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segunda-feira, agosto 22, 2005

A crítica [emoldurada] de Gaspar Simões no DN 

Em 1976 Sebastião Penedo contava 31 anos e publicara, em edição de autor, Livro de Versos [1969] e Claridade [1973]. Ao que afirma na sua nota crítica, Gaspar Simões andou distraído até ler alguns poemas soltos deste poeta, numa revista literária. Dando-se conta da singularidade da voz poética deste poeta lírico, de "têmpera antiga", avesso às modas, o papa da crítica literária de então, faz sair na edição de 4 de Novembro de 1976, uma quinta-feira, um longo texto bastante auspicioso.

O Diário de Notícias, naqueles anos tumultuosos de 1976, tinha como director João Gomes e como director-adjunto Mário Mesquita. Apresentava-se como o jornal de "maior tiragem e expansão de todos os jornais portugueses". Bons tempos... Sebastião Penedo recortou o cabeçalho do jornal, fazendo uma colagem à página da crítica literária. Por isso, podemos ficar hoje a saber, por um despacho da France Press vindo de Roma, que os jornalistas do "Il Messaggero" entraram "ontem em greve, reivindicando o melhoramento da qualidade redaccional e das condições de trabalho na empresa."



O poeta emoldurou o conjunto e é esta montagem que chegou até nós e me permitiu transcrever todo o texto. O que vem abaixo destas linhas é a totalidade da crítica de Gaspar Simões, que deve, então, ter constituído uma poderosa caução à actividade poética do nosso autor e um contributo importante para o seu reconhecimento entre os pares.

Sebastião era sobretudo um poeta de poetas, conhecido, reconhecido e apreciado entre poetas. Os seus livros eram distribuídos, ao que sei, entre outros poetas, amigos e familiares, enviados para contactos no estrangeiro. Sobraram muitos. Aqui fica a crítica. Os destaques são meus.

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Crítica Literária

Claridade, poemas, por Sebastião Penedo
João Gaspar Simões

Ultimamente, numa época literária em que são mais as nozes do que as vozes, acontece que alguns poetas não chegam a emergir da sombra, ofuscados pela falsa luz que ilumina não poucos nada dignos de tanta claridade. Intitula-se, precisamente, Claridade a obra de um lírico que, tendo-se estreado em 1969, jovem, portanto ainda, conta apenas na sua bagagem dois livros: o de 73, a que nos reportamos, e o de 69, singelamente intitulado de Livro de Versos. Não sei como, sumiu-se na massa dos opúsculos que entretanto vieram a lume o livrinho Claridade, de Sebastião Penedo. Foi apenas à circunstância de entretanto chegarem ao meu conhecimento poesias suas, de mais recente data, vindas a lume em certa página literária, que pude dar-me conta de que o quase anónimo lírico autor desses dois quase anónimos livros merecia ser atendido pela crítica que se preza de não estabelecer para o talento prioridades de qualquer espécie além da que resulta da própria existência desse talento.

Bem certo que os versos de Sebastião Penedo não jogam no charadismo linguístico nem arriscam pontos nas mesas poéticas onde se ganham, repentinamente, grossos louros apenas com sobrepor à poesia propriamente dita a propriamente dita oportuníssima política. Não. Sebastião Penedo até pode parecer, ao leitor superficial, um poeta à moda antiga - da "medida velha", como se diria no tempo de Camões -, quando é certo que, afinal, lido com olhos de ver, não é tal poeta. Na sua poesia muito íntima, muito delicada, muito evocativa, quase à maneira de Nobre, filtram-se elementos de uma modernidade algo neobarroca, embora sem qualquer pretensão estulta a impor-se pelo que na hora presente faz a glória de muitos, esses que pensam que para se ser poeta palavras bastam...



"Sebastião Penedo até pode parecer [...] um poeta à moda antiga - da "medida velha", como se diria no tempo de Camões -, quando é certo que, afinal, lido com olhos de ver, não é tal poeta. Na sua poesia muito íntima, muito delicada, muito evocativa, quase à maneira de Nobre, filtram-se elementos de uma modernidade algo neobarroca."


Em verdade situado mais perto dos líricos que rondaram a Távola Redonda, de algum modo pós-fernandinos (é autor de uma Oração a Sebastião da Gama e dedica o seu livro ao malogrado Cristóvam Pavia) do que dos chamados neobarrocos, o autor de Claridade adianta-se a qualquer deles, e se tal coisa ainda não é muito clara neste livro, claríssima se torna nas poesias que entretanto imprime na referida página literária. De que maneira avança Sebastião Penedo para além daqueles seus companheiros de jornada lírica? Associando a um descritivismo que de algum modo lembra ainda o descritivismo de Alberto de Serpa ou de Francisco Bugalho, presencistas, conquanto, em verdade, nada lhes deva a esses dois poetas (a menos que ao segundo deva a comunidade num mesmo amor pelo Alentejo, alentejano que se mostra em muitos dos seus versos inspirados na vida e na paisagem dessa emotiva província), associando, dizíamos, a um descritivismo quase objectivo uma particular nuance subjectiva que se instila na trama lírica assim como as miragens que se instilam na retina dos viajantes. Em certos passos da sua poesia não sabemos bem se ele nos fala das coisas ou dos elementos, tão intimamente se conjugam nos seus versos a obra do homem com a obra da Natureza. Por exemplo, na poesia "Enterro de um Pobre", o pobre de que ele fala indo a enterar não é um pobre do reino animal, mas, muito menos humanamente, o pobre Sol:

Lá vai a enterrar o Sol,
o tal que, enquanto pôde,
foi o cabelo louro do campo.

Coitado, vai enrolado
num lençol vermelho,
esmola que mesmo ali à hora,
mais para se ver livre dele,
o horizonte deu.

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O Sol desgraçado,
o zé-ninguém do Sol,
trabalhador do céu.


"Acontece, entre nós, serem às vezes os poetas assim, - esses que nada querem com as escolas em moda - aqueles que, nos anais da história da poesia, mais fundo se ancoram nas enseadas onde se perpetuam as veras naves do vero lirismo."



E não se diga que já o poeta do humanizara assim os elementos e com eles se entendera em termos semelhantes. Não. A exemplificação que demos prova demais. Desta humanização do astro-rei como pobre de pedir passa, noutras poesias suas, Sebastião Penedo para a humanização das coisas inanimadas, a que atribui, subtilmente, atitudes de seres vivos. É o que sucede na última estrofe da poesia "Casa de estar":

Em cima da mesa de verga,
sentado num "napperon",
e tão fiel como as outras coisas,
lambe as mãos da tarde
um cão de barro.


Ora é esta osmose, digamos, entre o vivo e o morto, o animado e o inanimado, o celeste e o terreno, o humano e o elementar, que vem radicando-se nos versos do autor de Claridade e comunicando-lhes algo de muito subtilmente original, de uma originalidade que dir-se-á se vela a si própria, pudica, talvez, envergonhada de sentir-se tão nuamente ela própria no meio de tanta mal vestida originalidade. Reparem nesta poesia:

Rapariguinha pobre, deserdada,
viola de chorar e de viver
de esmola de sopas na despensa,
criada de servir a de comer.

T'as mãos tristes vigiadas pela senhora,
teu seio humilde cor do avental
mexem ainda o vento de uma tarde morta
na romãzeira que havia no quintal.

Agora já a metamorfose do ser em coisa ou da coisa em ser é metáfora, transmitindo à poesia essa espécie de simbiose característica de um neobarroquismo que faz que a própria metáfora se converta na essência do poema. "Viola de chorar e de viver" é a própria "rapariguinha pobre".

Acontece, entre nós, serem às vezes os poetas assim, - esses que nada querem com as escolas em moda - aqueles que, nos anais da história da poesia, mais fundo se ancoram nas enseadas onde se perpetuam as veras naves do vero lirismo. Estava a lembrar-me de Francisco Rodrigues Lobo, quase anónimo na época, deixando hoje na sombra os Baías da Fenix Renascida. Sem se vergar à moda do experimentalismo ou do neo-barroco, eis que este ignorado lírico vai tecendo, desde 1969, a sua teia de Penélope na esperança de que o Ulisses do Parnaso, ao regressar da sua viagem, o sagre finalmente poeta. Mas, sagrado ou não pela crítica, a verdade é que Sebastião Penedo tem desde já lugar entre os mais castiços líricos da poesia portuguesa do seu tempo. Bem haja.

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