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quinta-feira, junho 30, 2005

Cinema em casa 

Há poucos anos o Independente distribuíu, com um acréscimo ao preço do jornal, um conjunto de obras primas do cinema. Há poucos dias resolvi "ver" alguns desses filmes magníficos que estavam esquecidos na prateleira da minha Biblioteca. A saber:

O Juiz Priest, real. John Ford, USA, 1934
Ladrões de Bicicletas, real. Vittorio De Sica, ITA, 1948
O Anjo Azul, real. Josef Von Sternberg, Alemanha, 1930
O Estrangeiro, real. Orson Welles, USA, 1946
À 1 e 45 [Sabotage], real. Alfred Hitchcock, UK, 1936
Desaparecida!, real. Alfred Hitchcock, UK, 1938

domingo, junho 26, 2005

Fado e Flamenco no castelo 



Faz parte das Festas de Lisboa ou de Lisboa em Festa. Cada fadista convida outro intérprete à sua escolha. Ana Sofia Varela convidou a Macanita, de Jerez de La Frontera, Tomasa Guerrero de nome próprio.

Noite fresca em Lisboa, brisa suave e uma agitação de fim de semana, com as ruas a caminho do castelo particularmente vazias e tranquilas. Na praça de armas, plantado junto à réplica da estátua de D. Afonso Henriques que está em Guimarães, montaram um palco e na frente da estrutura a plateia de cadeiras já bem composta de público. Entrei a minutos do início do espetáculo e, de facto, pouco depois da hora, a fadista e três instrumentistas desciam as escadarias que escorrem da entrada do salão oval. Não conhecia a Ana Sofia Varela, mas é já, e não preciso de ser eu a dizê-lo, uma fadista completa. Com uma voz ampla e profunda, plástica e volúvel, como uma bailarina do fado.

Mas o fado e o flamenco não ligam. Quando começa um termina o outro, nada a fazer. O resultado do cruzamento forçado parece-me um híbrido quase sempre sem graça, e sobretudo sem força vital. Não gostei das tentativas de juntar a água e o azeite, apesar da música ser um território aberto, sem fronteiras administrativas.


[Castelo de S. Jorge, 23.00 horas, 24 de Junho de 2005]

A Macanita cantou por Soleás, por suguiryas [ela diz que se parece com o fado, por ser triste], por bulerias e tangos. Em todos se sente bem e domina com uma voz quente, cheia e vibrante, a que não faltam todos os recessos da expressão e do sentimento autêntico. Foi pena ser breve. Um mistério destes não se explica em meia dúzia de temas cantados... assim, sem mais.

Depois a visão da cidade de Lisboa, nocturna e cheia de ecos vindos de baixo, a partir do miradouro. Como sempre, uma paisagem que só muda na memória desfocada que vamos construindo com o tempo em que nos ausentamos daquele altar. Magnífica, alheia a quem a observa.

sexta-feira, junho 24, 2005

Um concerto à borla na Sociedade de Geografia de Lisboa 

Não é todos os dias que há concerto à borla na Sociedade de Geografia de Lisboa, ali às Portas de Santo Antão, mesmo ao lado do Coliseu. O edifício [que nunca visitei] é riquíssimo e o ambiente verdadeiramente imperial. Desta vez há outro pretexto, para além do edifício e das instalações em si mesmas, que já por si mereceriam uma visita. É o concerto da Sinfonietta de Lisboa, com direcção de Vasco Pearce de Azevedo, em que serão interpretados temas de Einojuhani Rautavaara, Jean Françaix, Eurico Carrapatoso e John Ireland. Às 21.30 de hoje, com entrada livre.

Entre a Macanita, de Jerez de la Frontera e o concerto da Sinfonietta de Lisboa, na Sociedade de Geografia... não sei que faça. Um... dó... li...tá...

Eterno Retorno e Ler Devagar organizam as festas de São Boaventura 

As Festas de S. Boaventura [nome de um dos doutores mais destacados da Igreja e do pensamento medieval] aí estão. São organizadas pelas duas livrarias do bairro alto, que se situam na rua do mesmo nome, a poucos metros uma da outra, a Eterno Retorno e a Ler Devagar [que vai mudar de sítio, dentro de poucas semanas]. O Programa é vasto e variado, divide-se entre os dois locais e está no destaque da nossa coluna da direita. Para ver o programa na totalidade CLICAR AQUI ou AQUI.

A revista das ideias e debates 


A revista Atlântico - revista de ideias e debate, aqui on line.

Música com patine 



Um sítio da Woody Allen and New Orleans Jazz Band onde se pode ficar a saber muita coisa sobre o grupo que orbita em torno do realizador novaiorquino. [Ligar as colunas...] Um video aqui, de um concerto em Paris, no ano de 2002. E aqui, o Woody Allen Jazz Band Blog. É possível não gostar desta música?

quinta-feira, junho 23, 2005

"50 a 70 por cento das pessoas são quimeras" 



Eu também serei uma quimera? Não conhecia este conceito da medicina. Afinal quase todos podemos ser quimeras. Vem tudo isto a propósito de um artigo do Público que pode ser lido aqui.

E o que é uma quimera? É qualquer ser humano nascido de uma gestação que começou por ser de gémeos, mas em que o corpo da mão acabou, naturalmente e até ao terceiro mês, por absorver e destruir um dos fetos. O que nasce e sobrevive... é a quimera e pode, entre outras singularidades, produzir dois tipos de glóbulos sanguíneos.

Tomasa Guerrero "La Macanita" [amanhã no castelo ] 



Os portugueses não gostam de Flamenco e confundem frequentemente os palos... Ao contrário, os japoneses, apreciam todos os géneros e pagam a preço de ouro os melhores nomes a quem prodigalizam tournées apoteóicas. Mas isso explica-se, por razões culturais e de proximidade geográfica.

Por isso já é um acontecimento, por si só, a coincidência, no período de uma semana, da presença de dois grandes nomes do flamenco em Lisboa. No sábado passado foi Vicente Soto Sordera, que actuou no Jardim de Inverno, no S. Luís, a propósito da estreia de uma peça de Lorca. Amanhã, será a vez de Tomasa Guerrero "La Macanita", actuando como convidada de Ana Sofia Varela, fadista, num espetáculo das Festas de Lisboa. O acontecimento, o encontro entre vozes, terá lugar no castelo de S. Jorge, ao preço nada popular de 12,5 €.

A Macanita é uma flamenca de Jerez de la Frontera e é frequentemente considerada como uma das melhores da cena actual. Sem concessões, fazendo o que quer fazer que é cantar flamenco com fidelidade sincera às origens. Da sua voz diz-se que "tiene madera", o que não é pouco, e a sua passagem pelas Festas é uma excelente notícia para quem gosta dessa estranha forma de expressão músical, o Flamenco, tão distante de nós como a música tradicional japonesa.

terça-feira, junho 21, 2005

Cidade Lida 



Entre as décadas de 20 a 40 Lisboa era, frequentemente, ponto de passagem de alguns dos grandes nomes do jazz. Ao que consta a cidade ainda mantém essa memória um pouco delida de figuras que, entretanto, passaram directamente para a lenda da grande música do mundo. Foi o caso de Josephine Baker que vinha aqui em digressão, aproveitando a desenvoltura do seu prestígio artístico, e a liberdade de movimentos que este lhe proporcionava, para entregar clandestinamente documentos reservados nas embaixadas norte-americana e britânica. Consta que era agente secreta dos Aliados... e frequentava o Bairro Alto, já então um lugar de diversão nocturna. O turista minucioso, que lê a cidade com todos os sentidos que tem à sua disposição, pode ver uma fotografia da artista, numa das suas passagens pelo Bairro Alto, no Restaurante A Primavera, na Rua da Espera. É o que vem no excelente roteiro da CML, concebida no âmbito do Pelouro da Cultura da cidade.

O Roteiro em papel, de que se imprimem e distribuem 45 000 exemplares todos os meses, tem neste sítio, denominado lisboa cultural o seu espaço actualizado na rede.

Mas é possível encontrar nas suas páginas muitas outras histórias, indícios, sinais e ambientes inesperados, percursos para ler. Por exemplo o Centro de Coleccionismo do Crucifixo, que reúne, num edifício antigo daquela rua, uma grande quantidade de lojas de coleccionistas. Ou a misteriosa sobrevivência das casas de penhores de Lisboa, ou aquele bar onde é possível escolher a música ambiente a la carte? Ou aquela peça de teatro que nos conta a história de "uma mulher que vive ligada à net (trabalho, lazer, amores) e um dia, chega um técnico para lhe desligar o cabo por falta de pagamento." Etc... etc...

É uma boa leitura.

domingo, junho 19, 2005

Edições do buraco, A Falsa Suicida 



O Alberto Augusto Miranda informa que acabou de sair, com a chancela das edições do buraco, a peça A Falsa Suicida, de Angélica Liddell. A tradução é do próprio Alberto e a imagem de capa é de autoria de Mariana Castro.

O Alberto Augusto Miranda é o responsável [ele não iria gostar da pompa desta expressão] pelas edições Tema - editora não-venal, como ele diz - que pertence à Sociedade Guilherme Cossoul. Os livrinhos da Tema são oferecidos e enviados aos amigos, aos conhecidos e a quem os solicite para a morada da Sociedade. Gratuitamente.

Aqui pode saber-se mais sobre A Falsa Suicida e outras obras da autora.

A incomunidade é mais um projecto do Alberto, que deriva da edições tema e a amplifica na rede. Textos de poesia e prosa, fotografias e informações sobre as actividades culturais da Guilherme Cossoul, constituem a grande parte das entradas deste blogue.

Já agora, pode ler-se aqui mesmo a curiosidade das palavras de Eugénio de Andrade vertidas para mirandês.

Voz de Atalaia, na caixa do correio 




Recebi do meu orientador de estágio, que não vejo há anos, um poema por mail.
Chegou sem avisar, sem texto a acompanhar, apenas os versos. São os versos do professor Rogério Carrola, que ao longo dos anos me tem enviado os livros em que se ouve, ao longe, a melodia da sua voz poética.

A Oração de Filipa, de Abril de 1998, onde nos chegam os ecos das suas frequentes viagens de trabalho pedagógico à Madeira;
da permanência, de Maio de 2003, que abre com um verso de Parménides e discorre longamente, em poemas de grande fôlego, sobre os anos da juventude;
Um olhar no Joe's Bar, de 2004, que consiste numa longa narrativa poética composta por mais de 190 excertos-poemas, escritos entre o Funchal e Vila Nova de Santo André, dois lugares de oceano aberto;
A Oração completa de Filipa Moniz na Ilha de Porto Santo, de 2005, volume que reúne em verso e prosa uma efabulação poética em torno da figura histórica da primeira mulher de Colombo.

Todos os volumes são editados pela Tema/ Edições Fluviais, que o Alberto Augusto Miranda mantém há anos na Sociedade Guilherme Cossoul.

* * *

O poema que desta vez me chegou à caixa de correio deixo-o aqui.


Voz de atalaia


Me fui e vou angustiando com as tuas
palavras,

que agora serão mais seara e vento,
mais sol espalhado no barro,
mais sufoco de Junho na boca e
no azul que branqueia caindo
do céu.

Posso, ainda, ir colher amoras bravas
e perguntar à mãe se devo passar
sob o balcão com a esperança, agora apenas,
de um só olhar de quem bordou
o lenço.

Ou ir com as aves, como o estou fazendo
neste momento porque me fui
angustiando sempre.

E depois também sempre

com o país
não assim tão branco.

Nem denso. Nem triste.

A sageza definha, ela também, não nas saudades do pó
que devagar caía da Gardunha e para o sul
na melancólica boca de uma rosa
à beira da estrada,

mas na violência
com que se murmura hoje o nosso
beirão azul.

Nem de aves.

Porque me angustio nos assobios altos
desesperados?
Das aves ou do país?

Me fui e vou angustiando com estas vozes
no contrário da velhice,

subidas, como os abutres,

aos penhascos do rio que não se chama Zêzere
mas dele vem ainda alguma pena de poder.

Sabes agora?
Na curva da velha estrada,
no corte para a Póvoa, (ia eu fazer exame
a Castelo Branco)

quinze anos de idade?

Sabia já de cor a tua canção.
Só não sabia o exame.

Que força absurda e pungente
de felicidade!

Repeti-a até Paris e Cabo Verde.
Até ao Funchal.
Até ao Tortosendo. Ninguém a ouviu bem
que a minha voz

se angustiava,

como que perdida das palavras.
Essas, que pálidas, podem lembrar
o paraíso.

Cai-me agora o silêncio nos ombros
e sei, por ti, não por mim,

que não encontrarei nunca as barcas
nem as ilhas que de perdidas
só têm o nome.

Deixa. Também aprendi que o passado
é inútil como um trapo.

Amanhã pensarei se as palavras,
assim como Deus,
estão gastas.

Até amanhã.


Rogério Carrola

Gato branco no Eterno Retorno 



Antes do recital subi a Rua da Rosa [penosamente] até dar com a Rua de S. Boaventura, à minha mão esquerda. Logo ali fica a Ler Devagar, onde não entrei por falta de tempo. Desci alguns metros e dei com a entrada discreta da livraria Eterno Retorno do meu professor Nuno Nabais. Entrei e dirigi-me ao balcão. À primeira vista parecia-me uma sala de estar cheia de livros na parede e com ambiente. Quatro mesas de verga, redondas, uma a cada canto, rodeadas de quatro cadeiras de verga confortáveis. Todas ocupadas com gente que fala serenamente ou que parece trabalhar com afinco. No balcão pedi uma meia de leite, num copo alto, quente, numa noite de verão. Depois peguei no copo e fui sentar-me na mesa do fundo [que se vê na foto] que entretanto tinha vagado. O meu tempo estava limitado pelo início do recital, daí a minutos. Pousei o copo na mesa e olhei o gato branco que passeava sobre as estantes. Lembrei-me do Álvaro e da Lídia. O gato branco aproximou-se e saltou da prateleira para a minha mesa. Tudo tremeu por instantes e o copo verteu um pouco de leite que ensopou o guardanapo de papel sobre o qual repousava. O gato branco aproximou-se do meu copo e parecia interessado em beber dali um largo sorvo de leite morno. Peguei no copo e o gato interessou-se então pelo guardanapo ensopado. Durante instantes fomos eu e ele; um bebendo do copo, outro lambendo o guardanapo, como dois camaradas. Acariciei o dorso luzidio do gato em sinal de paz. Dava todos os momentos do meu dia, à excepção do recital de Vicente Sordera, por outro momento assim. Gato branco saltando sobre a mesa, o leite vertido no guardanapo, aquela intimidade inesperada.

Vicente Soto Sordera no Jardim de Inverno 


[Jardim de Inverno, S. Luis, 00.30]

Não sei se o bom flamenco se ouve de noite, mas o recital de Vicente Soto Sordera, com um programa integralmente composto por poemas de Lorca, começou depois das 23.30. Após a estreia da peça de Lorca, A Casa de Bernarda Alba, com a Maria do Céu Guerra no papel de mãe e Diogo Infante no papel de encenador, um público não superior a 50 pessoas ocupou o belíssimo espaço do Jrdim de Inverno do teatro. Eu sentei-me numa das mesas da frente, junto ao palco e pela primeira vez tive a certeza de que não podia ter ficado melhor. À minha frente o piano e depois os lugares que seriam ocupados pelo cantor, pelos dois guitarristas, pelo homem da percussão e pelo violoncelista.

O primeiro tema, com um belíssimo acompanhamento de piano, - La luna, luna - foi cantado por Sordera junto à entrada de cena, do lado esquerdo, perto do pianista, enquanto progredia, passo a passo, até chegar ao centro. Depois sentou-se e cantou com aquela segurança que faz da voz um instrumento que nada pode dobrar, como a sombra e o vento. Encheu toda a sala, empolgou um público tímido e pouco expressivo, que hesitou nas palmas e pediu um encore no final.

O espetáculo breve, composto por sete temas, não cumpre as regras do flamenco puro, mas ali há, indubitavelmente muito flamenco. Mesmo quando a música nos leva para o território do jazz, onde a fusão dos géneros insinua uma opção estilística e um destino. Não sou um purista, aprecio a liberdade de Vicente Soto Sordera, quando canta por Bulerias ou quando canta ao "ritmo de vals".

O Programa foi composto pelos seguintes temas: La Luna, luna [malagueñas], Zorongo [bamberas], Preciosa y el aire [solea], Las tres hojas [ritmo de vals], El Café de Chinitas [libre y bulerias], La badalilla de los tres ríos [tangos], La Tarara [bulerías] e um divertimento em torno das quadras do Fernando Pessoa ortónimo que o público aplaudiu muito.

O recital repete-se no dia 16 de Julho, à mesma hora e no mesmo local. Vale a pena repetir. Nunca é igual.

sábado, junho 18, 2005

"Não sou uma tonta..." ou assim! 



O DNa de ontem, sexta-feira, 17 de Junho, publicou uma entrevista desconcertante de Carlos Vaz Marques a Adília Lopes. O primeiro terço é dedicado à presença das baratas na poesia e na vida da autora. Depois a poetisa faz uma revelação: está a deixar a poesia. E de seguida: "- Eu levo a minha poesia muito a sério. Para mim é uma questão de vida ou de morte. [...] É uma questão de sobrevivência. Se eu não escrevesse poesia não sei o que seria de mim. Seria muito difícil sobreviver emocionalmente, mentalmente. "

Nunca li, com método, nada da Adilia Lopes. Conheci-a num programa de televisão em que falava de livros, sempre num registo de subjectividade desarmante, após o que os pesava na balança do lado. E acabava sempre com uma frase do tipo: "Este livro pesa... x gramas!" Um dia, creio que no último programa, apresentou-nos a sua mulher a dias de muitos anos, elogiou-a com palavras simples e de seguida pesou-a na balança. Acho que a Adília pesa tudo aquilo de que gosta muito.

Nunca a li mas em contrapartida partilhei com ela, há cerca de um ano, uma boleia de um amigo comum. Vinhamos de um recital de poesia em Almada e o nosso amigo juntou-nos num breve périplo durante o qual falou da Física, uma das suas grandes paixões de mulher de letras. Agora que escrevo sobre este breve encontro sem consequências literárias ou outras... recordo-me de que fiquei de lhe enviar qualquer coisa pelo mail. Mas não me lembro o quê.

* * *


"A minha mãe dizia-me que sabia escrever com dois dedos, mas não me iniciou. Para a minha mãe, eu devia aprender a escrever com os dedos todos desde o começo, para não ganhar maus hábitos. Nunca vi a minha mãe a escrever à máquina." [Crónicas da vaca fria, Adília Lopes]

Mais Crónicas da vaca fria
podem ser lidas no link indicado atrás.

quinta-feira, junho 16, 2005

Ler [e dormir] na banheira 



Há lugares onde costumo ler e outros onde não me ocorre, em virtude de muitas circunstâncias, puxar de um livro.
Na sala reina a televisão e o cabo, como um olho que nunca dorme. Impossível ler. No escritório [a que também chamamos Biblioteca...] é por vezes difícil encontrar a disponibilidade para a leitura que deveria haver precisamente num lugar que concebemos como o seu santuário doméstico. O computador e a net reorientam a leitura para as margens do livro; leio no ecrán, escrevo, busco livros e autores em bibliotecas virtuais, biografias, matéria bruta para a escrita dos blogues e raramento me perco na leitura em estricto senso dos livros reais que se encontram a toda a volta. Mas é aqui, nenhuma dúvida quanto a isso, que a leitura começa e termina. Os livros param aqui, vindos da rua, e aqui regressam depois de sair, saltam de uma estante para a mesa de trabalho, de uma prateleira para outra. É o lugar simbólico da leitura começada e terminada, ainda que seja poucas vezes o lugar preferido das leituras. Leio pouco na cama, porque é preciso conciliar a posição do corpo com a postura de leitor e nem sempre elas me parecem compatíveis. Mas há sempre livros peregrinos no quarto, por vezes sobre a cama. Durmo com os livros.

Onde leio? Para já, no tempo de espera. No hospital e no autocarro, em viagem. É o meu plano B. Leio diariamente na mesa do café, na mesa da esplanada. Leio o jornal do dia e o livro. É aí que está o meu lugar preferido da leitura; um lugar público, quase devassado, onde nem sempre é fácil mergulhar na leitura pessoal. Nos últimos meses descobri a banheira como o outro lugar privado da leitura. Nos meus banhos quentes, demorados, ao fim da noite, de madrugada ou de manhã cedo, a leitura é o meu vício que não merece punição. Nestes últimos dias, no conforto da água quente do banho e na dignidade do suor, a leitura da escrita de Raduan Nassar, que nos confronta com o recolhimento do útero, com o calor das vísceras e com a levedura morna do esterco e do húmus, tem ganho outro sentido que eu não imaginava. Leio com o corpo todo e frequentemente adormeço.

África, 30 Anos depois 












Hoje a revista Visão vende - por "apenas" mais 14,90 € - um volumoso livro-albúm dedicado aos 30 anos de independência dos países africanos de expressão portuguesa.É um objecto editorial longamente preparado, com reportagens, relatos de memórias, mapas e estatísticas e belíssimas fotos das várias regiões visitadas pelos jornalistas da revista. Fernando Dacosta, Adriano Moreira, Pedro Rosa Mendes, Luís Almeida Martins, Joaquim Letria, entre outros, participam com textos na obra fartamente ilustrada, ao longo de mais de 240 páginas. Mais informações sobre a publicação especial da Visão, aqui.

Os Passos em Volta da Poesia [de Eugénio de Andrade] 

Ver aqui um post no outro blogue sobre uma homenagem a Eugénio de Andrade, a propósito dos seus 80 anos.

quarta-feira, junho 15, 2005

A Internacional 

"La razón: Jamás podremos
entendernos, corazón.
El corazón: Lo veremos."

António Machado

Ainda me comovo ao ouvir a Internacional; como agora mesmo, no funeral de Álvaro Cunhal, em directo pelas televisões.


Memórias e Adeus de Federico Sánchez (alias Jorge Semprúm) 



Autobiografia de Federico Sánchez, Jorge Semprúm, Moraes, col. mundo imediato, Lisboa, 1982
O Adeus de Federico Sanchéz, Jorge Semprúm, Edições ASA, Lisboa, 1995

Duas obras lidas. A leitura de uma reclama a leitura da outra. A primeira refere-se aos anos da clandestinidade de Jorge Semprúm, aliás Federico Sánchez, em Madrid, como funcionário destacado do Partido Comunista Espanhol. Começa e termina, porque os caminhos da memória são sinuosos e não respeitam a cronologia dos acontecimentos que foram vividos, com a inevitabilidade da ruptura do autor com o Partido. Acaba com a ruptura que é uma expulsão. Nesse sentido, em mais de uma passagem, por vezes penosamente, o livro é um ajuste de contas cru e vigoroso com o passado, com as pessoas, com a inflexibilidade dos modelos e das percepções dos fenómenos da história. Santiago Carrillo e a Pasionaria são duas figuras centrais nesta história, mas o destaque é desse alter-ego de Semprúm que foi ele próprio reiventado na figura de Federico Sanchéz. É quase um heterónimo, no sentido pessoano, essa figura de militante a que o autor dá voz. Espessa e contraditória, como todos somos, parece por vezes ter sobre a própria personalidade do escritor um ascendente de pai, de mestre, de companheiro dos anos de formação.

O Adeus refere-se integralmente ao período em que Semprúm foi ministro da cultura do governo do PSOE, de Felipe González, entre 1988 e 1991. Constitui um relatório penetrante sobre esses anos da governação socialista, com detalhes psicológicos de algumas das personagens do governo. A imagem que dá de Felipe é a de um homem impoluto, estadista de grande dimensão. Mas desde as primeiras páginas surge na boca de cena deste longo adeus um outro personagem pintado com todos os recursos da paleta de escritor de Jorge Semprúm. Alfonso Guerra, vice-presidente do governo, braço direito de Felipe, apresentado pelo autor como o exemplo do político demagogo, oportunista e sem princípios. Um homem do aparelho, que de algum modo assinou a sentença de morte da governação socialista, com todo o seu cortejo de escândalos morais e financeiros.

Semprúm não recua perante nenhum tabú da memória e da intimidade. Por vezes atinge uma violência desgarrada, que só se compreende no contexto do ajuste de contas pessoal com o passado e com as figuras que o marcaram mais. Em certas páginas Semprúm fala para si, não escreve para nós. Nos momentos de maior lirismo o autor recorda-nos, todavia, com tocante ternura a velha habitação familiar, no Bairro do Retiro, em pleno centro de Madrid, em frente à qual, por coincidência, o ministro Semprúm veria instalado o seu gabinete governamental. Durante três anos frente a frente com o lugar da infância. O círculo fechava-se.

Sobre Jorge Semprúm, alguma informação adicional.

"Einstein talvez fosse um deles!" 


Esta é, provavelmente a deixa mais estúpida do filme de Spielberg
que a RTP1 transmitiu ontem à noite. Refiro-me ao "velhinho" Encontros Imediatos do Terceiro Grau, filme de Spielberg, com data de 1977. Seja qual for o juízo sobre a obra de culto, que fará 30 anos em breve, ela é um marco na história do cinema e um momento de afirmação na carreira do autor. Visto a esta distância, e não é possível vê-lo agora sem olharmos também um pouco para a nossa adolescência, para a nossa juventude, o filme resiste razoavelmente bem do ponto de vista técnico. É aí que a obra visionária e milenarista de Spielberg mais inovou. Apesar de estarmos muito longe ainda dos recursos tecnológicos que hoje conformam a nossa vida, e o computador ser ali apenas uma pálida promessa do que é hoje, o filme aguenta bem a passagem do tempo, criando um ambiente tecnológico de mediação entre o homem e as criaturas que vieram de longe. O enredo é engenhoso e elaborado, apesar de recorrer a alguns lugares comuns da psicologia das multidões e do insconsciente colectivo. A visão de uma sociedade disfuncional, em perda de valores e de sentido (de que o personagem principal é o exemplo), não deixa de percorrer todo o filme, que preserva assim, com alguma ironia, um lugar para o homem num ambiente saturado de tecnologia.

Mas o milenarismo tecnológico extraterrestre, como mito urbano dessas décadas finais da guerra fria, está lá. Por esse lado, em meu entender, o filme já está irremediavelmente datado e pode ver-se, em muitos momentos, como uma paródia involuntária da espiritualidade urbana em crise, no final do milénio. A mensagem é claramente religiosa, em sentido lato. É o tempo da New Age e de novas sínteses espirituais, que correspondam à inquietação de um público urbano, que aceita e reconhece nas tecnologias uma função redentora. Os discos voadores e a mensagem que eles podem veicular de uma transcendência fundada numa tecnologia pura e espiritualizada, incomparavelmente superior à nossa, são a matéria prima de uma nova teologia e os alicerces de uma nova fé. Do mesmo modo que as religiões do livro lançaram, entre os homens, o apelo de um Deus pessoal, os extraterestres também respondem aos anseios mais fundos, de autoconhecimento e de superação, do homem urbano do final do milénio.

Mas os mitos urbanos e as novas sínteses religiosas também têm uma história. O nosso olhar de hoje, o modo entre a ironia, a paródia e a candura como o vemos agora, trinta anos depois, reclama essa história. Depois do final da guerra fria, depois da descoberta de que um mundo sem blocos não é necessariamente mais seguro, de que por todo o lado surgem novos pretextos para o perigo e para o desastre, ficou mais claro que o homem está entregue a si próprio. Não há extraterrestres que nos possa salvar...

terça-feira, junho 14, 2005

Os 10 livros mais perniciosos, dizem eles 



Através do Da Escola, a partir do qual cheguei ao Acontecencias, que me levou ao Prozacland, nomeadamente a este post, que me abriu O Insurgente, descobri este artigo da Human Events on line, uma revista conservadora norte americana, que solicitou a 15 personalidades dessa área política, uma lista dos 10 livros mais perniciosos do século XIX e XX.

A lista que resultou da elevada capacidade de cerebração dos 15 sábios da revista americana foi a seguinte:

1. The Communist Manifesto
Authors: Karl Marx and Freidrich Engels
Publication date: 1848

2. Mein Kampf
Author: Adolf Hitler
Publication date: 1925-26

3. Quotations from Chairman Mao
Author: Mao Zedong
Publication date: 1966

4. The Kinsey Report
Author: Alfred Kinsey
Publication date: 1948

5. Democracy and Education
Author: John Dewey
Publication date: 1916

6. Das Kapital
Author: Karl Marx
Publication date: 1867-1894

7. The Feminine Mystique
Author: Betty Friedan
Publication date: 1963

8. The Course of Positive Philosophy
Author: Auguste Comte
Publication date: 1830-1842

9. Beyond Good and Evil
Author: Freidrich Nietzsche
Publication date: 1886

10. General Theory of Employment, Interest and Money
Author: John Maynard Keynes
Publication date: 1936

O painel também indica algumas menções honrosas, para livros que alcançaram um número mínimo de nomeações. Contam-se entre eles, por exemplo, What Is To Be Done , de V.I. Lenin, Authoritarian Personality de Theodor Adorno, o clássico On Liberty, de John Stuart Mill, Origin of the Species de Charles Darwin, Madness and Civilization de Michel Foucault, Second Sex de Simone de Beauvoir, Prison Notebooks de Antonio Gramsci, Introduction to Psychoanalysis de Sigmund Freud, Descent of Man de Charles Darwin.

Lido por outro ângulo, premeditadamente menos conservador, temos aqui excelentes sugestões de leitura para os meses de canícula e vento fresco que aí vêm. Praticamente todas as obras de ambas as listas são clássicos no seu género. A história do século XIX e XX, passam, em grande medida, pelas suas páginas. Queiramos ou não...