<$BlogRSDURL$>

segunda-feira, junho 13, 2005

Vasco Gonçalves (1921 - 2005) 



Três figuras grandes, pelo carácter, pelas circunstâncias, ou por ambos, morreram em menos de três dias. Primeiro Vasco Gonçalves, nome mítico, ainda ensombrado por uma espécie de ferocidade revolucionária que acabou por devorá-lo na vertigem dos acontecimentos do Verão quente. Depois Álvaro Cunhal, a carne do mito vivo, que sobrevivia numa clandestinidade pueril, voluntariamente à margem dos olhares públicos. Depois o poeta Eugénio de Andrade, marcado pela decadência física e pelo silêncio poético de quem já chegou ao fim das palavras.

No Obituário do DN pode ler-se, sobre o famoso episódio do Discurso de Almada, que o general, ainda primeiro-ministro, mas já governando sobre o fio cortante da navalha, veio fazer a esta cidade a 18 de Agosto de 1975: "Perante uma plateia inflamada que o interrompe e o aplaude a cada instante, o primeiro-ministro do V Governo Provisório, em mangas de camisa, entusiasma-se e radicaliza o seu discurso, enquanto tira e põe os óculos, numa interpretação cénica que acabaria por assustar a maioria dos portugueses."

Encontrei na blogosfera um poema (que não conhecia, apesar de saber que existia) de Eugénio de Andrade sobre o general. Aqui fica o poema, como um eco daqueles tempos em que tudo era possível.

"a Vasco Gonçalves

Nesses dias era sílaba a sílaba que chegavas.
Quem conheça o sul e a sua transparência
também sabe que no verão pelas veredas
da cal a crispação da sombra caminha devagar.
De tanta palavra que disseste algumas
se perdiam, outras duram ainda, são lume
breve arado ceia de pobre roupa remendada.
Habitavas a terra, o comum da terra, e a paixão
era morada e instrumento de alegria.
Esses eras tu: inclinação da água. Na margem
vento areias lábios, tudo ardia.
"

[Eugénio de Andrade, O Comum da Terra, 14/5/76, in Companheiro Vasco, Inova, Set. 1977]
Cortesia do Blogue Almocreve das Petas.

Comments: Enviar um comentário