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quarta-feira, junho 15, 2005

Memórias e Adeus de Federico Sánchez (alias Jorge Semprúm) 



Autobiografia de Federico Sánchez, Jorge Semprúm, Moraes, col. mundo imediato, Lisboa, 1982
O Adeus de Federico Sanchéz, Jorge Semprúm, Edições ASA, Lisboa, 1995

Duas obras lidas. A leitura de uma reclama a leitura da outra. A primeira refere-se aos anos da clandestinidade de Jorge Semprúm, aliás Federico Sánchez, em Madrid, como funcionário destacado do Partido Comunista Espanhol. Começa e termina, porque os caminhos da memória são sinuosos e não respeitam a cronologia dos acontecimentos que foram vividos, com a inevitabilidade da ruptura do autor com o Partido. Acaba com a ruptura que é uma expulsão. Nesse sentido, em mais de uma passagem, por vezes penosamente, o livro é um ajuste de contas cru e vigoroso com o passado, com as pessoas, com a inflexibilidade dos modelos e das percepções dos fenómenos da história. Santiago Carrillo e a Pasionaria são duas figuras centrais nesta história, mas o destaque é desse alter-ego de Semprúm que foi ele próprio reiventado na figura de Federico Sanchéz. É quase um heterónimo, no sentido pessoano, essa figura de militante a que o autor dá voz. Espessa e contraditória, como todos somos, parece por vezes ter sobre a própria personalidade do escritor um ascendente de pai, de mestre, de companheiro dos anos de formação.

O Adeus refere-se integralmente ao período em que Semprúm foi ministro da cultura do governo do PSOE, de Felipe González, entre 1988 e 1991. Constitui um relatório penetrante sobre esses anos da governação socialista, com detalhes psicológicos de algumas das personagens do governo. A imagem que dá de Felipe é a de um homem impoluto, estadista de grande dimensão. Mas desde as primeiras páginas surge na boca de cena deste longo adeus um outro personagem pintado com todos os recursos da paleta de escritor de Jorge Semprúm. Alfonso Guerra, vice-presidente do governo, braço direito de Felipe, apresentado pelo autor como o exemplo do político demagogo, oportunista e sem princípios. Um homem do aparelho, que de algum modo assinou a sentença de morte da governação socialista, com todo o seu cortejo de escândalos morais e financeiros.

Semprúm não recua perante nenhum tabú da memória e da intimidade. Por vezes atinge uma violência desgarrada, que só se compreende no contexto do ajuste de contas pessoal com o passado e com as figuras que o marcaram mais. Em certas páginas Semprúm fala para si, não escreve para nós. Nos momentos de maior lirismo o autor recorda-nos, todavia, com tocante ternura a velha habitação familiar, no Bairro do Retiro, em pleno centro de Madrid, em frente à qual, por coincidência, o ministro Semprúm veria instalado o seu gabinete governamental. Durante três anos frente a frente com o lugar da infância. O círculo fechava-se.

Sobre Jorge Semprúm, alguma informação adicional.

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