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segunda-feira, agosto 29, 2005

O Leitor Nocturno 



Sou um leitor de todas as horas, mas sinto-me, antes de mais, um leitor nocturno. Neste verão redescobri o prazer de descer à rua, sentar-me à porta de casa, depois do jantar, para acabar a noite a ler. Não é possível imaginar prazer mais simples nem mais modesto, mas durante mais de uma semana, foi assim que eu passei parte das minhas noites no Algarve. Tempo quente de dia, ensolarado, fastidioso, e noites abafadas, com o sereno ar do sul parado dentro das casas. Depois das dez da noite, descia à rua com a poesia de Luiza Neto Jorge, que passou por Silves e ali escreveu, com o jornal do dia ou com o policial da quarta-feira anterior e frequentemente saía dali para o quarto para continuar a leitura noutro ponto qualquer de outro livro.

A jornada acabava, por vezes, a horas bastante improváveis, e isso fez de mim, nestas últimas semanas, o que se chama um leitor nocturno. Leitor de todas as horas, mas compulsivo até de madrugada, quando o sono está quase a tomar conta de nós. Agora que Agosto está a terminar, e entramos noutra ciclo de ritmos vitais, continuo a ler de noite. Escrita até de madrugada, leitura depois, antes de clarear. Sono breve e profundo, despertar a toque de caixa lá pelas dez e tal da manhã, onze horas.



[Livros Lidos]

Leio coisas diferentes a horas diferentes, mas por vezes, caoticamente, misturo tudo e rompo com a regra que nunca chega a consolidar-se. Durante as férias no sul, lia os jornais de manhã, a poesia um pouco ao acaso do capricho de cada momento [Luiza, Whitman], o policial depois de almoço [Nicolas Freeling, Anthony Berkeley], ou outra leitura corrente [Hemingway, Tonino Guerra, Zlata, Jorge Buesco], os Diários de Torga em casa, antes das refeições, em pequenos momentos de espera e de pausa. Depois do jantar a poesia de novo e até de madrugada de novo a leitura corrente, o policial, etc. Como se vê um esboço de ordem, mas ordem efectivamente nenhuma. E no dia seguinte o mesmo ciclo. No café Túnel, na correnteza e no embalo do vento, em casa, na sala e no quarto, sentado ou deitado na minha cama, na rua, junto à porta de entrada, sentado num banco instável. Um pouco na esplanada da praia, da única vez que vi o mar, se não contar com a visão fugaz e esborratada do azul atlântico entrevisto desde a torre do Farol de Vila Real.

O regresso a casa veio alterar a rotina pela escrita. Agora também é urgente escrever. Ler é mais pela madrugada.

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