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sexta-feira, agosto 19, 2005

Alentejo Desencantado, um livro de viagens esquecido 



Há um livro esquecido [provavelmente haverá muitos mais...] sobre o Alentejo, um exemplar livro de viagem ao fim do Alentejo profundo. Escrito ao volante, ou pelo menos condicionado pelas contingências do percurso, pela curva da estrada e pelos imprevistos que fazem de toda a viagem uma aventura para lá do horizonte. Trata-se do singular Alentejo Desencantado, do escritor Mário Ventura. É um relato vivo, descarnado e afectuoso, sobre a realidade do Alentejo, para lá do neo-realismo, mas ainda condicionado pelos axiomas desse movimento literário. Publicado em 1969, traduz no título e na amargura da escrita, uma visão crítica, com marcas naturalmente também políticas, de uma vasto território abandonado e subdesenvolvido: o Alentejo desencantado.

Lembro-me deste livro na modesta biblioteca da casa. Numa edição despojada, com a chancela do Círculo de Leitores, por cortesia da Bertrand e com data de 1974. Não foi a primeira obra de Mário Ventura, mas parece ter marcado bastante a sua imagem de escritor e parte da sua produção.

O livro interessa-me por outro motivo, este estritamente pessoal: foi a primeira vez que li sobre alguma coisa que tinha visto e conhecido, sobre alguém ou alguma coisa de que tinha tido alguma experiência directa. O relato da viagem ao Alentejo transcorre pela ampla geografia, pelas terras e pelas pessoas, recolhendo da tradição oral e da paisagem esmagadora, e a certa altura, numa das curvas do terreno, já ao anoitecer, o escritor viajante chega a uma terriola perdida com um nome pitoresco: Oriola. Um capítulo inteiro é-lhe dedicado - Cantares na Aldeia Ignorada de Oriola. A terra começa por surpreender o escritor. Como me surpreendia a mim, quando lá passava temporadas na infância. É a terra do meu pai, dos meus avós e também a mim me marcava aquela estranha simetria das ruas de pedra polida pela usura, a limpeza de tudo, e uma finura espartana que era então possível detectar nos seus habitantes silenciosos. Sobretudo essa simplicidade. Espartano... é o único adjectivo que serve para designar a memória que ainda conservo daquelas pessoas e daquele lugar.

E o senhor Tomé. O rotundo senhor Tomé, corpulento e incontornável naquela terra perdida. Foi na loja do senhor Tomé, numa plateia improvisada por ele, frente a uma televisão alimentada por um gerador a petróleo [como cheirava bem aquele petróleo de consumo caseiro, de magnífica cor rosada]... que vi o directo da primeira visita do papa Paulo VI a Fátima. O gerador falhava, o tubo por onde corria o combustível entupia regularmente, deixando cair a emissão por instantes, até que o senhor Tomé, com paciência pastoral, lá vinha remediar a situação.

Anos depois "li" o senhor Tomé, com a mesma corpulência que tanto impressionou o escritor viajante, nas páginas do seu Alentejo Desencantado. Voltei frequentemente a estas páginas, para confirmar o espanto de ler sobre o senhor Tomé. Quase um personagem literário, um Falstaff da planície...



* * *

Não resisto a deixar alguns excertos do capítulo sobre a aldeia que facilmente perderemos numa viagem desatenta:

"Oriola surge-nos já dentro da noite. Um povoado desaparecendo sob as trevas, à ilharga da estrada principal, pelo qual passaríamos sem um olhar sequer de atenção se não nos movesse o desejo de parar. São casas baixas, submersas por telhados negros que parecem o prolongamento da escuridão, que a tornam mais pesada e odiosa. As ruas obedecem a uma insólita preocupação de esquadria, a um estranho cuidado de fazer obra arrumada, certinha, de todo alheia às irregularidades ou imperfeições que fazem variada e atraente toda a obra do homem." [p.145]

O autor procura então um sítio onde possa comer e conversar com gente. A terra está vazia, parece desabitada.

"Só há ainda vida e rumor no estabelecimento principal da terra - estabelecimento que é taberna, mercearia, drogaria - e, por cima de tudo, desde as primeiras horas da manhã até que finda noite, único local de encontro e convívio para os habitantes do povoado: as crianças que espreitam à porta, as mulheres que compram os magros avios para a semana, e os homens que se atardam ali até ao momento de o senhor Tomé, o corpulento proprietário do estabelecimento, dar por findo o longo dia de trabalho". [p.145-146]

Ali encontra gente e comida; manda vir do que há e o ambiente começa a compor-se finalmente. Descreve o quadro:

"Espantados, sem palavra, [os homens] vêem passar o senhor Tomé transportando para a nossa mesa as iguarias que eles raramente contemplam, um senhor Tomé muito diferente de todos eles - até na corpulência -, pois, embora seja da mesma extracção, já trabalhou na cidade, aprendeu a vestir de maneira diferente, trocou o chapeirão desabado por um simples boné e tem hábitos e modos de sujeito vivido e experiente.
Sentam-se à nossa mesa três camponeses, envergando suas samarras de pele de ovelha, os chapéus à mão. O senhor Tomé deve ter-lhes dito mais ou menos, para os convencer a virem até junto de nós:
"Estão ali uns senhores que queriam ouvi-los cantar. Homem, não se façam esquerdos!"
[p.146-147]

Depois segue-se, no livro, o relato da cantoria. Os três homens perdem a reserva inicial e avançam pelo cancioneiro alentejano adentro.

"Lá vai Serpa, lá vai Moura
E as Pias ficam no meio,
Em chegando à vossa terra
Falamos sem arreceio.

A mesa do cemitério
Não tem toalha nem pão,
É uma mesa sagrada
Que está posta todo o ano.

A Vidigueira já tem
Dois celeiros à saída,
Um é o celeiro da morte
E outro é o celeiro da vida."


É no final deste capítulo, sobre os cantares da aldeia ignorada, que aparece outra figura que merece ser nomeada; é o velho António Nunes, que fala com autoridade sobre a festa de verão de Oriola. Não me lembrava deste pormenor. Se é Nunes é porque é cá da família...

Comments:
Estes excertos, este olhar acerca do livro de Mario Ventura, faz-me recordar os momentos felizes com ele passados. As viagens de Setubal a Montemor e a sua chamada de atenção: "Vês a paisagem?" perguntava-me de forma contemplativa...
A ultima vez que regressei ao sul a dor e a saudade tomaram conta de mim..Há medida que a paisagem se alterava e as planicies áridas surgiam, era dele que me lembrava, era ele que estava em cada oliveira, em cada bocado de terra e misturei as suas palavras com os seus escritos, com a sua expressão de ternura e de preocupação com os seus, com o seu país, com o Alentejo, com o amanhã...
A ideia de que amanhã não o verei não me interessa, pois sei que amanhã e sempre o sentirei presente..Mario Ventura está vivo em cada luta contra a injustiça, em cada sorriso de esperança, em cada gesto de generosidade e por todo o seu legado a este país, amigos e familia, jamais será esquecido..Obrigada..
 
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