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quarta-feira, agosto 31, 2005

Os meus cafés[1]: à mesa do Martinho da Arcada 



Por falar em cafés, esplanadas, em passar horas perdidas em frente a uma mesa onde apenas repousa uma chávena vazia que jé esteve a fumegar, lendo o jornal do dia, os suplementos em atraso ou o livro que se segue. Houve um tempo em que o meu café era o velhinho Martinho da Arcada, em Lisboa, entretanto remodelado e revestido de uma laca de novo-riquismo a que nunca me habituei.

Nessa altura, lá pelo início dos anos 80, vinha do Beato, ensurdecido pelo ruído dos grandes aspiradores de cereais que sugavam milho, cevada e trigo dos batelões para os silos, para repousar no ambiente soturno e aconchegante daquele café antigo e com patine. Geralmente ia ao encontro de um amigo de sempre [que não vejo há demasiado tempo, por estrita culpa minha, o Rui Teixeira], ao encontro de livros e de uma ingénua ideia de poesia e de criação literária, partilhada a dois, em partes iguais. Mais tarde chegava da Faculdade de Letras, num tempo em que tudo isso parecia ainda ser uma imensa e magnífica aventura de final incerto e era.

É claro que cheguei ao Martinho atraído pela fama de Pessoa. Depois fiquei cliente regular, porque ali ainda era possível, numa Lisboa já em grande transformação dos espaços públicos, ficar horas a falar de coisas inúteis, a ler, a escrever, esperando quem não chegava ou quem vinha finalmente, após uma demorada espera já sem esperança.

No Martinho refugiei-me uma vez, em certo Natal dos 80, para fugir ao frenesi e ao trânsito frenético de quem fazia as suas últimas compras. Repousei numa imobilidade física tão completa, durante cerca de uma hora, que os outros clientes das mesas próximas me começaram a observar com surpresa, espanto, talvez com preocupação. Uma vez vi um rapaz de ar encardido retirar, com imenso carinho e cuidado, um pequeno gato do interior de uma mala de viagem ostensivamente vazia. Um piano coberto por um lençol de tarde, um memorável happening de Vitorino de Almeida à noite, com os seus apartes que então considerava deliciosos, sem excepção. Outras vezes esperei e fui recompensado, noutras esperei em vão.

O Martinho foi uma escola de solidão criativa, de paz e de amizade irrepetível no tempo e no modo. Foi um dos meus cafés, talvez o primeiro a que deva chamar "meu". Mas isso foi noutro século.

P.S.: Este texto, depois de perdido ontem de tarde, numa operação infeliz em que falhei a publicação, foi reescrito. Estava escrito que ia ser assim.

Agosto forever 

O calendário anuncia que o mês de Agosto termina hoje, dentro de poucas horas. E de facto esta manhã, quando saía de casa a caminho do Hospital, pelo mesmo caminho de sempre, desde há quase dois anos, verifiquei que os transeuntes se apressavam mais, que o trânsito se crispava mais numa longa serpentina de veículos, que uma agitação nervosa tomava já conta de todos. É o regresso aos meses do ano comum, ao espírito utilitário do tempo, o fim do Verão, o fim de Agosto.

Gostava que Agosto fosse um mês para todo o ano, que a mesma informalidade desses dias de canícula e de lazer, podesse afectar todos e cada um dos nossos dias cinzentos. Mas logo vem o Outono e o espírito muda.

Há anos li o que um cronista regular do EL PAIS escreveu sobre o mês de Agosto e pareceu-me definitivo. Infelizmente não guardei o texto nem me recordo literalmente do que escreveu. Há meia dúzia de anos atrás um partido político do nosso sistema bi-polar resolveu fazer a sua reentrée numa festa popular a... 14 de Agosto. Nunca votei nesse partido e jamais virei a votar. Há poucos anos atrás a RTP 1 passou a 1 de Agosto o excelente filme de Jorge Silva Melo, precisamente chamado Agosto, cujo tema musical recorrente repete melancolicamente os versos: "Agosto está-se a acabar..." Em Agosto, estranhamente, parece que tudo é fim, porque a promessa de plenitude só dura quando é anunciada. Mal o mês começa, logo o fim se aproxima e se intromete entre nós e essa promessa sempre por cumprir.

Julio Llamazares, escritor e viajante, que aprecia Portugal e escreve regularmente sobre o nosso país, publicou um singular artigo no suplemento DOMINGO, de 7 de Agosto, intitulado Nostalgia. Fala-nos do veraneante interior, não do que que busca as paisagens e as coleciona ["viajar é perder paisagens" ... é assim o verso de Pessoa? - cito de memória], mas do que procura realizar as suas convicções sobre o tempo, sobre os lugares, sobre as pessoas, sobre os ritos.

"El verano empezaba cuando llegaban los veraneantes." Mas o verão do mundo também mudou, sobretudo em Espanha, porque é a esse lugar de mudança que ele especificamente se refere no artigo. "El veraneante interior se aburre también un poco (no más, en cualquier caso, que los otros), pero ocurre que el aburrimiento, lejos de solivantarle, a él le termina gustando incluso." E termina: "Y es que el verano interior, como se nutre de la nostalgia, se termina por hacer nostalgia él mismo."

E finalmente, temos de reconhecê-lo, Agosto, promessa de plenitude por cumprir, sempre termina em nostalgia. De que outro modo poderia terminar?

Filo-Café em Vigo 



O imparável, frenético, criativo, benévolo, poeta e amigo dos poetas e da poesia, incomparável trabalhador do ofício de divulgar as vozes singulares das letras galegas e de todas as letras do mundo, o amigo Alberto Augusto Miranda manda dizer:

A 5 de Novembro, pelas 20.00 horas, todos ao Pub Sete Mares em Vigo, Galiza, para mais um Filo-café. O conceito é de um encontro em que tudo pode acontecer, da poesia à música, da performance à dança, ao teatro, à fotografia... como só o Alberto Miranda sabe fazer.

Para mais informações [precisa de inscrição] ver no post do Filo-Café. Para ver o blog, o excelente sítio onde se vão decantando poemas, intervenções, fotos e anúncios de novas iniciativas, sediadas na Sociedade Guilherme Cossul [o famoso Guilhas], que constitui o quartel-general do Alberto e das edições Tema, clicar na incomunidade .

terça-feira, agosto 30, 2005

Espólio 




A biblioteca visível do poeta [não cheguei a contar os livros, nem procedi a qualquer estimativa], os exemplares sobrantes dos seus quatro livros publicados, as cartas, postais, a correspondência, as notas de trabalho e apontamentos, recortes de jornal e o mais que não tive sequer tempo de avaliar, de folhear, de dedilhar, de entrever, não constituem a totalidade do espólio de Sebastião Penedo. Todo o material que encontrei numa mala de viagem de fundo vermelho, num baú de madeira e nas estantes, num dos recantos do sotão da quinta, foi levado para lá pelo poeta, talvez há perto de vinte anos, depois de uma inesperada mudança de quarto.

A morte da velha senhoria deixou-o numa situação difícil, de falta de espaço, e a solução foi separar-se da biblioteca e dos documentos pessoais mais antigos, remetendo-os para uma casa de família. Presumo que desde essa data até à altura da sua morte trágica e triste no Tejo, o poeta tenha continuado a escrever, publicando ou não, produzindo autógrafos, a comprar livros, a recortar artigos de jornal, a receber cartas. Não sei onde se encontra todo esse material e não tenho qualquer tipo de legitimidade familiar para reclamar a vantagem de juntar num único lugar todo o espólio de Sebastião Penedo. Isso seria, como parece claro, o melhor que poderia acontecer; um acto tardio de justiça poética, já que nenhuma outra, de momento, lhe poderá já valer.

Seja como for decidi trabalhar com o que há, com o visível. Depois de terminar a arrumação e organização da sua biblioteca, composta por centenas de volumes, tratarei de inventariar o restante espólio documental. Separar, interpretar, selecionar e arrumar os documentos em pastas, capas plásticas, de modo a que se possam preservar da destruição certa. Não é trabalho, será prazer. Mas isso levará tempo.

Ler na Praia 



Também se pode ler na praia. Uma das mais belas imagens da leitura que vi, se é que é possível dizer isto, sem cair velozmente no ridículo, pela delicadeza que envolve, foi numa praia. Para lá dos Olhos D'Água, num Verão não muito distante, creio que há três anos, entardecia junto à beira mar. Quase anoitecia, a luz já era escassa. Caminhávamos entre a areia solta e a linha da água de uma praia deserta. À nossa direita o mar, à nossa esquerda o balcão de areia com um breve afloramento de dunas. A pouca distância, mas completamente absortos e mergulhados na leitura [metáfora adequada numa praia] estavam dois jovens, provavelmente namorados, rapaz e rapariga, lado a lado, na mais completa imobilidade. Liam, lado a lado, em silêncio, quase no escuro, ignorando quem passava junto à primeira linha de água. Cada um segurando um livro, certamente diferentes, mas no mesmo silêncio devoto. Para quem encara a leitura como uma religião, como eu, aquela imagem pareceu-me uma iluminação repentina, uma teofania, a revelação de uma felicidade e de beatitude como não voltei a ver depois. Senti inveja de cada um [finalmente o ridículo] e sobretudo do que estava no meio, a uni-los naquele silêncio.


* * *


O Ayuntamiento da Isla Cristina, Ayamonte, terra do León, amigo luso-espanhol-andaluz, mantém na praia uma Biblioteca onde, com grande simplicidade de processos, é possível requisitar livros para ler na praia e para levar para casa. E há lá boa leitura. Que dava para um verão inteiro de compulsão, de abnegada oração diária, e sobrava.

segunda-feira, agosto 29, 2005

O Leitor Nocturno 



Sou um leitor de todas as horas, mas sinto-me, antes de mais, um leitor nocturno. Neste verão redescobri o prazer de descer à rua, sentar-me à porta de casa, depois do jantar, para acabar a noite a ler. Não é possível imaginar prazer mais simples nem mais modesto, mas durante mais de uma semana, foi assim que eu passei parte das minhas noites no Algarve. Tempo quente de dia, ensolarado, fastidioso, e noites abafadas, com o sereno ar do sul parado dentro das casas. Depois das dez da noite, descia à rua com a poesia de Luiza Neto Jorge, que passou por Silves e ali escreveu, com o jornal do dia ou com o policial da quarta-feira anterior e frequentemente saía dali para o quarto para continuar a leitura noutro ponto qualquer de outro livro.

A jornada acabava, por vezes, a horas bastante improváveis, e isso fez de mim, nestas últimas semanas, o que se chama um leitor nocturno. Leitor de todas as horas, mas compulsivo até de madrugada, quando o sono está quase a tomar conta de nós. Agora que Agosto está a terminar, e entramos noutra ciclo de ritmos vitais, continuo a ler de noite. Escrita até de madrugada, leitura depois, antes de clarear. Sono breve e profundo, despertar a toque de caixa lá pelas dez e tal da manhã, onze horas.



[Livros Lidos]

Leio coisas diferentes a horas diferentes, mas por vezes, caoticamente, misturo tudo e rompo com a regra que nunca chega a consolidar-se. Durante as férias no sul, lia os jornais de manhã, a poesia um pouco ao acaso do capricho de cada momento [Luiza, Whitman], o policial depois de almoço [Nicolas Freeling, Anthony Berkeley], ou outra leitura corrente [Hemingway, Tonino Guerra, Zlata, Jorge Buesco], os Diários de Torga em casa, antes das refeições, em pequenos momentos de espera e de pausa. Depois do jantar a poesia de novo e até de madrugada de novo a leitura corrente, o policial, etc. Como se vê um esboço de ordem, mas ordem efectivamente nenhuma. E no dia seguinte o mesmo ciclo. No café Túnel, na correnteza e no embalo do vento, em casa, na sala e no quarto, sentado ou deitado na minha cama, na rua, junto à porta de entrada, sentado num banco instável. Um pouco na esplanada da praia, da única vez que vi o mar, se não contar com a visão fugaz e esborratada do azul atlântico entrevisto desde a torre do Farol de Vila Real.

O regresso a casa veio alterar a rotina pela escrita. Agora também é urgente escrever. Ler é mais pela madrugada.

Os comboios de Bénard, os meus comboios 

Esperava ontem ansiosamente pela crónica caudalosa de João Bénard da Costa. Chegou pela via larga da memória, balançando entre a imaginação do cinema e o inesgotável recordatório pessoal do autor. "Comboios, Reencontros, Medo", é um lamento sobre o fim das largas viagens de comboio, -["No comboio até há tempo para se sair de Roma decidido a uma separação conjugal e chegar a Paris reapaixonado pela mulher."]-, mas um lamento resignado à circunstância do tempo também passar pelas coisas, vertiginosamente, às vezes, como um comboio de grande velocidade.

A crónica de Bénard da Costa levou-me a repassar as minhas torpes recordações com comboios. Algumas fotografias em viagens domésticas, pela península, alguns episódios que só ganham algum ênfase no âmbito demasiado restrito da memória familiar. Eu também prefiro o comboio ao avião, com a vantagem de que associo o segundo à sentença inexorável de uma provável pena de morte e o primeiro à promessa de uma viagem eterna, mergulhado nalguns dos grandes prazeres da vida terrena: ler, conversar, beber, fumar, olhar a paisagem sem qualquer compromisso, suspendendo indefinidamente qualquer classe de urgência vital, apenas ocupado em estar ali a caminho de um lugar onde até poderíamos nunca chegar inteiramente, porque o importante é a viagem, não a chegada.

Nunca fizémos grandes viagens. De Lisboa para Madrid, de Madrid para Lisboa, de Lisboa para Vigo e Santiago, de Barcelona para Cartagena, no Levante, de Sevilha para Ronda, a linha que segue o Douro até ao Tua e mais meia dúzia, com paragens e mudanças nocturnas, quase sem história. À última hora pedimos a devolução do dinheiro dos bilhetes de Tanger para Marraquexe. O AVE, de Madrid para Sevilha, onde chegámos ainda manhã cedo, tontos pela velocidade e pelo sono. Em Granada ou em Córdova dormimos junto da estação, em plena rua, em Medina del Campo caminhámos ainda de madrugada a explorar o lugar, em Mérida abandonámos voluntariamente durante horas a nossa bagagem mais pesada, em plena estação, sem que alguém a tivesse cobiçado, no Pocinho chegámos àquilo que parecia o fim da linha mas era ainda o início de outro caminho mais remoto. Mas em nenhuma das viagens que fizemos ocorreu algum assassinato ou teve lugar algum desaparecimento misterioso, digno de Hitchcock.

Na estação de Salamanca aconteceu aquilo que poderia ser, para uma fantasia inconformada, o princípio de uma história policial. Tomei notas, recordo-me dos pormenores. Estávamos de chegada à cidade, creio. Vindos de outra cidade próxima, de Ciudad Rodrigo. Viagem breve, brevíssima, que não deu para aquecer o lugar. Na estação modesta encontrámos, dentro de uma papeleira, um livro abandonado. Más alla del Golfo de México, Aldous Huxley, Ed. Edhasa, Barcelona, 1986. Este, da fotografia.


Com uma marcador da editora, - Edhasa -, e, entre as suas páginas, um bilhete emitido pela Generalitat de Catalunya - Departament de Cultura... para uma das suas iniciativas. Era o dia 17 de Agosto de 1991 e alguém tinha largado aquele livro na papeleira, vindo de Barcelona, a caminho sabe-se lá de que outro destino. Conservo o livro de Huxley, que ainda não li, como o símbolo do que há de aleatório em todas as viagens, e de desconcertante em todos os rumos, em todas as derivas. O livro tem uma história, que lhe pertence, mas que, na totalidade niguém conhece nem conhecerá. A realidade embrulha a ficção, confunde-a, torna-a mais atraente. Um dia este livro seguirá outro rumo [poderei optar por oferecê-lo, por perdê-lo, por emprestá-lo sob rigorosas condições contratuais, escritas, etc] e a sua história continuará a enredá-lo.


No ano seguinte, na mesma estação de Salamanca, sobre um balcão da Renfe, encontrámos um par de óculos de sol. Parecia estar ali para confirmar qualquer coisa, uma regra pela qual se regulam os acontecimentos extraordinários, que nunca esperamos que aconteçam, mesmo se os desejamos. Chegar a Salamanca todos os anos, pelo mês de Agosto e ter um encontro inesperado com um objecto, com uma pessoa, com o pedaço de uma história que se desenvolve para lá da nossa imaginação. Começar uma ficção, regressar à cidade apenas para propiciar esses encontros. Mas não há regras destas, não há leis para este tipo de acontecimentos. Instantes depois da descoberta vieram reclamar-nos os óculos que tinham apenas ficado esquecidos por momentos sobre o balcão... destruindo aquilo que poderia seria um longo idílio com o acaso e o princípio de uma ficção.

No desconcerto, fico com as palavras belíssimas de Bénard da Costa sobre os "seus" comboios.

"Agora, já não há comboios como os de antigamente, mas quando os havia com wagons-lits e wagons-restaurants, nem muito lentos nem muito rápidos, lugar mágico para todos os encontros e todos os desencontros, que melhor podia haver para uma viagem do que comboio? Talvez um navio - e os primeiros comboios eram navios com rodas e sem mastros, obrigados aos carris e abrigados dos ventos."


"Nos comboios, cabe a vida inteira e ainda sobeja vida."

"Tal como se diz que há pesoas-gato e pessoas-cão, eu acho que há [...] pessoas-avião e pessoas-comboio."

A conta da Tipografia Ideal, à Calçada de S. Francisco 

Nas edições de autor, como é o caso de toda a obra de Sebastião Penedo, o poeta é também editor, financiador, contabilista, corrector e distribuidor. O terceiro livro de versos - Meu Silêncio Amigo, Poemas - sai no ano de 1977. O poeta tem apenas 32 anos. Já regressou da Guerra de África, confuso e perturbado, voltou ao seminário, de que sairia de seguida. O verão quente tinha já passado, estava-se em Maio e Portugal ainda vivia o rescaldo de uma passagem tumultuosa da ditadura para a democracia.

Este terceiro livro ainda inclui um poema de África, escrito em Moçambique em 1971, seis anos antes, - Noite de África. Regista a passagem pelo Sanatório do Outão em Setúbal, em Junho de 1975 e testemunha uma visita a Málaga, em Junho do ano seguinte, com Plaza de la Marina:

"Sol, o sol molhando o barvo Andaluzia no cais.
Altos, solenes, lentos palmares de Málaga
a mergulharem os cabelos no ar mediterrâneo
até Salah, Sabhah, longe, lá nos areais."


Mas a poesia de Sebastião Penedo não é uma poesia social. O seu tempo é pessoal, não é colectivo. As dores de parto de um regime, aparentemente, não passam por aqui.

Em Maio de 77 o poeta recebe da Tipografia os 350 exemplares do seu terceiro livro de versos. Aqui fica a factura, que tem data de 30 de Junho do mesmo ano.



A Tipografia Ideal, situada na Calçada de S. Francisco, 13A, em Lisboa, daria à estampa um livrinho de aspecto modesto, com título em tom de azul. A factura indica o valor de 10.825$00 [dez mil, oitocentos e vinte e cinco escudos], pelas três centenas e meia de exemplares, de que ainda assim, sobraram alguns por oferecer aos amigos e conhecidos. Hoje seriam apenas, supondo o preço de então, cerca de 54 €, com uns cêntimos mais. Terá sido para o poeta um grande esforço financeiro. Acrescendo ainda o imposto de selo, no valor de 21$70. O livro seguinte seria impresso noutra casa.

domingo, agosto 28, 2005

A República dos Livros e outros blogs do Mundo 


O Le Monde, como o nome sugere, e não é fácil evitar o trocadilho frouxo, é um mundo. É uma galáxia editorial que se esforça por não perder o lugar na linha da frente dos novos media. Para além das várias edições estrangeiras [ver a página das editións étrangères do Le Monde diplomatique], do número dedicado à educação, com colaborações de grande nível, a empresa também permite que os seus leitores se tornem editores para uma audiência muito qualificada e numerosa; os próprios leitores do jornal. Disponibiliza um serviço de blogs por assinatura que pode ser consultado aqui mesmo.

O resultado parece ser de muita qualidade. Destaco desde logo la republique des livres de Pierre Assouline, colaborador do Monde, que aparece neste foto a tomar uma chávena de café.

Langue sauce piquante - se bem entendo, é um blog "des correcteurs du monde.fr", correctores da edição electrónica do jornal. Depois há de tudo: limito-me a indicar alguns outros, também de colaboradores do jornal, quase todos, numa visita rápida e superficial. Este Transnet - des gadgets aux réseaux, sobre as novas tecnologias e os novos processos de comunicação. Ou este curioso e insólito Carnet carioca, sobre a realidade brasileira, nos seus aspectos mais lúdicos e exóticos, de um jornalista que foi ao Rio passar férias e mudar de ares. Ou Big Picture, Histoires en Coin d'zinc, de Xavier Gorce. Ou... muitos mais. É só ir ver.

[clicar sobre a foto abaixo]

5410 gr. de papel para domingo 

No post anterior, que dediquei às minhas leituras de culto, aos cadernos, separatas e suplementos dos jornais que vou lendo dia a dia, semana a semana ou quando é o caso, previ para hoje [ou seja, para ontem, sábado], o que já era previsível. Que receberia mais jornais para ler, acumulando aos que deixara da semana anterior, em lista de espera. Só não previ a quantidade e a qualidade de boas leituras irrecusáveis, praticamente todas, que acabaram por chegar logo pela manhã.

Fui pesar cada um dos jornais que recebi, para ter uma ideia do peso em papel que vou ter de folhear minuciosamente, transportar para o café, dobrar pelos vincos das páginas, para evitar o efeito devastador e arreliador do vento, prescrutar de alto abaixo, da esquerda para a direita, sublinhar quando me pareça que merece o destaque, transcrever, num caso ou noutro, mais raramente recortar e guardar.


Com a balança dos bolos, guardada na cozinha [temo que seja a mais fiável da casa, o que não é dizer muito] improvisei uma delicada e minuciosa operação de pesagem de jornais. A escritora Adília Lopes pesava livros, depois de os ler e comentar na televisão [ver este meu post anterior], pesou a sua mulher a dias, num sinal de ternura inverosímel. Eu peso jornais, antes de me lançar à sua leitura: leio amanhã.

O Público de sábado, com a Revista X, o Local e o Suplemento Fugas [ainda sem o excelente MIL FOLHAS que está de Férias], pesou 320 gramas.

O Courrier internacional, que veio com a oferta do volume X do Atlas da História Mundial, dedicado à Cronologia, pesou 250 gramas.



O Expresso, com todos os seus cadernos e separatas e revistas, - caderno principal, ECONOMIA & INTERNACIONAL, EMPREGO, ACTUAL, Espaços & Casas, a revista ÚNICA, o Guia Expresso de Portugal [dedicado a Trás-os-Montes], um cartaz-folheto da temporada de Música da Fundação Calouste Gulbenkian para 2005-2006 e um CD ROM do Cartaz -, chegou às 760 gramas limpas.

Finalmente o EL PAÍS, que chegou por ter estado guardado na Livraria Barata em Lisboa, veio em quadriplicado, mas por duas vezes [encontrei depois mais quatro números esquecidos que incluo agora na contabilidade]: os 8 últimos jornais das edições de domingo [5 e 26 de Junho e, 3, 10 e 31 de Julho, 7, 14 e 21 de Agosto], com o caderno principal de 56 páginas, a revista EP [S], o suplemento Domingo, o caderno de Negócios e o Pequeño País, para crianças, mais o Pasatiempos, com jogos, estes últimos com apenas 4 páginas cada, pesou 4080 gramas, peso líquido.

Ao todo, levo para domingo e para muito tempo mais, dia da desejada crónica de Benard da Costa no Público [terá entrado de Férias?], 5410 gramas de jornais para ler.

sábado, agosto 27, 2005

Tudo para ler [revistas e suplementos, cadernos, papéis] 



Muito do que é preciso ler nunca será lido. E isso é definitivo. Resolvi fazer um balanço optimista do que tenho para ler nos próximos dias e que acredito que vou mesmo ler; apesar de amanhã [já hoje...] e domingo chegarem mais jornais, mais revistas, mais papéis, com mais urgência de leituras irrecusáveis e inadiáveis.

Nos jornais começo pelo destaque de primeira página e quando tenho tempo levo a leitura de seguida, como leitor obediente. Leio muita opinião, seja política, seja de índole mais social ou cultural. Aprecio os artigos técnicos do suplemento do Público consagrado aos transportes, que têm fervido com o grande debate em torno do aeroporto da OTA e com a opção do TGV. Leio tudo sobre a alta velocidade. Em parte porque aprecio a perspectiva estética da velocidade, desde a minha preferência actual pela imobilidade - os versos modernistas de Pessoa, aliás Álvaro de Campos ["Com tal velocidade desmedida, pavorosa,/ A máquina de febre das minhas visões transbordantes gira agora..."], de Witman ["Eu canto o corpo eléctrico."], são uma consagração da beleza da velocidade e da máquina veloz -, em parte porque gostava de poder chegar a Badajoz numa hora e a Madrid em menos de três horas, para poder subir e descer a Cuesta de Moyano, junto ao Prado e ao Real Jardim Botânico, ao entardecer, ainda a tempo de salvar algum livro usado para ler na viagem de regresso.

Por vezes folheio o jornal ao contrário. Ou numa regressão parcial, de secção em secção, até decidir refazer a leitura sequencial. No caso do Público [às vezes penso que não há outro jornal] procuro frequentemente a secção de Sociedade, onde os temas da Educação se refugiaram cobardemente, a secção dos Media, as páginas onde provavelmente encontro ciência, cultura, etc. Evito o desporto, nem me prendo na secção que lhe é dedicada, ainda que hoje o destaque que li integralmente fosse acerca das competições europeias de futebol...

Mas são os suplementos e os cadernos aquilo que procuro com mais fervor, que guardo mais tempo na esperança de poder chegar a lê-los. Tenho alguns de culto. Começo pelo EL PAIS, que é, como todos sabem, um dos melhores jornais do mundo. Sobretudo é muito jornal, onde se escreve muito, sobre o mundo todo, e muito bem. Tenho lido, ao longo de muitos anos de leitor do EL PAIS, agora muito mais irregular do que antes, alguns dos melhores textos de jornalismo de que me lembro. A sua revista - agora EP[S] - faz parte da nossa família, da minha e da nossa história familiar. Temos na varanda centenas de exemplares desbotados pelo sol da El PAIS Semanal, mas definitivamente não sou um leitor de revistas. Prefiro os cadernos, os suplementos e as separatas em papel pardo, em papel rosado ou noutra combinação que não seja a opção coquette do papel couchée.


No caso do EL PAIS aprendi a gostar do excelente suplemento Domingo, que é consagrado a grandes temas de desenvolvimento em todas as áreas imagináveis que marcam a actualidade frenética do mundo. O último que me chegou às mãos ocupa-se com o Japão e as feridas ainda abertas de Hiroshima... num contexto de redefinição da política da região. Um artigo de Rosa Montero, recordando o seu trabalho para o mesmo jornal sobre a "matanza de Atocha", em 1977, vale por tudo. Uma entrevista com Jordi Savall e o mistério da música antiga, um relato estival de Julio Llamazares... completam o menú.


A Babelia é outra das minhas referências. Tenho-as todas guardadas ou pelo menos estou convencido disso. Se fosse verdade seriam largas centenas, milhares de páginas de informação e de puro prazer de leitura. A Babelia de 13 de Agosto, de há duas semanas, comprada na minha breve passagem por Ayamonte, trago-a ainda na mochila preta. Tem um conjunto de belíssimos textos sobre a Novela e as grandes histórias da literatura, e a capa com uma ilustração de Fernando Vicente parece ter-me enfeitiçado. É belíssima. Li esse dossier temático em viagem de regresso de Vila Real, numa leitura tremida. Continuo a lê-la.



O Le Monde é outras das minhas referências absolutas. Aprecio a simplicidade do lettering, associada a um gosto moderadamente clássico e conservador, a leveza da sua primeira página, com poucas fotos e sempre com a graça de uma gravura. O texto respira aqui, como no interior austero deste jornal que se oferece ao leitor como uma das suas leituras diárias. Não é absorvente, não nos prende a leituras evitáveis, não ilude, não pesa. É um jornal ultraleve e pouco espesso. 22 páginas não chegarão, a cada dia que passa?


O último número que comprei, em Vila Real, é de 12 de Agosto. Destaques para o impasse no Iraque e um caderno com um tema inesperado: o islão feminino da China, com as mesquitas reservadas a mulheres, onde mulheres imanes oficiam para outras mulheres. Um texto sobre a biblioteca particular de Enrique Vila-Matas [Un écrivain nous ouvre sa bibliothéque] - que bela ideia para o BME! - incluido num caderno que se chama, em títulos de azul, LIVRES D'ÉTÉ.



A outro nível, mas sem desprezo, também gosto de compulsar os textos do caderno ACTUAL que vem com o jornal Expresso. Há sempre que ler. A ÚNICA, revista de prestígio do mesmo jornal pesa várias vezes o Le Monde, sem a vantagem proporcional da qualidade. Também leio algumas coisas, pelo menos folheio. Ainda do Público o MIL FOLHAS, que aprecio e devoro quase sempre que posso. Parece-me um formato estável, nada pretensioso e cumprindo bem o seu papel cultural.


Recentemente também temos o Courrier Internacional [o sítio encontra-se ainda em construção]. Transporto na mochila preta os últimos dois números: o de 12 deste mês, dedicado inteiramente às Viagens, e o de 19 dedicado aos Desertos. A ler, ainda. Recentemente, porque foi um hábito de anos, muitos anos [merece um post próprio], entretanto interrompido, volto a ter à disposição o JL - Jornal de Letras, Artes e Ideias. Também um número com o tema das viagens, outro sobre o erotismo na ficção portuguesa. Sei qual o que me dá mais tesão neste momento. Nada a acrescentar...



O que é que fica de fora? A crónica encantada de Benard da Costa [sempre belíssima], no Público, as crónicas por vezes apatetadas de João Carlos Espada, cuja deriva conservadora acompanho há anos sem saber quando terminará [mas que leio e por vezes com proveito], as diatribes sempre divertidíssimas de Clara Ferreira Alves, a Pluma Caprichosa, os textos inverosímeis de Luís Fernando Veríssimo, alta literatura na folha do jornal, a crónica caudalosa e estritamente idiossincrática de Joaquim Manuel Magalhães, que eu leria com o mesmo prazer se duplicasse ou triplicasse a sua extensão, numa destas publicações, mas agora que me perdi, nem sei qual será. Bom, as opiniões do Expresso... e se quisesse ser politicamente incorrecto, mas justo e verdadeiro neste depoimento das leituras soltas, não poderia esquecer a leitura quase diária daquela referência do jornalismo popular e de proximidade, que é gratuitamente disponibilizada em praticamente todos os cafés que conheço: O Correio da Manhã.

Amanhã, quer dizer hoje [neste momento já há muito que rolam as rotativas, gemem os prelos] receberei mais leitura urgente. Os jornais não podem parar... e a leitura também não!


sexta-feira, agosto 26, 2005

125, o aniversário redondo de JB 

Fica aqui a nota, para não esquecer: em 2006, mais rigorosamente no dia 4 de fevereiro, passam 125 anos sobre o nascimento de João de Barros, o patrono. Pode ser o pretexto que faltava [de facto não faltava pretexto nenhum e sobravam razões] para trazer à escola a Drª Joana de Barros Baptista, neta do poeta e ministro, republicano e publicista de ideiais generosos.

E já agora pode também constituir esta efeméride uma oportuniddae para ler os seus textos sobre a escola e a educação: A Escola e o Futuro [1908], A Nacionalização do Ensino [1911], A República e a Escola [1914], Educação Republicana [1916], O Problema Educativo Português [1920], Um Grande Educador: João de Deus Ramos e a Obra dos Jardins -Escolas [1933].

19 recantos ["beijar-se dentro do estômago/ almoçar nesse salão"] 

Luiza Neto Jorge passou alguns meses em Silves, durante o ano de 1983. Isso serviu-me de pretexto para levar a sua Poesia [Assírio & Alvim] na bagagem para Vila Real. 22 anos depois. Li os seus poemas sem cautela, numa só arremetida até ao meio do livro. Depois parei umas semanas, uns dias. Retomei ontem, estou quase a terminar o conjunto de poemas saídos, se bem entendo, sob o título de Os Sítios Sitiados. Cheguei esta madrugada, ontem à noite, aos Dezanove Recantos e percebi, finalmente, como é arrebatadora a poesia desta mulher. Não é preciso estar preparado, basta ler, chegar aos poemas. O resto é com esta poesia truculenta, que desiquilibra e perverte.

"Ó Garfo autómata fome desvairante ó puro estro
pura e enfeitiçada boca
tenros dentes seus faces por redimir
mães aflitas
correndo, recorrendo,
pelas 7 partes de tudo contornando-me"


[recanto 3, excerto]



"Seu corpo de outra época
nas superfícies menores é corpo grado a incidir.

Seu corpo de animal
só fala de sorver
tudo o que encontrar

beijar-se dentro do estômago
almoçar nesse salão
a ternura fresca do peixe
da bebida:

coisa fulgente, alibi cheio de escamas, ao meio-dia."


[recanto 5, excerto]



"dentro do que quer que seja: de um líquido
como o que há no chão dos talhos"


[recanto 6, excerto]



"O verão deu-nos uma volta aos olhos."

[recanto 11, excerto]



"liquidamentamante"

[recanto 12, excerto]

quinta-feira, agosto 25, 2005

Obra visível, obra invisível [discrepâncias] 

A brevíssima obra visível que o poeta Sebastião Penedo nos deixou é fácil de enumerar. Aliás, já o fiz neste post, um pouco mais atrás. Nada justificaria uma omissão nem acrescentos despropositados, porque a dimensão da obra publicada não o permite, seja qual for o grau de rigor com que nos apliquemos à sua consideração. Terão sido publicados poemas esparsos em revistas e jornais, como afirma Gaspar Simões na nota crítica de 1976, no Diário de Notícias, que transcrevi integralmente aqui. Mas tudo leva a crer que esses poemas ou foram objecto de publicação nos livros anteriores a essas colaborações ou que sairam nos seguintes. Um bom argumento nesse sentido encontramo-lo no episódio da escrita do poema Dia Santo [a que me refiro aqui mesmo], fixado numa folha de rosto do livro de Ruy Cinatti e escrupulosamente, fielmente, reproduzido no livro seguinte, um ano depois, sem qualquer alteração.

A ordem cronológica de saída dos seus quatros livros conhecidos está bem estabelecida, aparece na abertura de Sumo Natural, de 1979. Os quatro livrinhos de poemas conhecidos foram publicados no breve período de apenas uma década, entre 1969 e 1979. Entre o primeiro e o segundo medeiam quatro anos; mais quatro do segundo para o terceiro e dois, deste para o que parece constituir o derradeiro. Uma colaboração, suficientemente relevante para ser indicada na tábua bibliográfica do autor, ocorreu durante este intervalo de tempo assinalado, em 1976, entre o segundo e o terceiro livro. Custa a acreditar, no entanto, que o poeta nada tenha publicado entre 1979 e a data da sua morte infeliz nas águas do Tejo, cerca de três anos atrás... Quase um quarto de século de silêncio, em poesia, mesmo que apenas na matéria e na circunstância do livro, dando como certo [?] que a escrita e a produção poética continuaram com o mesmo ritmo que a produção anterior, com o mesmo tempo lento, parece-me demasiado tempo, parece muito improvável. Falta saber o que ficou, onde, em que estado... o que sobrou, em versos esparsos ou reunidos, desta meia vida, deste quarto de século, que atravessa um tempo cheio de mudanças no país e no mundo.

Passaria agora à outra, a uma espécie de obra oculta, velada ou desconhecida, na sombra; talvez deva dizer, - à cautela para não errar muito, - à obra anunciada, à obra ignorada, à obra interrompida, de que não tenho, nunca tive qualquer rasto. E aqui há discrepâncias.

Não tendo ainda tempo para compulsar a parte do espólio que é composta por documentação variada, cartas, postais, recibos e facturas, artigos e recortes de jornais, apontamentos e cadernos de valor aparentemente desigual, e a cujo trabalho tenciono dedicar o meu ócio logo que possa, apenas falo do que nos deixou o poeta nos seus livros. Numa tábua bibliográfica que cresceu pouco, mas que actualizava em cada novo livro, o activo da sua obra.




Em 1969 Sebastião estreia-se com Livro de Versos, dedicado ao primo Raul de Carvalho, a quem nomeia como "monge da Religião do Mar"... "dedico este primeiro e pobre livro de versos", escreve então, não sem homenagear ainda, em páginas posteriores, os pais e os três irmãos. A epígrafe deste primeiro livro é de Raul de Carvalho, e exprime, pelas palavras de outro poeta, de um poeta que admira, um grande acto de generosidade:

"Com versos eu devolvo ao Universo
a confiança que Deus depositou em mim"


[Raul de Carvalho]


O livro reune os poemas em dois grupos, debaixo de um sub-título: Mapa da Alma é o nome do primeiro grupo de 27 poemas; A Mesa Posta, o do segundo conjunto, que abrange 24 poemas. A obra foi impressa em Novembro de 1969 na Tipogragfia Ideal, em Lisboa. Nada mais consta.



Claridade, de 1973, é o segundo livro e o poeta dedica-o à memória de Cristovam Pavia de quem cita em epígrafe:

"O tempo agora é um mistério claro..."

Raul Brandão e Álvaro de Campos também são convocados à boca dos seus poemas, para aludir à dor, à ternura e à angústia. Os seus 66 poemas aparecem soltos, sem outra estrutura interna, postos do primeiro ao último, sem qualquer sub-título. A impressão deste livro, que me foi oferecido em Agosto de 1982 por um dos irmãos do poeta, também esteve a cargo da Tipografia Ideal.



Meu Silêncio Amigo, que é de 1977, avança um pouco na promessa de uma obra que está oculta ou que foi interrompida por circunstâncias. E aqui começam, preparam-se as discrepâncias. O poeta, depois de elencar as obras já publicadas, em que inclui aquela mesma que acabou de dar à estampa, anucia - A PUBLICAR - mais três obras: Outros Poemas, Sonetos e Sobrememória (apontamentos). Destes títulos não encontrei no espólio qualquer rasto, nenhum exemplar, nada de nada. Pode ter acontecido uma de várias situações:
a) Estes títulos foram publicados, mas não chegaram a juntar-se ao espólio restante do poeta, reunido parcialmente na casa familiar onde o consultei;
b) Os projectos de publicação a que estes títulos correspondiam foram abandonados, no todo ou em parte, e nada chegou ao nosso conhecimento;
c) Uma parte ou a totalidade destas obras anunciadas acabaram por se transfigurar no último livro que lhe conhecemos, o Sumo Natural, de 1979.
d) Estes títulos acabariam por se transfigurar em projectos com outras designações, o que explicaria a aparente discrepância com a informação aparecida no seu último livro conhecido, que veremos de seguida.
e) Nada disto terá acontecido e parte da sua produção ficou inédita, algures, ou acabou apenas parcialmente publicada em jornais e revistas, colaborações, etc.

Livro dedicado à memória da mãe, Maria Joana, do pai Chico Diogo e do avô, o lavrador Penedo, evoca também os nomes de Agostinho da Silva, Luís Amaro, poeta, Fernando Pessoa, Eduardo Cortesão, Maria Aliete Galhoz, Álvaro de Campos [por um verso em que diz, como que correndo que "venho dos lados de Beja"], Raul de Carvalho, Herberto Helder e Anne Perrier, entre vários outros amigos. Encontra-se também organizado em duas partes distintas com títulos diferentes, sendo o segundo que dá nome ao livro: Culto Solar agrupa os primeiros 21 poemas; Meu Silêncio Amigo, sub-título que também é título, reune os restantes 45.

As últimas páginas do livro reservou-as o poeta para excertos de algumas críticas e referências aos seus livros anteriores, saídas na imprensa. O caso de Gaspar Simões, que se lhe refere no DN, em Abril de 1970 e no mesmo jornal em Novembro de 1976 [ver texto integral desta nota crítica neste post anterior]; Carlos Serra, que escreve no Notícias da Beira em Julho de 1971; João Maia, na Brotéria, em Janeiro de 1974; José Apolinário Ramos, A Voz do Operário, também em Janeiro de 74; Urbano Tavares Rodrigues, no Jornal do Comércio, com data de 20 de Abril de 1974 e Maria Aliete Galhoz, na revista Colóquio/ Letras, no mês de Março de 1975. No total, mais de seis páginas de crítica e recensão que revelam apreço e simpatia pela sua lírica solar e generosa, pela simplicidade dos versos e pela autenticidade de uma voz que cresce em cada livro.

Ainda a mesma tipografia de Lisboa, impressão no mês de Maio de 1977. Em nota final Sebastião Penedo afirma que algumas das poesias constantes do livro sairam anteriormente em jornais e revistas. No caso: Diário de Notícias, Notícias da Beira, Nova Terra, O Século, Correio da Horta, Colóquio [/Letras?] e Nova 2 [publicação que será referida com o estatuto de colaboração, na obra seguinte].

Uma nota final: numa conversa que tive uma vez com o poeta, e não me recordo de outra tão detalhada e pausada como essa, que teve lugar numa data imprecisa, provavelmente depois de 1985, Sebastião Penedo falou-me da intenção de fazer sair um livro de memórias, o seu primeiro livro em prosa. Não posso garantir se era então um projecto seguro e em curso, se uma intenção vaga apenas. Nunca vi esse livro, não voltei a ouvir falar dele. Mas, aparentemente, vem anunciado neste Meu Silêncio Amigo com o título de Sobrememórias e o estatuto mais modesto de apontamentos.



Finalmente, Sumo Natural, de 1979, vem ampliar os equívocos e tem um dado novo da máxima importância. Para além de indicar a totalidade das quatro obras publicadas até então, indica uma colaboração com A NOVA 2, no Outono de 1976, dois anos antes, certamente uma revista literária. Também anuncia, promete, mais duas obras - A PUBLICAR - mas nenhum destes títulos coincide com os que foram prometidos no livro anterior. Desta vez refere-se a Lâmpada e a Ponte Verde da Infância. Dá-se o caso que esta informação vem seguida de uma outra que adensa o mistério. Esta última obra, vinda a público ou inédita ainda hoje, foi galardoada com o Prémio da Academia Internacional de Letras do Rio de Janeiro. E de facto, esta distinção chegou-me por diversas vezes, não pelo próprio, mas de forma consistente e credível. A crer na informação constante no livro Ponte Verde da Infância, esta terá sido apresentada a concurso ainda como obra inédita, e depois de distinguida, é difícil acreditar que não tenha sido publicada. Não a conheço, nunca vi esse título, mas o prémio dá-lhe uma realidade praticamente irrecusável, como obra publicada, já que a existência de pelo menos um inédito premiado não merece qualquer dúvida. Resta saber onde se encontra.

A discrepância entre títulos prometidos, nomeadamente nas suas últimas duas obras conhecidas, é algo que merece atenção e que não sei explicar, com a informação que possuo de momento.

Sumo Natural é a sua obra mais extensa e graficamente a mais cuidada, menos artesanal. Não apresenta epígrafe alheia, nem é dedicado globalmente a ninguém. No entanto alguns dos seus poemas aparecem como ofertas a amigos e familiares, sem outra informação.

Os seus 83 poemas apresentam-se em sequência única, sendo o título do livro pedido de empréstimo a um deles. O poeta mudou de tipografia; desta vez a obra foi impressa na Henriques Torres, na Rua de S. Bento, em Novembro de 1979.

Também aqui, duas notas finais. A primeira refere-se ao facto deste exemplar que compulso de momento, me ter sido oferecido pelo poeta, quase seguramente dado como sendo o mais recente. A dedicatória diz, infelizmente sem indicação de data, nem ano, nem mês:

"Para o José Gustavo
este livro de poesia já talvez
ultrapassado em alguns textos.
Desejando-lhe muitas felici-
dades pessoais e intelectuais
(filosóficas, nomeadamente)

Com simpatia e admiração.

Sebastião Penedo"


A outra nota: do intervalo de dois poemas - entre Milfontes e Aguarela - saiu-me há momentos um pequeno pedaço de folha de jornal, amarelecida pela passagem do tempo. De um lado aquilo que seria a morada do local de trabalho de Sebastião Penedo, na Rua Carvalho Araújo, no Posto de Saúde da Alameda, redigida com letra segura, por ele próprio, presumo. Com indicação do horário de trabalho. No verso, dois números de telefone e a respectiva extensão. Pelo lettering parece-me tratar-se de um rasgão feito numa página do Diário de Notícias. A data quase se pode saber, mas por um infeliz acaso que impede de me situar no tempo esse encontro de que me recordo, o papel rasgou no limite do ano: apenas se pode ler "21 de Dezembro de..." É o que resta do que terá sido um projecto para um encontro, para um contacto futuro que nunca chegaria a ocorrer. Por culpa minha, que não fiz nada nesse sentido, apesar de me lembrar que numa ocasião o poeta manifestou grande gosto em que o contactasse.


O poeta que acabaria misturado com as águas do Tejo, morto em circunstâncias que não se esclareceram totalmente, deixaria neste livro um penúltimo poema que é, também para si mesmo, uma exortação, um apelo que afinal não seguiu:

Viagem

Não dês cabo da vida.
Há sempre um Cabo Bojador.

Mesmo apaixonada
e desiludida
e estrambalhada
ela é tão bonita.

Ela é a melhor.

quarta-feira, agosto 24, 2005

Poema; ideia para um recital de poesia erótica 

Este ano o tema da Estação do Livro é... o Amor! Ainda bem. Fica aqui um belo poema de dois versos, que bem pode ser um pretexto para o resto. E se numa noite de Inverno um recital de poesia erótica...

Eros

O meu olhar descia como um íman
Ao centro mais ardente do teu corpo


Alberto de Lacerda

De novo em casa 

Depois de cinco dias tentando dar uma ordem ao caos, voltei a casa. O trabalho não ficou terminado, e não estou certo que do caos tenha surgido alguma ordem que se veja. Mas as longas horas de manuseamento dos livros de uma biblioteca alheia, que eu conhecia superficialmente, com a descoberta de alguns "objectos" raros, a puxar mais para a leitura que para a limpeza e para a taxonomia, proporcionaram-me experiências bem agradáveis. E uma espécie de euforia e urgência, com longas veladas nocturnas de leitura. Ainda há trabalho de casa a fazer sobre a biblioteca do poeta Sebastião. Voltarei em breve, provavelmente hoje, para mais alguns posts que já estão em rascunho.

terça-feira, agosto 23, 2005

Agora de saída 

Acabei... não acabei, mas vou para casa. Volto amanhã à escrita. Desde lá.

Quando era "Proibido ler!" 

Esquecemo-nos frequentemente disso, agora que andamos sempre preocupados com os hábitos de leitura dos jovens e dos não-leitores em geral. Fazemos quase uma pastoral da promoção da leitura, não sem alguma parte de ingenuidade e de proselitismo. Não sei com que resultados. Mas adiante.

Houve um tempo em que quase era proibido ler. A leitura encontrava-se perfeitamente codificada por géneros e por idades. Mas isso é tema para outra conversa, ou melhor, para outro post. Lendo ontem alguns dos contos de Os Meus Amores, do Trindade Coelho, deparei-me com uma curiosa passagem da sua brevíssima autobiografia, com que termina o volume. O jovem habitava e frequentava, naqueles anos do final do século XIX, um colégio de má memória, na cidade do Porto. Sobreviveu, mas com que astúcias. Aqui aqui fica a nota, escrita já em Abril de 1902:

"E literatura? No colégio eram proibidos os romances ou quaisquer livros que não fossem de estudo - só me lembro de ter lido ás escondidas uma tradução dos Três Mosqueteiros de Dumas, e dois ou três romances portugueses, o Mário e não sei que mais." [p. 364]

in Os Meus Amores - Contos e Baladas, [Autobiografia, p. 351-381], Trindade Coelho, Portugália Editora, Lisboa, Abril de 1971

Autógrafo floral de Raul de Carvalho 



Raul de Carvalho, primo e camarada unido por "laços de sangue" é o poeta mais representado na biblioteca de Sebastião Penedo. A sua obra é copiosa e multiplicada por pequenos e saborosos objectos-livro, opúsculos e edições bem cuidadas, ainda que muitos sejam edição de autor. Se não me falhou nada, são os seguintes:

As Sombras e as Vozes [1949]
Mesa da Solidão [1955]
Parágrafos [1956]
Poesia 1949 - 1948 [1965]
Tautologias [1968]
Realidade Branca [1968]
Tudo é Visão [1970]
Poemas Inactuais [1971]
Uma Estética da Banalidade [1972]
De Nome Inominado [1974]
A Casa Abandonada [1977]



A dedicatória de A Casa Abandonada, a que já me tinha referido, é um verdadeiro arranjo floral.

"Ao Poeta Sebastião Penedo,
Ao Sebastião.
Esta casa afinal não de todo
abandonada (e, por último, algumas vezes
ficticiamente [?]feliz.

Com os "laços de sangue", a grata
camaradagem (que a minha Mãe perfilharia) e a
sempre que justificada, admiração, do teu primo poeta -

Raul de Carvalho.

1-XII-977."


Nos Poemas Inactuais a dedicatória é de "revolta e nojo". Estava em 1971, compreende-se:

"Ao Sebastião.
Este livro onde há, também "angústia,
revolta, medo e nojo disto tudo, mas mesmo
de tudo, -"

Com um abraço.

Raul de Carvalho
26/ Outubro/ 71."


Voltarei provavelmente noutra altura, noutra visita, a estes livrinhos.

Os autógrafos de Herberto Helder 



São três os livros de Herberto Helder, na biblioteca de Sebastião Penedo. Uma 3ª edição de Os Passos em Volta, de 1970, com chancela da Editorial Estampa. A capa, belíssima, numa quadrícula minimal colorista, também me cativou a mim há muitos anos, à porta da Faculdade de Letras de Lisboa, onde um aluno-livreiro a tinha para venda sobre a manta. Foi aí por 1985 [posso confirmar o dia da compra e o preço, quando chegar a casa], portanto passam agora 20 anos sobre esse feliz encontro. A leitura de Os Passos em Volta foi uma "marretada literária", um saudável murro na boca do estômago, uma canelada bem apontada ao nervo sensível da literatura. Não se fica o mesmo depois deste tipo de agressões. Mas isto é para outro post.

Este pequeno volume tem uma dedicatória do autor; simples e afectuosa:

"Para Sebastião Penedo,

com a melhor simpatia
do
Herberto Helder

Lisboa, 21.5.73"




Alguns anos depois o nosso poeta receberia uma 4ª edição, emendada, com data de 1980 e chancela já da Assírio & Alvim. Herberto Helder trabalha continuamente os seus textos, emenda-os para cada nova edição. Da terceira para a quarta, no misterioso relato do Coelacanto vai ao escrúpulo de substituir a expressão "verdadeiro chefe" pela mais juridicamente actual "cabeça de casal". A dedicatória nesta edição é um pouco mais completa:

"Para o
Sebastião Penedo,
agradecendo os seus livros onde cada
vez se torna mais firme uma bela voz
pessoal.

Com um abraço afectuoso
do Herberto Helder.
Cascais, Jan. 80."


Finalmente encontrei - já o tinha de facto encontrado há anos, numa primeira rusga - o Flash. É um pequeno folheto de que se tiraram apenas 250 exemplares. Trata-se, como se diz no verso da última página, de uma edição de autor, fora do mercado, e composta "manualmente, em caracteres elzevir corpo 12, pelo artista-tipógrafo José Apolinário Ramos, e impresso na Tipografia Ideal, Calçada de S. Francisco, 13, em Lisboa, durante o mês de junho de 1980. "Hors-texte" de Cruzeiro Seixas. Orientação gráfica de Vitor Silva Tavares."

A preceder os versos de Herberto lá aparece uma enigmática gravura do pintor surrealista, que nos faz pensar em Dali. A dedicatória:

"Para o
Sebastião Penedo,
com um abraço amigo
do Herberto Helder.

Cascais, Setembro.80."


Tem graça, se a palavra é esta, o que Herberto Helder escreve em nota posterior, mais como advertência, que eu agora não vou cumprir [o poeta que me perdoe]:

"P.S.: Não mostre, não empreste, não deixe
tirar fotocópias."

O lente de Coimbra que "não acreditava" no gás de iluminação 

O tempo foge, os livros continuam à espera, mas eu não resisto a deixar aqui esta história do In Illo Tempore do Trindade Coelho, que já referi ontem neste post, mas que agora cito devidamente.

Li,esta madrugada, numa leitura de diagonal bastante pronunciada, algumas passagens memoráveis daquele livro de memórias. Finalmente, a páginas 320 encontrei o que procurava. Numa brevíssima digressão de três, quatro linhas, não mais, o autor conta a história daquele lente... É só isto: "[...] incompatível com todas as formas do progresso, como aquele colega de Filosofia que "não acreditava" no gás de iluminação - porque "luz sem torcida (dizia ele muito catedrático) isso não entendia!"

Mas são imensos os episódios, as anedotas que ainda hoje conservam, apesar do verniz de muitos anos, a força da sátira. Outro que nunca deixei de lembrar foi o daquele aluno de Coimbra que resolveu pedir dispensa ao professor, mas em verso bem rimado. vem na página 124 e conta-se em poucas palavras, numa das muitas notas de roda-pé:

"O Rosalino [...] como se tivesse andado no Pátio a estudar Geometria, uma vez não sabia a lição, e meteu dispensa... em verso heróico:

Como incomodado estado tenho
Dispensa a V.ª Srª pedir venho.
E por não a pedir por vezes,
peço-a por dois ou três meses.

E assinava também em verso:

Pega Pegão Pega Peguito
Rosalino Cândido de Sampaio e Brito.

Diz-lhe o lente, que era o Manso Preto:

- Por um ano, se quiser!

Réplica do Rosalino, ainda em verso:

Iso mesmo é o que se requer!"


in In Illo Tempore, Estudantes, lentes e futricas, Trindade Coelho, Portugália Editora, 7ª edição, Lisboa, s/ data.

O "quinto poder", mas com reticências 

Vital Moreira escreve hoje no Público [link não disponível] sobre a configuração de um "quinto poder", de vigilância e de intervenção cívica na área da produção dos media, que seria desempenhado pelos blogues. Mas adverte: "Dada a incipiência da blogosfera, o maior risco consiste em sobrestimar a sua influência, em especial no espaço público. Para começar, grande parte dos blogues não deseja ter nenhum impacte público geral."

Chama a atenção para a invenção de nichos de intervenção que reconfiguram o espaço público e as intervenções dos seus agentes. Por exemplo, a nível local e das regiões: "Uma vertente ainda pouco conhecida da blogosfera é justamente o aparecimento de numerosos blogues locais, que criam pela primeira vez em muitos municípios um verdadeiro espaço de discussão das políticas públicas."

Recordo-me, por exemplo, do blogue Praça da República em Beja e do Rocha dos Bordões - Fórum Ilha das Flores. Mas os exemplos são muitos mais.

Resta saber se "isto" é uma moda, dúvida que assalta frequentemente quem habita, numa parte do seu melhor tempo, a atmosfera por vezes rarefeita da blogosfera. Vital Moreira está moderadamente optimista: "A blogosfera não parece ser uma moda, condenada a desaparecer como outras. A sua relevãncia é crescente, e estimável, particularmente na esfera política. Mas, potr enquanto, dada a sua reduzida dimensão e influência, é pelo menos excessivo falar num "novo poder". Só o tempo pode dizer se algum dia o será. "

O texto integral das suas crónicas costuma ser publicado na Aba da Causa, blogue de apoio do Causa Nossa. Passam, neste momento, poucos minutos da quatro da tarde. O texto ainda não se encontra lá.

Dia Santo, um poema de Sebastião Penedo no livro do Cinatti 


O livro é a Memória Descritiva de Ruy Cinatti. Um livro de versos, provavelmente uma primeira edição, da Portugália, colecção Poetas de Hoje. O poema veio de súbito, sem avisar e sem emendas. Escrito numa ortografia confiante e decidida, numa das páginas de rosto do livro de Cinatti. É o Dia Santo, com data de 1976. O poema seria publicado no livro seguinte de Sebastião Penedo, um ano depois, no Meu Silêncio Amigo. A versão publicada coincide rigoramente, até à vírgula, com a versão manuscrita da inspiração. O poema aqui fica.

Dia Santo

Sobre a tela do campo desgrenhado de searas
ou um rio que a leva a ver o mar,
nas dunas onde o sol lhe beija os seios,
em uma aragem quase
sua roupa ligeira,
a mocinha pousa seu encanto.

E demora o dia a que o verão,
os lábios, as sagradas
mãos da água dão um corpo
e um nome de um céu - dia santo.

Sebastião Penedo
Lisboa, São Pedro, 1976

Português para estrangeiros [à atenção da MM] 

Uma notícia do CM de ontem, Segunda-feira, com o inábil título "Português para vizinho", dá conta do grande interesse pela língua portuguesa na extremadura espanhola. O interesse pelo ensino da língua portuguesa naquela região fronteiriça não é de agora, mas segundo o Correio da Manhã, este ano lectivo vão realizar-se 92 cursos predominatemente orientados para a competição no mercado de emprego onde a nossa língua é um factor importante.

Mérida, Cáceres ou mesmo Alcântara, onde creio que existe um agradável festival de teatro no Verão, são um belo sítio para viver um idílio espanhol. Para mim até Badajoz chegava... E daqui a uns anos, com o TGV, se a ideia vingar, então seria uma maravilha.

segunda-feira, agosto 22, 2005

A Choca, um conselho seguido mais tarde 

Na única conversa que tive com o poeta, em que houve tempo para falar de livros, lembro-me de ter recebido um conselho que segui ontem. A conversa terá tido lugar há mais de uma década, talvez um pouco mais. Tudo na memória se conta em anos, em décadas.

O Sebastião Penedo, falando-me das suas preferências literárias, e eu não conseguindo evitar falar das minhas, referiu-se com grande entusiasmo ao Trindade Coelho. Escritor do fim do século XIX, jurista e cultor da língua, autor de um magnífico livro de memórias sobre os seus tempos de estudante de Coimbra. Mas o entusiasmo do poeta ia para um outro livro de contos - Os Meus Amores, de onde destacava uma pequena história de ternura e afecto, um conto intitulado "A Choca". O escritor tinha encontrado as palavras simples e certas para descrever o breve declínio de uma pobre galinha rodeada dos seus pintos. Li o conto de Trindade Coelho esta madrugada, finalmente, ao fim de tantos anos e dei-me conta de que esse é, em todo o volume, o único que aparece sublinhado em passagens.

"Mas eis que certas intermitências dos sentidos sobrevinham à pobre Choca! Não dormia, decerto, aquilo não era sono; mas a memória já se lhe apagava; esvaía-se-lhe a luz do instinto; e daí a pouco já não sentia nada. - Inerte instantes depois; e por fim (cantou agora o galo no seu poleiro!) veio-lhe um espasmo e caiu na morte... [...] A esse tempo aclarara a manhã; - e sobre o corpo tépido da ma~e, que na própria morte ficara dócil, enovelavam-se agora, piando, os pobres pintainhos!"

* * *


O livro das memórias de coimbra li-o também numa dessas alturas... não sei quando, mas na sequência dessa conversa. Trata-se do In Illo Tempore - Estudantes, lentes e futricas, uma sétima edição da Portugália, que não indica data, mas que deve ser anterior ou próxima à primeira metade do século passado. A primeira edição deste livro de memórias é de 1902. Foi das leituras mais divertidas de que me lembro. Os episódios da vida de Coimbra são descritos pelo autor com verdadeiro talento de memorialista. Num dos momentos mais inverosímeis Trindade Coelho refere-se a um lente de coimbra, particularmente obtuso e céptico, professor de Filosofia, que não acreditava na iluminação a gás. Chama sem "torcida" não era possível.

Anos depois vi um exemplar de In Illo Tempore de Trindade Coelho na Feira do Livro de Lisboa; estava na companhia de um amigo a quem tinha falado da obra. Precipitámo-nos os dois em corrida para o escaparate do stand. Eu cheguei primeiro e fiquei com o livro. Está lá por casa, o meu exemplar.

Um escritor confessa-se 

Há alguns anos passei aqui uma temporada, no Verão. Junto desta mesma biblioteca. Há mais de 15 e há menos de 30 anos... seguramente. Li então, nessa ou noutra altura próxima, o Nítido Nulo de Vergílio Ferreira. Uma biografia monumental de Hemingway também me ocupou os tempos de ócio. Mas o livro que mais me impresionou foram as memórias de Aquilino Ribeiro, da Livraria Bertrand, edição de junho de 1974, com prefácio de José Gomes Ferreira. Um Escritor Confessa-se... não poderia ter título mais arrojado, quase desafiador. A prosa copiosa e substantiva de Aquilino Ribeiro, cheia de pormenores deliciosos e incidências biográficas, leva-nos até à juventude do escritor, que decorreu numa época cheia de convulsões históricas, carbonárias e maçónicas, de inquietações políticas.

O que melhor conservo na memória são as páginas em que Aquilino conta como tomou conhecimento do regício, estando então, segundo ele, escondido da polícia, num quarto de um prédio pombalino, a 150 metros da Parreirinha, junto às escadinhas de S. Francisco. Não posso reler agora, no momento em que escrevo, essas linhas deliciosas. Mas recordo-me do eco da morte do rei, de que Aquilino fala com cuidado e moderação, já que seria mais tarde acusado de ser o terceiro homem, regicida potencial, na retaguarda, para apoio em caso de necessidade. E da saída furtiva do escritor, então na clandestinidade, correndo as ruas cheias de gente alarmada com as notícias do atentado do Terreiro do Paço.

O livro de memórias inclui um curioso documento: a cópia de um ofício dos Caminhos de Ferro do Estado, Serviço de Movimento, datado de 14 de janeiro de 1908, que dá conta da evasão dos "calabouços da Polícia Cívil de Lisboa [d]o preso Aquilino Gomes Ribeiro, escriptor, natural do Carregal, concelho de Sernancelhe e com os signaes seguintes: alto, magro, 22 anos, barba e cabelos crescidos de dois mezes, cor pálida." O ofício dava conta de que o Sr. Juiz de Instrução Criminal solicitava à exmª Direcção dos Caminhos de Ferro a "sua captura". O documento continua, em tom alarmista, sem poupar nas palavras: "O preso é da máxima responsabilidade, por ser accusado de um crime muito grave e por esse motivo se lhe recomenda a maior vigilancia possivel nos pasageiros do seu comboio e se for reconhecido, deverá empregar todos os meios ao seu alcance para o deter tendo o maximo cuidado em o não deixar de novo evadir-se."

[Vou reler os capítulos do regicídio esta noite]

Outros autógrafos, livros dedicados 

Muitos dos livros de poesia [e não só...] que encontrei nesta biblioteca incompleta estão autografados e dedicados pelos próprios autores a Sebastião Penedo. Os textos breves, mas frequentemente significativos e mais que protocolares, destas ofertas, merecem alguma atenção. Mas não agora. Alguns dos nomes sonantes da poesia portuguesa estão aqui "representados". Circunstância que revela o grande reconhecimento e amizade pessoal que unia o autor de Claridade a alguns deles, pelo menos.

Sem qualquer ordem, nem alfabética dos autores, nem das obras, e porventura sem ser exaustivo, mas tentando ser completo, aqui ficam alguns dos nomes que deixaram a sua marca manuscrita em sinal de dedicação e amizade:

António Osório [O Lugar do Amor, A Ignorância da Morte], José Apolinário Ramos [Encostado à Solidão, Imagem reflectida, Requiem para Amilcar Cabral e outros], Fernando Grade [Saudade Sábia e outros], António Ramos Rosa [Boca Incompleta, Ciclo do Cavalo, Respirar a sombra viva, Animal olhar], Luis Miranda Rocha [As Mãos no Ar e outros], Luís Amaro [Diário Íntimo], Anderson Braga Horta [Exercícios de Homem, Marvário], Casimiro de Brito [Negação da Morte, Jardins de Guerra], Eugénio Lisboa [José Régio - nota bio-bibliográfica, exame crítico e bibliografia], Eugénio de Andrade [Versos e Alguma prosa de Luís de Camões], Maria Valupi [Amotinação dos Poetas, Songes et Témoins], Fausto Correia Leite [A Rosa Vermelha], Carmo de Sousa Lima [Amanhã sempre tarde], Lourenço de Carvalho [Minha Ave Africana], A. J. Vieira de Freitas [A Palavra que Somos], Alberto Carneiro [Animais de Sombra], Fernando J. B. Martinho [Resposta a Rorschach], Lima de Freitas [Voz Invisível].

Raul de Carvalho
, já o escrevi, primo do poeta e também natural de Alvito, é o autor mais representado e merecerá post à parte. São muitos os livrinhos do poeta de Serenidade, és minha, e uma das dedicatórias é mesmo uma verdadeira composição floral. Herberto Helder também tem aqui a sua marca e sobre ele escreverei à parte, como cabe ao nosso maior poeta órfico, bebedor nocturno do profundo mistério da poesia.

E agora paremos de postar, que se faz tarde. Volto ao desbaste. Arrumar, por estrita ordem alfabética de autores, os livros de poesia do nosso poeta. O móvel vazio, recentemente desocupado da papelada inútil, espera.

A crítica [emoldurada] de Gaspar Simões no DN 

Em 1976 Sebastião Penedo contava 31 anos e publicara, em edição de autor, Livro de Versos [1969] e Claridade [1973]. Ao que afirma na sua nota crítica, Gaspar Simões andou distraído até ler alguns poemas soltos deste poeta, numa revista literária. Dando-se conta da singularidade da voz poética deste poeta lírico, de "têmpera antiga", avesso às modas, o papa da crítica literária de então, faz sair na edição de 4 de Novembro de 1976, uma quinta-feira, um longo texto bastante auspicioso.

O Diário de Notícias, naqueles anos tumultuosos de 1976, tinha como director João Gomes e como director-adjunto Mário Mesquita. Apresentava-se como o jornal de "maior tiragem e expansão de todos os jornais portugueses". Bons tempos... Sebastião Penedo recortou o cabeçalho do jornal, fazendo uma colagem à página da crítica literária. Por isso, podemos ficar hoje a saber, por um despacho da France Press vindo de Roma, que os jornalistas do "Il Messaggero" entraram "ontem em greve, reivindicando o melhoramento da qualidade redaccional e das condições de trabalho na empresa."



O poeta emoldurou o conjunto e é esta montagem que chegou até nós e me permitiu transcrever todo o texto. O que vem abaixo destas linhas é a totalidade da crítica de Gaspar Simões, que deve, então, ter constituído uma poderosa caução à actividade poética do nosso autor e um contributo importante para o seu reconhecimento entre os pares.

Sebastião era sobretudo um poeta de poetas, conhecido, reconhecido e apreciado entre poetas. Os seus livros eram distribuídos, ao que sei, entre outros poetas, amigos e familiares, enviados para contactos no estrangeiro. Sobraram muitos. Aqui fica a crítica. Os destaques são meus.

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Crítica Literária

Claridade, poemas, por Sebastião Penedo
João Gaspar Simões

Ultimamente, numa época literária em que são mais as nozes do que as vozes, acontece que alguns poetas não chegam a emergir da sombra, ofuscados pela falsa luz que ilumina não poucos nada dignos de tanta claridade. Intitula-se, precisamente, Claridade a obra de um lírico que, tendo-se estreado em 1969, jovem, portanto ainda, conta apenas na sua bagagem dois livros: o de 73, a que nos reportamos, e o de 69, singelamente intitulado de Livro de Versos. Não sei como, sumiu-se na massa dos opúsculos que entretanto vieram a lume o livrinho Claridade, de Sebastião Penedo. Foi apenas à circunstância de entretanto chegarem ao meu conhecimento poesias suas, de mais recente data, vindas a lume em certa página literária, que pude dar-me conta de que o quase anónimo lírico autor desses dois quase anónimos livros merecia ser atendido pela crítica que se preza de não estabelecer para o talento prioridades de qualquer espécie além da que resulta da própria existência desse talento.

Bem certo que os versos de Sebastião Penedo não jogam no charadismo linguístico nem arriscam pontos nas mesas poéticas onde se ganham, repentinamente, grossos louros apenas com sobrepor à poesia propriamente dita a propriamente dita oportuníssima política. Não. Sebastião Penedo até pode parecer, ao leitor superficial, um poeta à moda antiga - da "medida velha", como se diria no tempo de Camões -, quando é certo que, afinal, lido com olhos de ver, não é tal poeta. Na sua poesia muito íntima, muito delicada, muito evocativa, quase à maneira de Nobre, filtram-se elementos de uma modernidade algo neobarroca, embora sem qualquer pretensão estulta a impor-se pelo que na hora presente faz a glória de muitos, esses que pensam que para se ser poeta palavras bastam...



"Sebastião Penedo até pode parecer [...] um poeta à moda antiga - da "medida velha", como se diria no tempo de Camões -, quando é certo que, afinal, lido com olhos de ver, não é tal poeta. Na sua poesia muito íntima, muito delicada, muito evocativa, quase à maneira de Nobre, filtram-se elementos de uma modernidade algo neobarroca."


Em verdade situado mais perto dos líricos que rondaram a Távola Redonda, de algum modo pós-fernandinos (é autor de uma Oração a Sebastião da Gama e dedica o seu livro ao malogrado Cristóvam Pavia) do que dos chamados neobarrocos, o autor de Claridade adianta-se a qualquer deles, e se tal coisa ainda não é muito clara neste livro, claríssima se torna nas poesias que entretanto imprime na referida página literária. De que maneira avança Sebastião Penedo para além daqueles seus companheiros de jornada lírica? Associando a um descritivismo que de algum modo lembra ainda o descritivismo de Alberto de Serpa ou de Francisco Bugalho, presencistas, conquanto, em verdade, nada lhes deva a esses dois poetas (a menos que ao segundo deva a comunidade num mesmo amor pelo Alentejo, alentejano que se mostra em muitos dos seus versos inspirados na vida e na paisagem dessa emotiva província), associando, dizíamos, a um descritivismo quase objectivo uma particular nuance subjectiva que se instila na trama lírica assim como as miragens que se instilam na retina dos viajantes. Em certos passos da sua poesia não sabemos bem se ele nos fala das coisas ou dos elementos, tão intimamente se conjugam nos seus versos a obra do homem com a obra da Natureza. Por exemplo, na poesia "Enterro de um Pobre", o pobre de que ele fala indo a enterar não é um pobre do reino animal, mas, muito menos humanamente, o pobre Sol:

Lá vai a enterrar o Sol,
o tal que, enquanto pôde,
foi o cabelo louro do campo.

Coitado, vai enrolado
num lençol vermelho,
esmola que mesmo ali à hora,
mais para se ver livre dele,
o horizonte deu.

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O Sol desgraçado,
o zé-ninguém do Sol,
trabalhador do céu.


"Acontece, entre nós, serem às vezes os poetas assim, - esses que nada querem com as escolas em moda - aqueles que, nos anais da história da poesia, mais fundo se ancoram nas enseadas onde se perpetuam as veras naves do vero lirismo."



E não se diga que já o poeta do humanizara assim os elementos e com eles se entendera em termos semelhantes. Não. A exemplificação que demos prova demais. Desta humanização do astro-rei como pobre de pedir passa, noutras poesias suas, Sebastião Penedo para a humanização das coisas inanimadas, a que atribui, subtilmente, atitudes de seres vivos. É o que sucede na última estrofe da poesia "Casa de estar":

Em cima da mesa de verga,
sentado num "napperon",
e tão fiel como as outras coisas,
lambe as mãos da tarde
um cão de barro.


Ora é esta osmose, digamos, entre o vivo e o morto, o animado e o inanimado, o celeste e o terreno, o humano e o elementar, que vem radicando-se nos versos do autor de Claridade e comunicando-lhes algo de muito subtilmente original, de uma originalidade que dir-se-á se vela a si própria, pudica, talvez, envergonhada de sentir-se tão nuamente ela própria no meio de tanta mal vestida originalidade. Reparem nesta poesia:

Rapariguinha pobre, deserdada,
viola de chorar e de viver
de esmola de sopas na despensa,
criada de servir a de comer.

T'as mãos tristes vigiadas pela senhora,
teu seio humilde cor do avental
mexem ainda o vento de uma tarde morta
na romãzeira que havia no quintal.

Agora já a metamorfose do ser em coisa ou da coisa em ser é metáfora, transmitindo à poesia essa espécie de simbiose característica de um neobarroquismo que faz que a própria metáfora se converta na essência do poema. "Viola de chorar e de viver" é a própria "rapariguinha pobre".

Acontece, entre nós, serem às vezes os poetas assim, - esses que nada querem com as escolas em moda - aqueles que, nos anais da história da poesia, mais fundo se ancoram nas enseadas onde se perpetuam as veras naves do vero lirismo. Estava a lembrar-me de Francisco Rodrigues Lobo, quase anónimo na época, deixando hoje na sombra os Baías da Fenix Renascida. Sem se vergar à moda do experimentalismo ou do neo-barroco, eis que este ignorado lírico vai tecendo, desde 1969, a sua teia de Penélope na esperança de que o Ulisses do Parnaso, ao regressar da sua viagem, o sagre finalmente poeta. Mas, sagrado ou não pela crítica, a verdade é que Sebastião Penedo tem desde já lugar entre os mais castiços líricos da poesia portuguesa do seu tempo. Bem haja.

Eterno Retorno... volta de novo! 


[antigos espaços das liv. Eterno Retorno e Ler Devagar, respectivamente]

Já tinha lido no jornal que ia fechar. Mas é próprio do eterno retorno regressar continuamente ao mesmo através de uma longa deriva pelo diverso. A Livraria Eterno Retorno, do professor Nuno Nabais, vai fechar. Mas anuncia logo o regresso em outubro com festa e tudo. Será ainda no Bairro Alto e surgirá num projecto conjunto [uma ideia feliz] com a Ler Devagar que também encerrou e voltará. Fico à espera do Outono.

domingo, agosto 21, 2005

A Harpa Eólica 



Li esta expressão há muito, vinda de um crítico, de um poeta, de um amigo do Sebastião Penedo - a sua poesia pura e simples parece, por vezes, o passar do vento que dedilha as cordas de uma harpa.. a harpa eólica. Poucas vezes isso parece tanto ser verdade como nestes belíssimos quatro versos do "Sumo Natural":

"Este poema é a ondulação do mar.
Se se inspira, volve ao interior.

Mas galga logo as areias do Amor,
espraiando livremente o ar..."

O Baú do poeta 



Não sei se todos os poetas têm uma arca como esta para guardar os livros que não cabem nos seus tristes quartos alugados a uma senhora idosa. O Sebastião tinha, está aqui. Estava cheia de livros diversos, dele e de outros. Na estante, ao fundo da primeira foto, encontra-se o essencial da sua biblioteca partida em duas. É aí mesmo que estou agora a desbastar: literatura portuguesa para um lado, poesia, em geral, para outro... livros com autógrafos de autor e dedicatória, para outro ainda...

É precisamente nestas surpresas dos livros de autor, autografados e dedicados ao amigo também poeta - já vi do Luiz Pacheco, de Herberto Helder, de Raul de Carvalho, o primo, entre outros - que encontro as descobertas mais suculentas. Escreverei e darei imagens sobre isso, logo que possa.

Quem foi este poeta? 



Apareceu morto nas águas o Tejo, há cerca de três anos. Ninguém sabe se foi suicídio, se foi descuido. Parece o mesmo, bem vistas as coisas. Tinha um problema com o alcoól, com a solidão, com a vida. Nos últimos tempos parecia ter perdido o sentido de tudo. O funeral foi em Alvito, a aldeia manuelina onde nasceu em Novembro de 1945. Disseram-me que veio muita gente de Lisboa, amigos das letras, que não esquecem a simplicidade de um homem que não pediu nada e não esperava nada. E que, como se viu, não teve nada. Sobraram pelo menos quatro livros de versos [talvez mais, mas não encontro rasto deles], algumas dezenas de poemas de uma simplicidade por vezes arrebatadora, de um lirismo eólico.

Sebastião Penedo, que falava pausadamente, e que um dia me explicou com toda a tranquilidade deste mundo que se considerava, sem humilhação ou falsa modéstia [a sua modéstia era sincera], um poeta de terceira linha - Pessoa, na frente, Raul de Carvalho, seu primo também de Alvito, na segunda e ele, no melhor dos casos na terceira... nasceu em Alvito e estudou nos seminários de Beja e dos Olivais. A guerra colonial levou-o como alferes-miliciano, de onde regressou com problemas. Demasiados problemas que não terá resolvido nunca. Ingressou de novo num seminário, quando voltou da guerra, da guerra dele, sobretudo, mas abandonou sem se decidir pela vida religiosa. Encontrou um emprego na Segurança Social, onde se manteve num lugar modestísimo durante toda a vida. Vivia em quartos, gastando o pouco dinheiro em edições de autor, de que sobraram sempre exemplares por oferecer. Há três anos atrás o seu corpo deu à margem do Tejo, junto às docas. Não se sabe o que aconteceu.

Apenas lhe conheço quatro livrinhos de versos:
Livro de Versos [1969]
Claridade [1973]
Meu Silêncio Amigo [1977]
Sumo Natural [1979]

Colaboração: NOVA 2 [Outomo, 1976]

A Publicar:
Lampada
Ponte Verde da Infância [Prémio da Academia Internacional de Letras do Rio de Janeiro]
Destes dois últimos títulos não encontro qualquer exemplar nem outras referências. Presumo que terão sido publicados; de contrário, pelo menos um livro premiado, teria permanecido inédito. Ao que me consta, uma segunda parte da sua biblioteca pessoal poderá ter ficado esquecida na sua última residência de Lisboa. Talvez aí tenham também ficado alguns exemplares destas últimas duas obras anunciadas. Chegou-me a falar, numa das poucas conversas pausadas que tive com ele, que tencionava publicar um livro de prosa, com relatos de cariz biográfico. Não sei mais do que isto.
Volto lá acima, para continuar a resgatar os livros.