<$BlogRSDURL$>

segunda-feira, setembro 06, 2004

Leituras em diferido 

A não ser nos casos óbvios em que o ritmo vertiginoso dos acontecimentos se encarniça para deixar fora da actualidade uma edição recente de um jornal ou de uma revista acabados de chegar, e à disposição no café ou ainda expostos no escaparate, a leitura em diferido tem os seus encantos. Claro que toda a leitura de actualidades é diferida no tempo, pelos menos um certo número de horas, entre o fecho da edição e a chegada do jornal ao ponto de venda. Mas não é disso que falo. Há alguns anos (talvez vinte, não é tão pouco quanto se possa pensar) o DN chegava à minha terra, no interior, quase 30 horas depois de sair da rotativa. E chegava de combóio directamente do Barreiro, que fica em linha. Não sei por onde andariam entretanto os poucos exemplares enviados na altura, enquanto o mundo corria a desactualizar as suas manchetes. Recentemente tenho lido alguns jornais fora de prazo. Bastam dois ou três dias. E a distância em tempo da notícia aos acontecimentos ajuda a configurar outra leitura, mais dilatada e ponderada, enriquecida com factos que nos chegaram entretanto através de outros meios. A opinião sofre também alguma usura, no bom sentido, de modo que uma opinião desactualizada acaba, inevitavelmente por ser uma opinião contextualizada. E a limite é mais seguro, até ao ponto em que os acontecimentos posteriores e as interpretações recentes lhe retiram toda a credibilidade, muito mais seguro, ler uma opinião com a distância de alguns dias que uma opinião ainda a fumegar dos prelos. O tempo dá contexto também quando se trata de uma notícia de jornal, cujo desenvolvimento não seguimos no seu tempo. Quando já sobra só o contexto e o caso acabou por entrar numa vasta e complexa rede de causalidades, sendo assimilado à filigrama da pequena história, já não vale a pena ou é apenas anedótico. É o que vai acontecer daqui a algum tempo com o ruído mediático que acompanha a odisseia do barco do aborto, dos seus apoiantes e detractores. Quanto ao governo e às autoridades envolvidas (li que há cinco ministros a acompanhar o caso!) o anedótico já vem misturado com a massa de que se faz a notícia.

Comments: Enviar um comentário