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domingo, setembro 12, 2004

O poeta declamatório 

Outra forma de ler é passar os olhos velozmente pelas linhas à procura de uma citação, de um episódio, de uma referência. A curiosidade e a memória de leitor escrupuloso, quando se trata de um livro já lido, acabam por trair-nos e sempre nos demoramos numa anedota, numa história, numa página. Foi o que aconteceu com a autobiografia de Pablo Neruda em que decidi procurar uma breve referência, correndo demoradamente o livro de uma ponta à outra. Parei algumas vezes para reler. A minha leitura do livro, na edição da Europa-América, há anos, foi verdadeiramente empolgante. Hoje, quando o folheio, não consigo evitar uma certa frieza em face da prosa do poeta chileno. Não creio que a dimensão de um poeta e o seu valor se reduzam simplesmente a um adjectivo. Mas o tom declamatório de megafone, o bombardeamento de metáforas a que os leitores são sujeitos constantemente, afastam-me afectivamente desta poesia. O mesmo na prosa. O livro de Neruda, - "Confesso que vivi" - é belo e generoso, mas a sua ingenuidade ideológica, para não dizer parcialidade, num tempo em que era difícil não ser parcial, torna-o muito datado, por vezes quase ilegível. Anoto uma passagem breve, entre tantas, que me deixaram objectivamente por fora: "Está-se a trinta graus abaixo de zero em Moscovo, estrela de fogo e neve que se situa como coração aceso em pleno peito da terra./ Olho pela janela. Há guarda de soldados nas ruas. Que se passa? Até a neve se deteve ao cair. Enterram o grande Vishinsky."
Quanto ao mais, confesso, que estas páginas fazem demasiado parte da minha memória de leitor para que as possa renegar. Podemos renegar uma leitura que tenhamos feito um dia?

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