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quinta-feira, agosto 25, 2005

Obra visível, obra invisível [discrepâncias] 

A brevíssima obra visível que o poeta Sebastião Penedo nos deixou é fácil de enumerar. Aliás, já o fiz neste post, um pouco mais atrás. Nada justificaria uma omissão nem acrescentos despropositados, porque a dimensão da obra publicada não o permite, seja qual for o grau de rigor com que nos apliquemos à sua consideração. Terão sido publicados poemas esparsos em revistas e jornais, como afirma Gaspar Simões na nota crítica de 1976, no Diário de Notícias, que transcrevi integralmente aqui. Mas tudo leva a crer que esses poemas ou foram objecto de publicação nos livros anteriores a essas colaborações ou que sairam nos seguintes. Um bom argumento nesse sentido encontramo-lo no episódio da escrita do poema Dia Santo [a que me refiro aqui mesmo], fixado numa folha de rosto do livro de Ruy Cinatti e escrupulosamente, fielmente, reproduzido no livro seguinte, um ano depois, sem qualquer alteração.

A ordem cronológica de saída dos seus quatros livros conhecidos está bem estabelecida, aparece na abertura de Sumo Natural, de 1979. Os quatro livrinhos de poemas conhecidos foram publicados no breve período de apenas uma década, entre 1969 e 1979. Entre o primeiro e o segundo medeiam quatro anos; mais quatro do segundo para o terceiro e dois, deste para o que parece constituir o derradeiro. Uma colaboração, suficientemente relevante para ser indicada na tábua bibliográfica do autor, ocorreu durante este intervalo de tempo assinalado, em 1976, entre o segundo e o terceiro livro. Custa a acreditar, no entanto, que o poeta nada tenha publicado entre 1979 e a data da sua morte infeliz nas águas do Tejo, cerca de três anos atrás... Quase um quarto de século de silêncio, em poesia, mesmo que apenas na matéria e na circunstância do livro, dando como certo [?] que a escrita e a produção poética continuaram com o mesmo ritmo que a produção anterior, com o mesmo tempo lento, parece-me demasiado tempo, parece muito improvável. Falta saber o que ficou, onde, em que estado... o que sobrou, em versos esparsos ou reunidos, desta meia vida, deste quarto de século, que atravessa um tempo cheio de mudanças no país e no mundo.

Passaria agora à outra, a uma espécie de obra oculta, velada ou desconhecida, na sombra; talvez deva dizer, - à cautela para não errar muito, - à obra anunciada, à obra ignorada, à obra interrompida, de que não tenho, nunca tive qualquer rasto. E aqui há discrepâncias.

Não tendo ainda tempo para compulsar a parte do espólio que é composta por documentação variada, cartas, postais, recibos e facturas, artigos e recortes de jornais, apontamentos e cadernos de valor aparentemente desigual, e a cujo trabalho tenciono dedicar o meu ócio logo que possa, apenas falo do que nos deixou o poeta nos seus livros. Numa tábua bibliográfica que cresceu pouco, mas que actualizava em cada novo livro, o activo da sua obra.




Em 1969 Sebastião estreia-se com Livro de Versos, dedicado ao primo Raul de Carvalho, a quem nomeia como "monge da Religião do Mar"... "dedico este primeiro e pobre livro de versos", escreve então, não sem homenagear ainda, em páginas posteriores, os pais e os três irmãos. A epígrafe deste primeiro livro é de Raul de Carvalho, e exprime, pelas palavras de outro poeta, de um poeta que admira, um grande acto de generosidade:

"Com versos eu devolvo ao Universo
a confiança que Deus depositou em mim"


[Raul de Carvalho]


O livro reune os poemas em dois grupos, debaixo de um sub-título: Mapa da Alma é o nome do primeiro grupo de 27 poemas; A Mesa Posta, o do segundo conjunto, que abrange 24 poemas. A obra foi impressa em Novembro de 1969 na Tipogragfia Ideal, em Lisboa. Nada mais consta.



Claridade, de 1973, é o segundo livro e o poeta dedica-o à memória de Cristovam Pavia de quem cita em epígrafe:

"O tempo agora é um mistério claro..."

Raul Brandão e Álvaro de Campos também são convocados à boca dos seus poemas, para aludir à dor, à ternura e à angústia. Os seus 66 poemas aparecem soltos, sem outra estrutura interna, postos do primeiro ao último, sem qualquer sub-título. A impressão deste livro, que me foi oferecido em Agosto de 1982 por um dos irmãos do poeta, também esteve a cargo da Tipografia Ideal.



Meu Silêncio Amigo, que é de 1977, avança um pouco na promessa de uma obra que está oculta ou que foi interrompida por circunstâncias. E aqui começam, preparam-se as discrepâncias. O poeta, depois de elencar as obras já publicadas, em que inclui aquela mesma que acabou de dar à estampa, anucia - A PUBLICAR - mais três obras: Outros Poemas, Sonetos e Sobrememória (apontamentos). Destes títulos não encontrei no espólio qualquer rasto, nenhum exemplar, nada de nada. Pode ter acontecido uma de várias situações:
a) Estes títulos foram publicados, mas não chegaram a juntar-se ao espólio restante do poeta, reunido parcialmente na casa familiar onde o consultei;
b) Os projectos de publicação a que estes títulos correspondiam foram abandonados, no todo ou em parte, e nada chegou ao nosso conhecimento;
c) Uma parte ou a totalidade destas obras anunciadas acabaram por se transfigurar no último livro que lhe conhecemos, o Sumo Natural, de 1979.
d) Estes títulos acabariam por se transfigurar em projectos com outras designações, o que explicaria a aparente discrepância com a informação aparecida no seu último livro conhecido, que veremos de seguida.
e) Nada disto terá acontecido e parte da sua produção ficou inédita, algures, ou acabou apenas parcialmente publicada em jornais e revistas, colaborações, etc.

Livro dedicado à memória da mãe, Maria Joana, do pai Chico Diogo e do avô, o lavrador Penedo, evoca também os nomes de Agostinho da Silva, Luís Amaro, poeta, Fernando Pessoa, Eduardo Cortesão, Maria Aliete Galhoz, Álvaro de Campos [por um verso em que diz, como que correndo que "venho dos lados de Beja"], Raul de Carvalho, Herberto Helder e Anne Perrier, entre vários outros amigos. Encontra-se também organizado em duas partes distintas com títulos diferentes, sendo o segundo que dá nome ao livro: Culto Solar agrupa os primeiros 21 poemas; Meu Silêncio Amigo, sub-título que também é título, reune os restantes 45.

As últimas páginas do livro reservou-as o poeta para excertos de algumas críticas e referências aos seus livros anteriores, saídas na imprensa. O caso de Gaspar Simões, que se lhe refere no DN, em Abril de 1970 e no mesmo jornal em Novembro de 1976 [ver texto integral desta nota crítica neste post anterior]; Carlos Serra, que escreve no Notícias da Beira em Julho de 1971; João Maia, na Brotéria, em Janeiro de 1974; José Apolinário Ramos, A Voz do Operário, também em Janeiro de 74; Urbano Tavares Rodrigues, no Jornal do Comércio, com data de 20 de Abril de 1974 e Maria Aliete Galhoz, na revista Colóquio/ Letras, no mês de Março de 1975. No total, mais de seis páginas de crítica e recensão que revelam apreço e simpatia pela sua lírica solar e generosa, pela simplicidade dos versos e pela autenticidade de uma voz que cresce em cada livro.

Ainda a mesma tipografia de Lisboa, impressão no mês de Maio de 1977. Em nota final Sebastião Penedo afirma que algumas das poesias constantes do livro sairam anteriormente em jornais e revistas. No caso: Diário de Notícias, Notícias da Beira, Nova Terra, O Século, Correio da Horta, Colóquio [/Letras?] e Nova 2 [publicação que será referida com o estatuto de colaboração, na obra seguinte].

Uma nota final: numa conversa que tive uma vez com o poeta, e não me recordo de outra tão detalhada e pausada como essa, que teve lugar numa data imprecisa, provavelmente depois de 1985, Sebastião Penedo falou-me da intenção de fazer sair um livro de memórias, o seu primeiro livro em prosa. Não posso garantir se era então um projecto seguro e em curso, se uma intenção vaga apenas. Nunca vi esse livro, não voltei a ouvir falar dele. Mas, aparentemente, vem anunciado neste Meu Silêncio Amigo com o título de Sobrememórias e o estatuto mais modesto de apontamentos.



Finalmente, Sumo Natural, de 1979, vem ampliar os equívocos e tem um dado novo da máxima importância. Para além de indicar a totalidade das quatro obras publicadas até então, indica uma colaboração com A NOVA 2, no Outono de 1976, dois anos antes, certamente uma revista literária. Também anuncia, promete, mais duas obras - A PUBLICAR - mas nenhum destes títulos coincide com os que foram prometidos no livro anterior. Desta vez refere-se a Lâmpada e a Ponte Verde da Infância. Dá-se o caso que esta informação vem seguida de uma outra que adensa o mistério. Esta última obra, vinda a público ou inédita ainda hoje, foi galardoada com o Prémio da Academia Internacional de Letras do Rio de Janeiro. E de facto, esta distinção chegou-me por diversas vezes, não pelo próprio, mas de forma consistente e credível. A crer na informação constante no livro Ponte Verde da Infância, esta terá sido apresentada a concurso ainda como obra inédita, e depois de distinguida, é difícil acreditar que não tenha sido publicada. Não a conheço, nunca vi esse título, mas o prémio dá-lhe uma realidade praticamente irrecusável, como obra publicada, já que a existência de pelo menos um inédito premiado não merece qualquer dúvida. Resta saber onde se encontra.

A discrepância entre títulos prometidos, nomeadamente nas suas últimas duas obras conhecidas, é algo que merece atenção e que não sei explicar, com a informação que possuo de momento.

Sumo Natural é a sua obra mais extensa e graficamente a mais cuidada, menos artesanal. Não apresenta epígrafe alheia, nem é dedicado globalmente a ninguém. No entanto alguns dos seus poemas aparecem como ofertas a amigos e familiares, sem outra informação.

Os seus 83 poemas apresentam-se em sequência única, sendo o título do livro pedido de empréstimo a um deles. O poeta mudou de tipografia; desta vez a obra foi impressa na Henriques Torres, na Rua de S. Bento, em Novembro de 1979.

Também aqui, duas notas finais. A primeira refere-se ao facto deste exemplar que compulso de momento, me ter sido oferecido pelo poeta, quase seguramente dado como sendo o mais recente. A dedicatória diz, infelizmente sem indicação de data, nem ano, nem mês:

"Para o José Gustavo
este livro de poesia já talvez
ultrapassado em alguns textos.
Desejando-lhe muitas felici-
dades pessoais e intelectuais
(filosóficas, nomeadamente)

Com simpatia e admiração.

Sebastião Penedo"


A outra nota: do intervalo de dois poemas - entre Milfontes e Aguarela - saiu-me há momentos um pequeno pedaço de folha de jornal, amarelecida pela passagem do tempo. De um lado aquilo que seria a morada do local de trabalho de Sebastião Penedo, na Rua Carvalho Araújo, no Posto de Saúde da Alameda, redigida com letra segura, por ele próprio, presumo. Com indicação do horário de trabalho. No verso, dois números de telefone e a respectiva extensão. Pelo lettering parece-me tratar-se de um rasgão feito numa página do Diário de Notícias. A data quase se pode saber, mas por um infeliz acaso que impede de me situar no tempo esse encontro de que me recordo, o papel rasgou no limite do ano: apenas se pode ler "21 de Dezembro de..." É o que resta do que terá sido um projecto para um encontro, para um contacto futuro que nunca chegaria a ocorrer. Por culpa minha, que não fiz nada nesse sentido, apesar de me lembrar que numa ocasião o poeta manifestou grande gosto em que o contactasse.


O poeta que acabaria misturado com as águas do Tejo, morto em circunstâncias que não se esclareceram totalmente, deixaria neste livro um penúltimo poema que é, também para si mesmo, uma exortação, um apelo que afinal não seguiu:

Viagem

Não dês cabo da vida.
Há sempre um Cabo Bojador.

Mesmo apaixonada
e desiludida
e estrambalhada
ela é tão bonita.

Ela é a melhor.

Comments:
"Ponte verde da infância" está incluída na obra POESIA, ed. da Câmara Municipal de Alvito, s/d (1988). Trata-se de uma edição com muitas gralhas, o que muito preocupou o Poeta. Talvez por isso não tenha distribuído exemplares entre eventuais leitores...
 
Prezado José Gustavo,

foi com grata emoção que li/vi o seu post sobre Sebastião Penedo e a sua obra. Se quiser conversar um dia sobre este amigo comum (e meu primo), escreva-me: lleal@unex.es
 
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