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quarta-feira, setembro 08, 2004

Com o tempo tudo vira a mesma coisa 

Continuo a ler jornais fora de prazo. A revista Actual do Expresso, com data de Maio ,é uma leitura suculenta, o Diário do Alentejo de Julho também me surpreende. Mas é a descoberta do escritor brasileiro Luís Fernando Veríssimo, com uma página a abrir o conteúdo informativo daquela revista semanal, que mais me tem agradado. Já o tinha lido antes, com gosto e júbilo. Porque Fernando Veríssimo é um daqueles escritores que provoca verdadeiro júbilo no seu leitor, uma espécie de alegria superior na descoberta de algo de que secretamente já suspeitavamos.Ontem levei para a esplanada ventosa um exemplar da revista. O escritor olha o vago, com o rosto iluminado pelo sol que declina. Assina de entrada uma coluna, que na verdade preenche toda a página, chamada "Do Lado de Lá". Presumo que é do lado de lá do Atlântico, mas pode ser do lado de lá de muita coisa. A crónica de ontem, que na verdade saiu na revista Actual com a edição do Expresso de 8 de Maio passado (faz hoje 4 meses), é uma fantasia sobre o tempo - "Com o tempo"."Há pessoas que, com o tempo, acrescentam outras. O rosto fica mais carnudo, a cintura se expande, tudo engrossa: incorporam um estranho. Com outras acontece o contrário: perdem um outro inteiro. (...) Deve ser parte do tão falado amor da natureza ao equilíbrio, nada aumentar aqui que não diminui em algum lugar. E há um certo consolo em pensar que a sua barriga pode ser a barriga enjeitada de outro".Desde há muitos anos que aprendi a vigiar a passagem do tempo pelas marcas que os anos deixam no rosto e no corpo das figuras públicas que mais aprecio. Por vezes a comparação entre uma imagem actual de um personagem e uma sua foto de arquivo, mantida obstinadamente na cabeça de uma crónica de jornal assinada por ele, faz-me cair na realidade. O tempo passou sobre os outros, o tempo passa inevitavelmente sobre mim também. Mas essa confirmação do tempo que deixa os seus sinais no rosto marcado dos outros dá-me uma consciência diferida de que envelhecemos todos em conjunto.Escreve Luís Veríssimo nesta crónica: "A suprema conquista da idade é poder chamar desânimo de sabedoria". Tudo bem. O tempo tudo alisa. Até esmorece a nossa escala de valores, prescreve uma boa dose de ironia porque a idade é doença. E depois, o golpe fatal: "O espectáculo das paixões humanas nunca muda, muda é o ângulo de visão: o que antes era voyeurismo, hoje é contemplação." Ver é imoral, contemplar é amoral. Também é uma questão de tempo.

Comments:
"O tempo passou sobre os outros, o tempo passa inevitavelmente sobre mim também. Mas essa confirmação do tempo que deixa os seus sinais no rosto marcado dos outros dá-me uma consciência diferida de que envelhecemos todos em conjunto". Este é um olhar na segunda pessoa.
se lançarmos um olhar a partir da terceira pessoa verificamos que afinal é o tempo que espera que as pessoas passem por ele. As marcas nos rostos decorrem do ritmo dessa passagem pelo tempo. Uns envelhecem mais do que outros.
Gustavo, foi esta a minha impertinência.
 
Não é impertinência nenhuma. Reflectir sobre o tempo, sobre os paradoxos em que facilmente incorremos quando nos deixameos levar por ele, é um vício dos homens desde sempre. Objectivamente a minha consciência da passagem do tempo é mais viva quando olho o rosto dos outros, porque no plano pessoal tendo a desvalorizar essa usura. O rosto da Inês de Medeiros ou de Penélope Cruz são para mim bons indicadores da passagem do tempo, recordam-me que nada permanece. Claro que uns envelhecem mais do que outros, o que torna a passagem do tempo uma realidade relativa a cada um de nós, uma experiência pessoal tão forte. Mas isso não me preocupa a sério. Pior é não perceber que o tempo passa.
 
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