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sábado, setembro 04, 2004

"Eu sou a parte supérflua deste mundo." 

Choveu esta noite. Caiu granizo aqui e em Maputo. É o tempo a marcar a nossa agenda. A esplanada no túnel do vento, onde costumava acabar as tardes, é agora mais irregular. Knopfli não vem aqui todos os dias. Ele fala como se o tempo não passasse nunca definitivamente e por isso tudo está permanentemente em aberto. Afinal lá chegou e sem pedir licença lembrou-se do tempo em que escreveu "O País dos Outros", o tempo em que se sentia estrangeiro na sua terra e disso tirava pacientemente a sua poesia; desatou a falar como se lhe tivessem feito uma pergunta irrecusável, como se fosse um desabafo: "- Eu sou a parte supérflua deste mundo. Eu sou o branco que sei que este mundo tem o direito de nascer, portanto não me ligo ao outro mundo branco que não quer que ele nasça. Mas para ele ter de nascer, eu tenho que (...) desaparecer pela esquerda baixa, ou alta, ou como você quiser." Não lhe disse, mas suspeito que Knopfli nunca resolveu inteiramente essa mágoa, o problema da pertença, diriam os críticos. Por isso falava tanto dela, como quem precisa de limpar regularmente uma ferida inofensiva e purulenta. A consciência é uma ferida aberta, ele deve ter dito isto alguma vez. E o grande tema volta sempre, o problema que Knopfli tem consigo mesmo: "- Foi nele que eu nasci: nasci no país dos outros! É essa mesma consciência, que lhe tenho estado a dar aqui, de me descobrir, depois dessa tal transparência em que não há cor, porque as cores são todas iguais e eu sou clour-blind, eu sou daltónico, em sentido racial." Mas nada disto é um lamento. Um poeta, num certo sentido, faz a sua pátria, que é, num certo sentido, a sua poesia. E não é preciso citar o outro poeta que viveu a sua infância em inglês, em Durban, um pouco abaixo de Maputo. O sentido é outro. Esclarece: "- Eu sou o resultado das minhas circunstâncias - as minhas circunstâncias, felizmente, foram estas."

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