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sexta-feira, setembro 17, 2004

Arquivo morto (4) 

Devia haver um nome para isto; viver daquilo que em tempos recuados foi a actualidade. Ler as notícias de há dez anos, em folhas de papel cinzento que provocam alergias na pele. Ler nesses papéis antigos qual era o futuro do passado, porque eu guardava sobretudo as revistas e suplementos onde se faziam balanços e se projectava o futuro próximo. Propriamente hoje. Descobri mais estas:

Professor indemnizado por perder a voz - A agência Reuter enviou para as redacções e o "diario independiente de la mañana" - vulgarmente El Pais - deu a notícia em 33 palavras: "El profesor británico Frances Oldfield, de 55 años, ha ganado el derecho a ser indemnizado por perder su voz tras 17 años de impartir clase, en lo que ha sido considerado un acidente laboral." Em Portugal perde-se a voz a clamar justiça, mas ninguém é indemnizado por isso. (El Pais, ??-??-????)

Impacto das anedotas de Cícero (uma história mal contada) - Os jornais deram muito ênfase ao episódio, como se fosse uma anedota irresistível e de certo modo terá sido notícia apenas porque foi possível apresentá-la como anedota. Se a memória não me falha este ruído veio com a campanha eleitoral para as eleições em que Bill Clinton acabaria por ser eleito frente ao pai Bush. Clamava-se na altura contra o despesismo dos conservadores e deram-se exemplos de investigadores que gastavam milhares de dólares a estudar o diâmetro do rabanete ou a falsa simetria da pegada humana na areia da praia. A notícia do Público, aí por volta de 1992, diz num parágrafo: "Além da categoria "obscenos", há a dos "absurdos", como o caso do investigador da Universidade do Illionois que, em 1981, recebeu do NEA 22 mil dólares para estudar o impacto das anedotas de Cícero na Itália e França renascentistas". Não vejo onde está o absurdo de se estudar tal fenómeno; parte da piada deste exemplo resulta de se retirar a história do seu contexto, descrevendo-o a partir de fora com uma linguagem que omite mais do que esclarece. Faltaria estudar agora o sucesso destas charges e o seu verdadeiro impacto no sentido de voto do americano médio. (Público, 16-3-????)

Universidade livre em plena rua- Envio Botta era mendigo profissional em 1995, nas ruas do bairro romano de Trastevere. Chamavam-lhe "il prefetto" e era muito culto e industrioso. Tendo constatado que "devido à situação política italiana, os aspirantes a vagabundos aumentavam a olhos vistos", resolveu fundar a Universidade da Rua para diplomar pedintes. As aulas decorriam numa das praças do bairro entre as 19.00 e as 24.00 e a propina valia 30 mil liras (três contos). Os primeiros alunos formados sairam desta Universidade depois de frequentar aulas teóricas e práticas de Gramática do Calão, Indigência Activa, Sociologia da Marginalização, Geografia do Comer, Lavar-se e Dormir sem Gastar um Tostão, etc. Envio Botta, que foi cozinheiro antes de ser vagabundo, era o reitor desta Universidade que contava com mais cinco professores. Ele leccionava a Teoria da Mendicância pelo Método Criativo, a qual ensina a citar uma frase de um autor clássico sempre que se estende a mão à caridade. Botta era um apreciador de Shakespeare. (Expresso, 23-12-1995)

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