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domingo, junho 26, 2005

Fado e Flamenco no castelo 



Faz parte das Festas de Lisboa ou de Lisboa em Festa. Cada fadista convida outro intérprete à sua escolha. Ana Sofia Varela convidou a Macanita, de Jerez de La Frontera, Tomasa Guerrero de nome próprio.

Noite fresca em Lisboa, brisa suave e uma agitação de fim de semana, com as ruas a caminho do castelo particularmente vazias e tranquilas. Na praça de armas, plantado junto à réplica da estátua de D. Afonso Henriques que está em Guimarães, montaram um palco e na frente da estrutura a plateia de cadeiras já bem composta de público. Entrei a minutos do início do espetáculo e, de facto, pouco depois da hora, a fadista e três instrumentistas desciam as escadarias que escorrem da entrada do salão oval. Não conhecia a Ana Sofia Varela, mas é já, e não preciso de ser eu a dizê-lo, uma fadista completa. Com uma voz ampla e profunda, plástica e volúvel, como uma bailarina do fado.

Mas o fado e o flamenco não ligam. Quando começa um termina o outro, nada a fazer. O resultado do cruzamento forçado parece-me um híbrido quase sempre sem graça, e sobretudo sem força vital. Não gostei das tentativas de juntar a água e o azeite, apesar da música ser um território aberto, sem fronteiras administrativas.


[Castelo de S. Jorge, 23.00 horas, 24 de Junho de 2005]

A Macanita cantou por Soleás, por suguiryas [ela diz que se parece com o fado, por ser triste], por bulerias e tangos. Em todos se sente bem e domina com uma voz quente, cheia e vibrante, a que não faltam todos os recessos da expressão e do sentimento autêntico. Foi pena ser breve. Um mistério destes não se explica em meia dúzia de temas cantados... assim, sem mais.

Depois a visão da cidade de Lisboa, nocturna e cheia de ecos vindos de baixo, a partir do miradouro. Como sempre, uma paisagem que só muda na memória desfocada que vamos construindo com o tempo em que nos ausentamos daquele altar. Magnífica, alheia a quem a observa.

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