<$BlogRSDURL$>

segunda-feira, agosto 29, 2005

Os comboios de Bénard, os meus comboios 

Esperava ontem ansiosamente pela crónica caudalosa de João Bénard da Costa. Chegou pela via larga da memória, balançando entre a imaginação do cinema e o inesgotável recordatório pessoal do autor. "Comboios, Reencontros, Medo", é um lamento sobre o fim das largas viagens de comboio, -["No comboio até há tempo para se sair de Roma decidido a uma separação conjugal e chegar a Paris reapaixonado pela mulher."]-, mas um lamento resignado à circunstância do tempo também passar pelas coisas, vertiginosamente, às vezes, como um comboio de grande velocidade.

A crónica de Bénard da Costa levou-me a repassar as minhas torpes recordações com comboios. Algumas fotografias em viagens domésticas, pela península, alguns episódios que só ganham algum ênfase no âmbito demasiado restrito da memória familiar. Eu também prefiro o comboio ao avião, com a vantagem de que associo o segundo à sentença inexorável de uma provável pena de morte e o primeiro à promessa de uma viagem eterna, mergulhado nalguns dos grandes prazeres da vida terrena: ler, conversar, beber, fumar, olhar a paisagem sem qualquer compromisso, suspendendo indefinidamente qualquer classe de urgência vital, apenas ocupado em estar ali a caminho de um lugar onde até poderíamos nunca chegar inteiramente, porque o importante é a viagem, não a chegada.

Nunca fizémos grandes viagens. De Lisboa para Madrid, de Madrid para Lisboa, de Lisboa para Vigo e Santiago, de Barcelona para Cartagena, no Levante, de Sevilha para Ronda, a linha que segue o Douro até ao Tua e mais meia dúzia, com paragens e mudanças nocturnas, quase sem história. À última hora pedimos a devolução do dinheiro dos bilhetes de Tanger para Marraquexe. O AVE, de Madrid para Sevilha, onde chegámos ainda manhã cedo, tontos pela velocidade e pelo sono. Em Granada ou em Córdova dormimos junto da estação, em plena rua, em Medina del Campo caminhámos ainda de madrugada a explorar o lugar, em Mérida abandonámos voluntariamente durante horas a nossa bagagem mais pesada, em plena estação, sem que alguém a tivesse cobiçado, no Pocinho chegámos àquilo que parecia o fim da linha mas era ainda o início de outro caminho mais remoto. Mas em nenhuma das viagens que fizemos ocorreu algum assassinato ou teve lugar algum desaparecimento misterioso, digno de Hitchcock.

Na estação de Salamanca aconteceu aquilo que poderia ser, para uma fantasia inconformada, o princípio de uma história policial. Tomei notas, recordo-me dos pormenores. Estávamos de chegada à cidade, creio. Vindos de outra cidade próxima, de Ciudad Rodrigo. Viagem breve, brevíssima, que não deu para aquecer o lugar. Na estação modesta encontrámos, dentro de uma papeleira, um livro abandonado. Más alla del Golfo de México, Aldous Huxley, Ed. Edhasa, Barcelona, 1986. Este, da fotografia.


Com uma marcador da editora, - Edhasa -, e, entre as suas páginas, um bilhete emitido pela Generalitat de Catalunya - Departament de Cultura... para uma das suas iniciativas. Era o dia 17 de Agosto de 1991 e alguém tinha largado aquele livro na papeleira, vindo de Barcelona, a caminho sabe-se lá de que outro destino. Conservo o livro de Huxley, que ainda não li, como o símbolo do que há de aleatório em todas as viagens, e de desconcertante em todos os rumos, em todas as derivas. O livro tem uma história, que lhe pertence, mas que, na totalidade niguém conhece nem conhecerá. A realidade embrulha a ficção, confunde-a, torna-a mais atraente. Um dia este livro seguirá outro rumo [poderei optar por oferecê-lo, por perdê-lo, por emprestá-lo sob rigorosas condições contratuais, escritas, etc] e a sua história continuará a enredá-lo.


No ano seguinte, na mesma estação de Salamanca, sobre um balcão da Renfe, encontrámos um par de óculos de sol. Parecia estar ali para confirmar qualquer coisa, uma regra pela qual se regulam os acontecimentos extraordinários, que nunca esperamos que aconteçam, mesmo se os desejamos. Chegar a Salamanca todos os anos, pelo mês de Agosto e ter um encontro inesperado com um objecto, com uma pessoa, com o pedaço de uma história que se desenvolve para lá da nossa imaginação. Começar uma ficção, regressar à cidade apenas para propiciar esses encontros. Mas não há regras destas, não há leis para este tipo de acontecimentos. Instantes depois da descoberta vieram reclamar-nos os óculos que tinham apenas ficado esquecidos por momentos sobre o balcão... destruindo aquilo que poderia seria um longo idílio com o acaso e o princípio de uma ficção.

No desconcerto, fico com as palavras belíssimas de Bénard da Costa sobre os "seus" comboios.

"Agora, já não há comboios como os de antigamente, mas quando os havia com wagons-lits e wagons-restaurants, nem muito lentos nem muito rápidos, lugar mágico para todos os encontros e todos os desencontros, que melhor podia haver para uma viagem do que comboio? Talvez um navio - e os primeiros comboios eram navios com rodas e sem mastros, obrigados aos carris e abrigados dos ventos."


"Nos comboios, cabe a vida inteira e ainda sobeja vida."

"Tal como se diz que há pesoas-gato e pessoas-cão, eu acho que há [...] pessoas-avião e pessoas-comboio."

Comments: Enviar um comentário