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segunda-feira, junho 06, 2005

Fintas e jogos malabares nas bordas do tapete verde 



O jogo de sábado passado, na Luz... Foi um banho tão grande de realidade que ainda não escrevi nada sobre a excursão familiar. Não sou um adepto pagante do futebol e só encontro o sublime do jogo nestes embates da selecção. De resto vejo sempre de graça, em canal aberto, ou no café, e assisto à rotina do campeonato quase sempre com resignação. No estádio tudo parece diferente.

No estádio o jogo parece sempre menos real do que na televisão. Lá, falta quase tudo o que parece vertebrar a nossa visão de uma partida de futebol: o relato, os planos de pormenor e o replay. Por isso é possível assistir a um desafio de futebol, num estádio cheio, como se fosse um sonho de que só se acorda nos descontos. Os jogadores giram no terreno como uma insistente máquina sienciosa com dobradiças de pó-de-talco. Num silêncio absoluto de holograma em movimento com um ruído imenso à volta. Deslizam num tapete verde com uma espécie de intensidade digital. Não se percebe que força, que ímpeto os move naqueles raides pelo campo. Tudo parece uma metáfora de outra coisa, porque transportar uma bola insuflada na ponta do pé enquanto se corre, tentando atrapalhar o adversário sem cair ou desfalecer de riso, não consta que seja uma tarefa para levar literalmente a sério.

O jogo de sábado passado, da selecção portuguesa contra a Eslováquia, confirmou todas as metáforas. Estádio cheio, um público colorido e entusiasta, animado da convicção de que é possível ganhar sempre, de que só isso é justo. Qualquer outro resultado teria parecido inverosímil ou impossível, mesmo se acabasse por acontecer. E não aconteceu. Foi um jogo sem ansiedade e quase sem espera. Quando se espera o que se julga certo e seguro, a vitória e os golos, isso não é esperar no sentido forte do termo. É mais aguardar...

Com essa segurança ingénua na vitória, temos mais tempo para apreciar os pormenores que realmente interessam. Até para detectar uma certa transcendência poética naquela correria errática atrás de uma bola que todos querem constantemente transportar para outro lugar do campo. O que comove e diverte é a distância que vai entre a seriedade do esforço dos jogadores e a irrelevância do seu resultado. O esforço quase nunca resulta, sempre se recomeça de novo... mas não se desiste. Se isto não é divertido e comovente...

Os jogadores parecem, desde o apito inicial, ocupados a entretecer uma demorada conjura, que só se revela na súbita apoteose do golo. E cada um deles é, à distância da bancada, o modo como sobe desvairadamente no terreno, como corre para a baliza, atraído por uma força poderosa. O que fica na memória do espectador, depois do jogo, é a surpresa nervosa de cada jogador com a bola que lhe coube em sorte, o modo como a trata ou como a desperdiça, de cada vez que a recebe nos pés.

Eu, que mal conheço os jogadores pelo nome, e não aprendi ainda a decifrar a escrita do jogo, identifico-os pelo penteado. Pelo modo como correm, como explodem em campo. Deco é insuperável naquela forma cheia de humor com que sacode a bola com o calcanhar ou com a ponta do pé, dando-lhe um destino inesperado, que confunde o adversário. Quando corre parece um acrobata que desafia a lei da gravidade, desenhando sempre percursos que parecem mais imaginados que reais. Ninguém faz aquilo. Pratica um futebol virtuoso, porque não é apenas eficaz e económico; dá prazer estético, como se pintasse em campo. Joga de forma divertida, sem ser boçal no drible, tem humor e percebe-se que a jogada é a expressão de outra coisa maior, cujo gozo partilha com o adepto.

A grande sensação da selecção, que passou sem transicção de promessa a ícone popular, corre nas bandas laterais como um potro selvagem e imprevisível. Cristiano Ronaldo cavalga no terreno como se corresse na ponta dos pés, com a delicadeza e a força irresistível de um puro sangue. Pratica um futebol fantasista que se recorta nitidamente do pragmatismo da generalidade dos outros jogadores. Quando transporta a bola colada na biqueira da bota, desenha por vezes em torno dela, com o pé, círculos imaginários na relva. Confunde os adversários com a geometria, mas joga como quem inventa alegremente um logro na extensão do tapete verde.

Vi Figo a jogar ao vivo, provavelmente pela última vez, mas não quero ser funesto. Ele joga contra a sombra do seu mito vivo. Quando pega na bola e dribla, parece cheio de razão, como quem clama por justiça. Avança no terreno num esforço que não tem nada de aleatório, porque todo o seu jogo é necessário. Nem sempre aparece, porque o seu futebol é de influência. Só mantém a bola no pé o tempo estritamente necessário para deixar que os seus colegas ocupem os seus lugares. Depois assiste.

Amanhã há mais da selecção. Mas é na televisão.

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