<$BlogRSDURL$>

segunda-feira, setembro 27, 2004

O Verdadeiro Almanaque 


(imagem: do blog Alentejanando)

Sou um fiel comprador d'"O Verdadeiro Almanaque BORDA D'ÁGUA" desde há vários anos. Inclusivamente cheguei a telefonar à Editorial Minerva, que publica a brochura, na perspectiva de falar com o seu velho editor João Domingues e de me encontrar com ele. Nada feito, porque depois de entregar as provas, o seu idoso director e editor retirava-se para descansar. Na altura - terão passado três anos, talvez - alimentei o projecto, de momento apenas adormecido, de criar uma publicação anual tipo-almanaque para a escola, cruzando o modelo do calendário com o do anuário informativo. A oportunidade disipou-se com o passar dos dias e perante a dimensão da tarefa. Pode ser agora o momento de retomar essa ideia.

Voltemos ao "Verdadeiro Almanaque": na verdade, tenho de declarar que o compro anualmente por altura do mês de Agosto, Setembro (por vezes compro mais de um exemplar, que perco), que o recebo com algum agrado, mas que todos os anos actualizo o meu desgosto com o conservadorismo da publicação. O Almanaque é, bem entendido, uma permanência saudosa e caprichosa de uma cultura de tipografia já ultrapassada. O lettering característico de uma composição manual, a montagem que nos evoca a produção artesanal, o espírito rural, vagamente ancestral, tudo isto são características do velho Borda D'Água. Não o estou a ver impresso em papel couché, com recurso às mais avançadas tecnologias digitais. Mas o que não muda perde realidade e credibilidade. O modelo não evoluiu, mas involui alegremente rumo a qualquer coisa sem sentido. Os textos são pior que o verdadeiro kitsch de estimação, marcados por um espiritualismo pacóvio, pelo senso comum a confinar com a supersticção. Era possível fazer melhor, mesmo sem perder aquele charme de publicação popular que aparece a meio do Verão, resistindo numa época que já não é a sua. Terá na mesma os seus compradores, como eu, mas não tem o meu entusiasmo. Arisca-se a morrer com os seus leitores, apesar da tiragem actual rondar os 150.000 exemplares.

O número deste ano custa mais 0,10 € que o do ano anterior - o preço está agora em 1,20 €. O director é novo - já desde o número do ano passado - mas tudo o resto permanece igual ou muito semelhante: Apresentação, índice, Calendário com conselhos de astrologia e de agricultura e jardinagem, colunas sobre a influência da lua na agricultura, Agricultura Biológica, plantas medicinais, páginas sobre a tradição do Espírito Santo em Portugal, Feriados, Feiras e Mercados, dados astronómicos. E o inevitável e profundamente moralista "Juízo do Ano": "Sejam pois os votos do Borda D'Água, consciencializar-nos do Espírito divino, em todo o nosso ser e aura, e vivermos amorosa, sábia e fraternalmente em 2005."

Mas o Verdadeiro Almanaque tem, pelo menos, dois adversários menores em fama e difusão: O Seringador (Reportório Crítico-Jocoso e Prognóstico Diário), da Lello Editores e de João Manuel Fernandes de Magalhães, na mesma onda, e o Almanaque Ribeirinho, do Cristiano Gandra.

De Espanha conheço o prestigiado "Zaragozano" que se desdobra em publicações (tanto quanto depreendo do que já vi) de dimensão variável. Recebi, há anos, um exemplar do Almanaque El Firmamento para o ano de 2002. É um opúsculo em formato de livro, com 144 páginas e muita informação.

Comments:
A sua leitura do Borda d’ Água não tem sido muito proveitosa, talvez por limitações e preconceitos, alguns dos quais emergem do texto que publicou. De nada lhe serve pois afirmar-se um fiel comprador, ou ainda que compra mais de um exemplar, não porque dê a outras pessoas, mas porque os perde...
Afirma entretanto que todos os anos «actualiza o seu desgosto com o conservadorismo da publicação», e manifestando algum conhecimento da cultura tipográfica, mas mal aplicado, pretende armar-se em profeta augurando a morte do Borda d’Água, ainda que tivesse 150 mil exemplares. Neste aspecto podemos dizer-lhe que a edição de 2006 já vai em mais de 320 mil exemplares. A sua afirmação «o que não muda perde realidade e credibilidade. O modelo não evolui mas involui», é realmente duma ignorância lamentável, demonstrando a incapacidade de compreender o Borda d’ Água e o conteúdo dos seus textos, em contraste com as muitas pessoas que por carta, mail, ou viva voz nos têm manifestado o quanto têm apreciado a evolução do almanaque, tanto na forma como na substância. Seria absurdo fazer o exemplar em papel couché, quando desejaríamos antes imprimi-lo em papel reciclado. Quanto à forma, vai-se transformando harmoniosamente, ainda que lhe escape...
De facto, depois de ter reparado que já não lá está o tal editor com quem se queria encontrar, afirma satisfeito, talvez para poder continuar a cultivar ou actualizar o seu desgosto anual, «mas tudo o resto permanece igual ou muito semelhante». Se fosse um bom entendedor, e não um mero fiel comprador, certamente se teria apercebido das muitas alterações que têm enriquecido e melhorado o Borda d’Água, que está bem longe de ser um exemplo de espiritualismo pacóvio ou supersticioso, tanto mais que muitas superstições revelam saberes intuitivos, ou que a espiritualidade tem as suas raízes no conhecimento das harmonizações energéticas do céu e da terra, do espírito e da matéria. Mas nisto já vimos que o amigo bloguista não labora...
Quanto a outros almanaques, não os consideramos rivais mas irmãos e companheiros duma forma de comunicação tradicional, e sobretudo porque ligada à Tradição, conservadora do que continua a valer, crítica e inovadora onde for necessário, como poderá ler nos Juízos de ano, ou nas Apresentações, ricas de ensinamentos e sugestões mas que lhe pareceram mera moral.
Votos de melhores leituras.
 
Enviar um comentário