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quinta-feira, junho 16, 2005

Ler [e dormir] na banheira 



Há lugares onde costumo ler e outros onde não me ocorre, em virtude de muitas circunstâncias, puxar de um livro.
Na sala reina a televisão e o cabo, como um olho que nunca dorme. Impossível ler. No escritório [a que também chamamos Biblioteca...] é por vezes difícil encontrar a disponibilidade para a leitura que deveria haver precisamente num lugar que concebemos como o seu santuário doméstico. O computador e a net reorientam a leitura para as margens do livro; leio no ecrán, escrevo, busco livros e autores em bibliotecas virtuais, biografias, matéria bruta para a escrita dos blogues e raramento me perco na leitura em estricto senso dos livros reais que se encontram a toda a volta. Mas é aqui, nenhuma dúvida quanto a isso, que a leitura começa e termina. Os livros param aqui, vindos da rua, e aqui regressam depois de sair, saltam de uma estante para a mesa de trabalho, de uma prateleira para outra. É o lugar simbólico da leitura começada e terminada, ainda que seja poucas vezes o lugar preferido das leituras. Leio pouco na cama, porque é preciso conciliar a posição do corpo com a postura de leitor e nem sempre elas me parecem compatíveis. Mas há sempre livros peregrinos no quarto, por vezes sobre a cama. Durmo com os livros.

Onde leio? Para já, no tempo de espera. No hospital e no autocarro, em viagem. É o meu plano B. Leio diariamente na mesa do café, na mesa da esplanada. Leio o jornal do dia e o livro. É aí que está o meu lugar preferido da leitura; um lugar público, quase devassado, onde nem sempre é fácil mergulhar na leitura pessoal. Nos últimos meses descobri a banheira como o outro lugar privado da leitura. Nos meus banhos quentes, demorados, ao fim da noite, de madrugada ou de manhã cedo, a leitura é o meu vício que não merece punição. Nestes últimos dias, no conforto da água quente do banho e na dignidade do suor, a leitura da escrita de Raduan Nassar, que nos confronta com o recolhimento do útero, com o calor das vísceras e com a levedura morna do esterco e do húmus, tem ganho outro sentido que eu não imaginava. Leio com o corpo todo e frequentemente adormeço.

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