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segunda-feira, agosto 29, 2005

A conta da Tipografia Ideal, à Calçada de S. Francisco 

Nas edições de autor, como é o caso de toda a obra de Sebastião Penedo, o poeta é também editor, financiador, contabilista, corrector e distribuidor. O terceiro livro de versos - Meu Silêncio Amigo, Poemas - sai no ano de 1977. O poeta tem apenas 32 anos. Já regressou da Guerra de África, confuso e perturbado, voltou ao seminário, de que sairia de seguida. O verão quente tinha já passado, estava-se em Maio e Portugal ainda vivia o rescaldo de uma passagem tumultuosa da ditadura para a democracia.

Este terceiro livro ainda inclui um poema de África, escrito em Moçambique em 1971, seis anos antes, - Noite de África. Regista a passagem pelo Sanatório do Outão em Setúbal, em Junho de 1975 e testemunha uma visita a Málaga, em Junho do ano seguinte, com Plaza de la Marina:

"Sol, o sol molhando o barvo Andaluzia no cais.
Altos, solenes, lentos palmares de Málaga
a mergulharem os cabelos no ar mediterrâneo
até Salah, Sabhah, longe, lá nos areais."


Mas a poesia de Sebastião Penedo não é uma poesia social. O seu tempo é pessoal, não é colectivo. As dores de parto de um regime, aparentemente, não passam por aqui.

Em Maio de 77 o poeta recebe da Tipografia os 350 exemplares do seu terceiro livro de versos. Aqui fica a factura, que tem data de 30 de Junho do mesmo ano.



A Tipografia Ideal, situada na Calçada de S. Francisco, 13A, em Lisboa, daria à estampa um livrinho de aspecto modesto, com título em tom de azul. A factura indica o valor de 10.825$00 [dez mil, oitocentos e vinte e cinco escudos], pelas três centenas e meia de exemplares, de que ainda assim, sobraram alguns por oferecer aos amigos e conhecidos. Hoje seriam apenas, supondo o preço de então, cerca de 54 €, com uns cêntimos mais. Terá sido para o poeta um grande esforço financeiro. Acrescendo ainda o imposto de selo, no valor de 21$70. O livro seguinte seria impresso noutra casa.

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