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quarta-feira, agosto 31, 2005

Agosto forever 

O calendário anuncia que o mês de Agosto termina hoje, dentro de poucas horas. E de facto esta manhã, quando saía de casa a caminho do Hospital, pelo mesmo caminho de sempre, desde há quase dois anos, verifiquei que os transeuntes se apressavam mais, que o trânsito se crispava mais numa longa serpentina de veículos, que uma agitação nervosa tomava já conta de todos. É o regresso aos meses do ano comum, ao espírito utilitário do tempo, o fim do Verão, o fim de Agosto.

Gostava que Agosto fosse um mês para todo o ano, que a mesma informalidade desses dias de canícula e de lazer, podesse afectar todos e cada um dos nossos dias cinzentos. Mas logo vem o Outono e o espírito muda.

Há anos li o que um cronista regular do EL PAIS escreveu sobre o mês de Agosto e pareceu-me definitivo. Infelizmente não guardei o texto nem me recordo literalmente do que escreveu. Há meia dúzia de anos atrás um partido político do nosso sistema bi-polar resolveu fazer a sua reentrée numa festa popular a... 14 de Agosto. Nunca votei nesse partido e jamais virei a votar. Há poucos anos atrás a RTP 1 passou a 1 de Agosto o excelente filme de Jorge Silva Melo, precisamente chamado Agosto, cujo tema musical recorrente repete melancolicamente os versos: "Agosto está-se a acabar..." Em Agosto, estranhamente, parece que tudo é fim, porque a promessa de plenitude só dura quando é anunciada. Mal o mês começa, logo o fim se aproxima e se intromete entre nós e essa promessa sempre por cumprir.

Julio Llamazares, escritor e viajante, que aprecia Portugal e escreve regularmente sobre o nosso país, publicou um singular artigo no suplemento DOMINGO, de 7 de Agosto, intitulado Nostalgia. Fala-nos do veraneante interior, não do que que busca as paisagens e as coleciona ["viajar é perder paisagens" ... é assim o verso de Pessoa? - cito de memória], mas do que procura realizar as suas convicções sobre o tempo, sobre os lugares, sobre as pessoas, sobre os ritos.

"El verano empezaba cuando llegaban los veraneantes." Mas o verão do mundo também mudou, sobretudo em Espanha, porque é a esse lugar de mudança que ele especificamente se refere no artigo. "El veraneante interior se aburre también un poco (no más, en cualquier caso, que los otros), pero ocurre que el aburrimiento, lejos de solivantarle, a él le termina gustando incluso." E termina: "Y es que el verano interior, como se nutre de la nostalgia, se termina por hacer nostalgia él mismo."

E finalmente, temos de reconhecê-lo, Agosto, promessa de plenitude por cumprir, sempre termina em nostalgia. De que outro modo poderia terminar?

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