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sexta-feira, junho 10, 2005

Promessas e juras de leitura para toda a vida 

[foto: Miguel Teixeira]



Fim da tarde de ontem no alto do Parque, em Lisboa. O movimento habitual de leitores que caminham entre casetas coloridas carregadas de livros, progredindo aos encontrões, como sonâmbulos. O que caracteriza um leitor quando anda entre livros é o seu passo errático, titubeante, na verdade mais hipnótico que sonâmbulo. Apesar de tudo havia uma certa agitação de tarde de verão, de pic-nic citadino. Há sempre palavras soltas que se perdem para fora do contexto. Gritadas ao telemóvel, sussurradas ao ouvido, ditas de caseta para caseta. Nomes de autores e de livros, de editoras, coisas irrelevantes, promessas e juras de leitura para toda a vida.

A minha passagem de ontem pela Feira teve muito de rumagem e de passeio. Revi os mesmos livros nos mesmos lugares (a caseta da Guimarães parece que não muda nunca nem de sítio nem de livros), encontrei outros para comprar impreterivelmente mas que terão de esperar, outros que não comprarei já, decidi deixar para o próximo ano a obra (quase) completa de Clarice Linspector na Relógio D'Água, e talvez as obras que faltam da Graça Pina de Morais, na Antígona. Talvez traga ainda para casa o mais recente lançamento da Livraria da Assembleia da República sobre Obras Proibidas durante o Antigo Regime. A ver...

Fui à Feira pelo Quixote. Para receber um autógrafo do tradutor-poeta que redigiu à mão a nova tradução da grande obra, e depois à máquina de teclas, com a minúcia do próprio autor quando se encontrava na prisão de Sevilha, e para trazer para casa a outra tradução do ano, a de Miguel Serras Pereira. Segundo a editora esta tradução, que segue o original quase ao milímetro, e procura trazer o tempero da escrita de Cervantes para o texto de chegada em português, já estava terminada em 2003. Só agora viu a luz do dia para coincidir com as celebrações cervantinas que assinalam o 4º centenário da publicação da primeira parte da obra.

A edição da editora D. Quixote (45 € a preço especial de Feira) vem numa caixa que protege o volume de mais de 600 páginas a duas colunas, das contigências e dos caprichos da leitura compulsiva e revulsiva. A tradução, já o dissémos, é de Miguel Serras Pereira, as gravuras são de Salvador Dalí. Esta edição que assume o carácter de edição comemorativa do IVº centenário apresenta ensaios introdutórios da autoria de Maria Fernanda de Abreu, Silvia Iriso, Gonzalo Pontón e Sylvia Roubaud.

Não posso falar da tradução, que apenas percorri, um pouco intimidado, mas a edição é muito cuidada. Não se tratará talvez de uma edição de luxo em papel couché... mas é seguramente, para melhor, uma edição requintada, que assinala tanto a efeméride como convida à leitura do clássico. Foi uma das compras mais desejadas, de que desisti por realismo ao final da tarde, mas que acabei por fazer, rendido ao que tem de ser...


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