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domingo, junho 19, 2005

Voz de Atalaia, na caixa do correio 




Recebi do meu orientador de estágio, que não vejo há anos, um poema por mail.
Chegou sem avisar, sem texto a acompanhar, apenas os versos. São os versos do professor Rogério Carrola, que ao longo dos anos me tem enviado os livros em que se ouve, ao longe, a melodia da sua voz poética.

A Oração de Filipa, de Abril de 1998, onde nos chegam os ecos das suas frequentes viagens de trabalho pedagógico à Madeira;
da permanência, de Maio de 2003, que abre com um verso de Parménides e discorre longamente, em poemas de grande fôlego, sobre os anos da juventude;
Um olhar no Joe's Bar, de 2004, que consiste numa longa narrativa poética composta por mais de 190 excertos-poemas, escritos entre o Funchal e Vila Nova de Santo André, dois lugares de oceano aberto;
A Oração completa de Filipa Moniz na Ilha de Porto Santo, de 2005, volume que reúne em verso e prosa uma efabulação poética em torno da figura histórica da primeira mulher de Colombo.

Todos os volumes são editados pela Tema/ Edições Fluviais, que o Alberto Augusto Miranda mantém há anos na Sociedade Guilherme Cossoul.

* * *

O poema que desta vez me chegou à caixa de correio deixo-o aqui.


Voz de atalaia


Me fui e vou angustiando com as tuas
palavras,

que agora serão mais seara e vento,
mais sol espalhado no barro,
mais sufoco de Junho na boca e
no azul que branqueia caindo
do céu.

Posso, ainda, ir colher amoras bravas
e perguntar à mãe se devo passar
sob o balcão com a esperança, agora apenas,
de um só olhar de quem bordou
o lenço.

Ou ir com as aves, como o estou fazendo
neste momento porque me fui
angustiando sempre.

E depois também sempre

com o país
não assim tão branco.

Nem denso. Nem triste.

A sageza definha, ela também, não nas saudades do pó
que devagar caía da Gardunha e para o sul
na melancólica boca de uma rosa
à beira da estrada,

mas na violência
com que se murmura hoje o nosso
beirão azul.

Nem de aves.

Porque me angustio nos assobios altos
desesperados?
Das aves ou do país?

Me fui e vou angustiando com estas vozes
no contrário da velhice,

subidas, como os abutres,

aos penhascos do rio que não se chama Zêzere
mas dele vem ainda alguma pena de poder.

Sabes agora?
Na curva da velha estrada,
no corte para a Póvoa, (ia eu fazer exame
a Castelo Branco)

quinze anos de idade?

Sabia já de cor a tua canção.
Só não sabia o exame.

Que força absurda e pungente
de felicidade!

Repeti-a até Paris e Cabo Verde.
Até ao Funchal.
Até ao Tortosendo. Ninguém a ouviu bem
que a minha voz

se angustiava,

como que perdida das palavras.
Essas, que pálidas, podem lembrar
o paraíso.

Cai-me agora o silêncio nos ombros
e sei, por ti, não por mim,

que não encontrarei nunca as barcas
nem as ilhas que de perdidas
só têm o nome.

Deixa. Também aprendi que o passado
é inútil como um trapo.

Amanhã pensarei se as palavras,
assim como Deus,
estão gastas.

Até amanhã.


Rogério Carrola

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