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domingo, agosto 21, 2005

Mais do Pacheco, passeando por Braga 

A outra brochura com autógrafo de autor, - O Libertino Passeia por Braga, a Idolátrica, o seu Esplendor - mostra uma deliciosa gralha em título. "Explendor" esplendidamente com um "X" daninho e impertinente que caiu ali só para provocar. Terá sido talvez o autor ou o próprio editor a corrigir artisticamente a gralha com uma graciosa linha curva de "S", em tinta verde. Siga.

O livrinho, com aspecto artesanal, como convinha, agradável ao tacto, é também da Contraponto. A página de capa encontra-se também rasgada e completamente separada do corpo das folhas agrafadas. Ao todo são 32 páginas numeradas da capa à última página, sem data e sem indicação do local de impressão. O texto termina com assinatura autógrafa do Luiz Pacheco, a tinta verde, e datado incertamente de "Braga, 16 ou 17 de outubro, 1961". O tipo de letra vem impresso em cor azul. Um belo objecto, que chega a cada época precedido pela fama de nos trazer um texto iconoclasta, como haverá poucos na nossa bem comportada literatura portuguesa.

Luiz Pacheco, o personagem do relato, auto-relato, está lá para cima, distribuindo livros como funcionário das bibliotecas itinerantes da Gulbenkian. Não tem tostão, mas come e bebe e fuma fiado. Aproveita cada momento livre para perseguir as ninfetas que encontra pelo seu caminho. Dos 14 anos para cima, claro, que o homem não exagera... É um relato da errância sem pecado, mas com vontade de pecar, do desejo sem o freio da moral, mas com a consciência de que o fim é apenas vazio. Nem a promessa do "broche" com o magala bem parecido e necessitado de dinheiro acaba por se concretizar... Afinal o libertino passeia-se à volta de nada, do vazio, do desejo sem saciedade: "Pergunto se já fizeram ou viram fazer minete. Explico-lhes o biminite. Pretendo com isto uma bacanal a cinco, que eles pagariam para me ver e foder as miúdas. Ficam chocados com a minha declaração de que o foder já não se usa, cansa muito e eu tenho tesão, mas não fodo. São eles que terão de foder as mulheres." [p. 18]

O relato deste devaneio pelas ruas de Braga e arredores, de um depredador exausto, acaba no entanto com um grande momento de lucidez: "A pouco e pouco a corda vai-se aligeirando, estou melhor. Mas que vontade de ter pecado. De pecar. Como assim: de viver. [...] Descubro que o êxito e o fracasso são uma e a mesma cadeia e em tudo. O êxito para cima, o fracasso para baixo, e quando digo baixo digo baixo: sujidões, dívidas, vergonhas, podridão, loucura. Mas o que torna tudo igual é que ambas as cadeias se encontram, nada a fazer, meus caros, daqui a cem anos ninguém se lembra." [p. 30-31]

Comments:
Acho genial a capacidade de separar
a vida em duas partes.
A parte lucida e real da existencia
necessária ao viver com o minimo ,comer,beber,cagar,mas sem resentimentos nem vontade de ceder ao establecido,e a outra completamente,tragica enobrecida por completa vontade de vazio de ter de tocar o fundo ,para renascer.
 
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