma hora, que os outros clientes das mesas próximas me começaram a observar com surpresa, espanto, talvez com preocupação. Uma vez vi um rapaz de ar encardido retirar, com imenso carinho e cuidado, um pequeno gato do interior de uma mala de viagem ostensivamente vazia. Um piano coberto por um lençol de tarde, um memorável happening de Vitorino de Almeida à noite, com os seus apartes que então considerava deliciosos, sem excepção. Outras vezes esperei e fui recompensado, noutras esperei em vão.

O Martinho foi uma escola de solidão criativa, de paz e de amizade irrepetível no tempo e no modo. Foi um dos meus cafés, talvez o primeiro a que deva chamar "meu". Mas isso foi noutro século.

P.S.: Este texto, depois de perdido ontem de tarde, numa operação infeliz em que falhei a publicação, foi reescrito. Estava escrito que ia ser assim.

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