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sábado, setembro 11, 2004

O acontecimento forcluído 

O termo "forclusão" é da psicanálise e consiste num "mecanismo psíquico de rejeição das representações insuportáveis, antes mesmo de se integrarem no inconsciente ao indivíduo" (Houaiss). Segundo Lacan esta recusa liminar da realidade estará na origem da psicose. Seria tentador ignorar, por exemplo, que a nossa realidade actual se faz de mensagens diárias e relatos de terror e ameaça. Os actos terroristas, em que uma violência desproporcionada e arbitrária faz vítimas inocentes à margem de qualquer protocolo imaginável, são diários. Isso não nos surpreende. Claro que isto não é o resultado do 11 de Setembro nem a consequência da guerra sui generis desencadeada pelo ocidente, mas apenas a continuação previsível daquele acontecimento.
Em Impasses, de Fernando Gil e Paulo Tunhas, podemos ler logo na apresentação, um curioso parágrafo que não resisto a transcrever: "O seu efeito de real [do 11 de Setembro] - se assim se pode dizer, as palavras faltam - foi tal que, ou nos transformou, ou nos obrigou ao que Freud chamou forclusão: uma rejeição absoluta para fora da pessoa. O acontecimento forcluído não é recalcado nos abismos da consciência (recalcar implica dar guarida dentro de si, ainda que para esquecer), ele é a tal ponto insuportável que se torna necessário expulsá-lo pura e simplesmente, como se nunca tivesse existido. Para onde vai então? Freud e depois Lacan explicam que reaparece na realidade, num modo distorcido e alucinado. Literalmente, a forclusão consistiu em ter-se querido "provar" que nenhum avião embateu contra nenhuma torre. Houve até um livro inteiro, publicado salvo erro no Cairo, a pretendê-lo. Menos psicoticamente, ela consiste em recusarmo-nos a integrar em nós - no nosso pensamento, nos nossos afectos - a realidade do assassinato terrorista. Sabe-se que existiu, remotamente, mas sem efeito de real. Desliza sobre nós sem nos tocar. Mas não vemos para onde o forcluído retorna - o que poderia alimentar uma outra interpretação, mais simples e mais cínica: o negacionismo da monstruosidade visa apenas proteger o sossego do espírito. Graças a uma livre decisão. A ser assim, o 11 de Setembro só poderia afectar quem estava já predisposto para tal." (15 - 16)

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