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quarta-feira, junho 15, 2005

"Einstein talvez fosse um deles!" 


Esta é, provavelmente a deixa mais estúpida do filme de Spielberg
que a RTP1 transmitiu ontem à noite. Refiro-me ao "velhinho" Encontros Imediatos do Terceiro Grau, filme de Spielberg, com data de 1977. Seja qual for o juízo sobre a obra de culto, que fará 30 anos em breve, ela é um marco na história do cinema e um momento de afirmação na carreira do autor. Visto a esta distância, e não é possível vê-lo agora sem olharmos também um pouco para a nossa adolescência, para a nossa juventude, o filme resiste razoavelmente bem do ponto de vista técnico. É aí que a obra visionária e milenarista de Spielberg mais inovou. Apesar de estarmos muito longe ainda dos recursos tecnológicos que hoje conformam a nossa vida, e o computador ser ali apenas uma pálida promessa do que é hoje, o filme aguenta bem a passagem do tempo, criando um ambiente tecnológico de mediação entre o homem e as criaturas que vieram de longe. O enredo é engenhoso e elaborado, apesar de recorrer a alguns lugares comuns da psicologia das multidões e do insconsciente colectivo. A visão de uma sociedade disfuncional, em perda de valores e de sentido (de que o personagem principal é o exemplo), não deixa de percorrer todo o filme, que preserva assim, com alguma ironia, um lugar para o homem num ambiente saturado de tecnologia.

Mas o milenarismo tecnológico extraterrestre, como mito urbano dessas décadas finais da guerra fria, está lá. Por esse lado, em meu entender, o filme já está irremediavelmente datado e pode ver-se, em muitos momentos, como uma paródia involuntária da espiritualidade urbana em crise, no final do milénio. A mensagem é claramente religiosa, em sentido lato. É o tempo da New Age e de novas sínteses espirituais, que correspondam à inquietação de um público urbano, que aceita e reconhece nas tecnologias uma função redentora. Os discos voadores e a mensagem que eles podem veicular de uma transcendência fundada numa tecnologia pura e espiritualizada, incomparavelmente superior à nossa, são a matéria prima de uma nova teologia e os alicerces de uma nova fé. Do mesmo modo que as religiões do livro lançaram, entre os homens, o apelo de um Deus pessoal, os extraterestres também respondem aos anseios mais fundos, de autoconhecimento e de superação, do homem urbano do final do milénio.

Mas os mitos urbanos e as novas sínteses religiosas também têm uma história. O nosso olhar de hoje, o modo entre a ironia, a paródia e a candura como o vemos agora, trinta anos depois, reclama essa história. Depois do final da guerra fria, depois da descoberta de que um mundo sem blocos não é necessariamente mais seguro, de que por todo o lado surgem novos pretextos para o perigo e para o desastre, ficou mais claro que o homem está entregue a si próprio. Não há extraterrestres que nos possa salvar...

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