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segunda-feira, setembro 06, 2004

Um outro Knopfli 

Deve referir-se a uma marca de sopa instântanea ou a cereais para o pequeno-almoço. Basta uma visita à secção alimentar de uma grande superfície, no corredor dos cereais, para nos darmos conta dos malabarismos linguísticos a que se prestam os especialistas de marketing e os conceptores da imagem destes produtos alimentares. Os nomes são frequentemente híbridos de outros nomes, jogos de sílabas que colidem umas com as outras, palavras que de longe evocam o ruído da mastigação frenética e da mistura salivar; em suma, constituem uma nova língua do ramo alimentar, com termos que ficam no ouvido a arranhar-nos os tímpanos. Não me surpreende que a Maggi - marca que me acompanha desde a infância - tenha escolhido o nome Knopfli para designar um dos seus produtos. E lamento que essa escolha não tenha um significado literário. O nome é fortuito e se os especialistas da empresa investigaram correctamente (independentemente do produto ser recente ou não... a verdade é que não faço ideia) devem ter percebido que o Knopfli dos poemas não terá tido nada a ver com sopa instântanea, mas que também não se chocaria especialmente com a coincidência do seu nome de família corresponder à marca de um produto alimentar.
Agrada-me a ideia, desde uma perspectiva de vulgarização que não me parece chocante, de atribuir nomes de figuras da arte, da ciência, do pensamento, aos produtos mais comuns. Algumas figuras encontraram o seu nicho na linguagem que falamos todos os dias. Picasso é uma categoria para classificar o gosto; Einstein ajuda-nos a compreender a excepção do génio e como a descoberta científica se faz com tanto de rigor como de fantasia e imaginação; Bulhão Pato é um método para preparar ostras antes de ser o poeta ultra-romântico; o Doutor Jivago designa um estilo no vestir, tão vago e passageiro como qualquer moda que regressa sempre. Há outros exemplos. Kafka e Maquiavel deram o nome a adjectivos sem os quais dificilmente passaríamos hoje, Bovary também mas é para diletantes. Pegar de manhã ou à hora do jantar na embalagem de Knopfli e preparar um pequeno almoço rápido ou uma sopa instantânea... é um gesto que não me deixaria indiferente. Afinal a poesia é para comer, pelo menos a acreditar na Natália Correia, que se dirigia nesses versos admiráveis aos subalimentados da poesia. E isso somos todos, sobretudo quando passeamos, meio tontos e completamente vazios por dentro, por entre os corredores de cereais das grandes superfícies comerciais.

Comments:
há suspeita.Todos Fomos Próprios, eu estudei no Técnico e em Letras. POUCOS terão tão poucas habilidades e represento o pouco do inadaptado
 
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