<$BlogRSDURL$>

terça-feira, agosto 30, 2005

Ler na Praia 



Também se pode ler na praia. Uma das mais belas imagens da leitura que vi, se é que é possível dizer isto, sem cair velozmente no ridículo, pela delicadeza que envolve, foi numa praia. Para lá dos Olhos D'Água, num Verão não muito distante, creio que há três anos, entardecia junto à beira mar. Quase anoitecia, a luz já era escassa. Caminhávamos entre a areia solta e a linha da água de uma praia deserta. À nossa direita o mar, à nossa esquerda o balcão de areia com um breve afloramento de dunas. A pouca distância, mas completamente absortos e mergulhados na leitura [metáfora adequada numa praia] estavam dois jovens, provavelmente namorados, rapaz e rapariga, lado a lado, na mais completa imobilidade. Liam, lado a lado, em silêncio, quase no escuro, ignorando quem passava junto à primeira linha de água. Cada um segurando um livro, certamente diferentes, mas no mesmo silêncio devoto. Para quem encara a leitura como uma religião, como eu, aquela imagem pareceu-me uma iluminação repentina, uma teofania, a revelação de uma felicidade e de beatitude como não voltei a ver depois. Senti inveja de cada um [finalmente o ridículo] e sobretudo do que estava no meio, a uni-los naquele silêncio.


* * *


O Ayuntamiento da Isla Cristina, Ayamonte, terra do León, amigo luso-espanhol-andaluz, mantém na praia uma Biblioteca onde, com grande simplicidade de processos, é possível requisitar livros para ler na praia e para levar para casa. E há lá boa leitura. Que dava para um verão inteiro de compulsão, de abnegada oração diária, e sobrava.

Comments: Enviar um comentário