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segunda-feira, agosto 22, 2005

A Choca, um conselho seguido mais tarde 

Na única conversa que tive com o poeta, em que houve tempo para falar de livros, lembro-me de ter recebido um conselho que segui ontem. A conversa terá tido lugar há mais de uma década, talvez um pouco mais. Tudo na memória se conta em anos, em décadas.

O Sebastião Penedo, falando-me das suas preferências literárias, e eu não conseguindo evitar falar das minhas, referiu-se com grande entusiasmo ao Trindade Coelho. Escritor do fim do século XIX, jurista e cultor da língua, autor de um magnífico livro de memórias sobre os seus tempos de estudante de Coimbra. Mas o entusiasmo do poeta ia para um outro livro de contos - Os Meus Amores, de onde destacava uma pequena história de ternura e afecto, um conto intitulado "A Choca". O escritor tinha encontrado as palavras simples e certas para descrever o breve declínio de uma pobre galinha rodeada dos seus pintos. Li o conto de Trindade Coelho esta madrugada, finalmente, ao fim de tantos anos e dei-me conta de que esse é, em todo o volume, o único que aparece sublinhado em passagens.

"Mas eis que certas intermitências dos sentidos sobrevinham à pobre Choca! Não dormia, decerto, aquilo não era sono; mas a memória já se lhe apagava; esvaía-se-lhe a luz do instinto; e daí a pouco já não sentia nada. - Inerte instantes depois; e por fim (cantou agora o galo no seu poleiro!) veio-lhe um espasmo e caiu na morte... [...] A esse tempo aclarara a manhã; - e sobre o corpo tépido da ma~e, que na própria morte ficara dócil, enovelavam-se agora, piando, os pobres pintainhos!"

* * *


O livro das memórias de coimbra li-o também numa dessas alturas... não sei quando, mas na sequência dessa conversa. Trata-se do In Illo Tempore - Estudantes, lentes e futricas, uma sétima edição da Portugália, que não indica data, mas que deve ser anterior ou próxima à primeira metade do século passado. A primeira edição deste livro de memórias é de 1902. Foi das leituras mais divertidas de que me lembro. Os episódios da vida de Coimbra são descritos pelo autor com verdadeiro talento de memorialista. Num dos momentos mais inverosímeis Trindade Coelho refere-se a um lente de coimbra, particularmente obtuso e céptico, professor de Filosofia, que não acreditava na iluminação a gás. Chama sem "torcida" não era possível.

Anos depois vi um exemplar de In Illo Tempore de Trindade Coelho na Feira do Livro de Lisboa; estava na companhia de um amigo a quem tinha falado da obra. Precipitámo-nos os dois em corrida para o escaparate do stand. Eu cheguei primeiro e fiquei com o livro. Está lá por casa, o meu exemplar.

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