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quarta-feira, setembro 01, 2004

"la question de la douleur de corno" 

Com o início do mês de Setembro o tempo piora sempre, ainda que seja apenas na nossa imaginação. As expectativas baixam tanto ou mais do que as temperaturas mínimas, e cada saída à rua é precedida por uma inevitável impressão de desconforto. Talvez isso ajude a explicar alguma relutância com que o Knopfli vem agora à esplanada varrida pelo vento. O Verão já não é o que era e isso prova que a nossa agenda mental e a nossa exposição social também são regidas pelas mesmas leis cósmicas dos equinócios e dos solstícios.
Mas veio na mesma e chegou preocupado com as grandes questões da crítica literária, vertidas em linguagem de café, entre amigos. Vinha bilingue, a pensar e a falar em duas línguas, em parte porque gosta de driblar os interlocutores, em parte porque é assim que pensa sempre que quer dizer alguma coisa mais séria.
Era a poesia, o que é um poema, porque é que se escreve. Ouvi-o: "- Você, como professor, pode dizer-me o que é em princípio um poema? Quelle est ton idée d’un poème? Moi, je pense que, quand il y a un décalage - não sei se o meu francês é bom -, entre moi et la realité, a forma de a fechar ou de a vencer, ou de a apagar ou de a pisar, é escrever um poema, n’est-ce pás? Donc on retourne à la question de la douleur de corno. (...) Só a forma, realmente, de a gente resolver um diferendo, uma mágoa contra a realidade, é através do verso. Como, por exemplo, esta coisa que tu chamas uma entrevista, nós estamos aqui a conversar, e até me faz muito bem, porque é uma espécie de catarse, é como tornar Alka Selzer depois de uma noite de bebedeira, ou Guronsan... c’est ça."
Perguntei-lhe porque não publica regularmente, porque espera tanto para dar outro livro ao prelo. Perguntas ociosas, já se vê. Respondeu-me com paciência: "- Não escrevo nada, porque não acontece. Porque, tal e qual como eu te dizia há [pouco], não sou um literato. (...) Mas a poesia só realmente me ocorre - não a procuro deliberadamente - só me ocorre quando é inevitável, quando há, realmente, no meu espírito qualquer coisa..."
Comecei a imaginar que os poetas se dividem em categorias: há os poetas da necessidade, que só escrevem quando tem mesmo de ser, e não têm alternativa, os poetas frenéticos que escrevem um poema para poder depejar logo o próximo que já está a entupir o seguinte, os poetas casuais, que escrevem por escrever e vivem bem com isso, os obscuros, que trabalham as trevas da sua poesia e gastam parte do seu tempo em trabalho de 'criptação'... e há aqueles que ao longe se parecem com pessoas normais.

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