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segunda-feira, setembro 13, 2004

Integrar, assimilar ou tolerar? 

As imigrações são uma das grandes questões dirigidas, nos tempos que correm, ao coração do mundo moderno. Há outras questões, mas esta interpela cada vez mais as nossas convicções e a nossa capacidade de nos adaptarmos a novas situações sociais. Vem isto a propósito do artigo de ontem de Sir Ralph Dahrendorf, no Jornal Público. O autor é um intelectual reputado, que não pode ser acusado de populismo. Mas as suas reflexões orientam-nos para um cenário preocupante, perturbadoramente conduzidas pelo bom senso. O artigo - Para Além da Assimilação - coloca em causa, mais do que as políticas reais, a capacidade de assimilação das sociedades ocidentais para acolher grandes contingentes de emigrantes em fuga do mundo subdesenvolvido. A assimilação, o multiculturalismo, segundo ele, falharam e não podem fornecer soluções estáveis. Qual a solução?

"Qual será então a alternativa à assimilação? A "salada" do chamado multiculturalismo não é uma verdadeira alternativa, porque não fornece o elemento necessário para manter as comunidades unidas. Todos os ingredientes são mantidos separados desde o início.
A única alternativa viável de que temos exemplos talvez seja a de Londres ou Nova Iorque. A principal característica desta alternativa é a coexistência de uma esfera pública comum partilhada por todos e um considerável grau de separação cultural na esfera "privada", nomeadamente nas áreas residenciais. O espaço público é multicultural no que diz respeito ao passado das pessoas, mas é governado por valores pré-estabelecidos, mesmo uma língua comum, deixando as suas vidas privadas numa espécie de guetos - para usar uma palavra feia."


A distinção entre a esfera pública e o domínio privado, já teorizada por Kant, num ensaio admirável, merece a nossa reflexão. Mas, tal como é afirmada, parece um recuo a que nos resignamos depois de abandonadas as posições iluministas do acordo entre homens de diferentes credos. Será mesmo impossível, numa sociedade democrática aberta à livre iniciativa de cidadãos livres, esperar mais do que a simples tolerância mútua?
E na escola? Como reagir à variedade étnica que constitui o nosso público escolar? Falar apenas em tolerância, desistir do projecto de um convívio afirmativo entre culturas, parece-me uma má pedagogia. Acredito que é possível, entre jovens, aproveitar a variedade étnica, linguística, cultural e religiosa, como uma oportunidade de aprendizagens e como uma interpelação positiva. Claro que é preciso trabalhar e muito nesse sentido, certamente a contra corrente, porque frequentemente os sinais exteriores são contrários. Mas admito que a escola é o lado mais visível desse espaço público a que Dahrendorf se refere e onde aceita os desafios da multiculturalidade.

"Se formos forçados a abandonar a esperança da assimilação, teremos de concentrar os nossos esforços na criação de um espaço público para o qual todos contribuam e onde todos se sintam bem. Idealmente, deveria ser um espaço público em expansão, porque, em última análise, o elemento de unidade numa sociedade moderna é a garantia da liberdade dos seus cidadãos."

Vale a pena uma leitura integral do artigo.

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