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quinta-feira, setembro 16, 2004

Arquivo morto (3) 

Descobrem-se coisas espantosas quando tentamos deitar papel no lixo. A ideia é desfazermo-nos de uma quantidade razoável de folhas amarelas e cheias de pó, não é perder mais tempo a lê-las e guardá-las no último instante, desviando-as do saco preparado para as receber. Os meus arquivos resistem ao furor justicialista com que ando a abrir as caixas de papelão; retive estas notícias.

"Menina de 7 anos grávida pela segunda vez" - Esta peça do Público, escrita pela jornalista Tereza Coelho, deu-me forte, quando a li há 10 anos. Primeiro parei os olhos no título, depois mergulhei no texto, como provavelmente fizeram todos os leitores daquela página da secção de cultura. Afinal a jornalista escreve logo: "É sobre o concerto de Donovan na quarta-feira em Lisboa, mas com outro título ninguém lia. O S. Luís estava cheio, mas com outro título ninguém lia na mesma porque as pessoas interessadas em saber com quem se parece actualmente Donovan estavam todas lá." Achei genial este estilo casual levemente áspero e utilizei-o frequentemente como exemplo de que a criatividade não pode repetir as suas receitas. O caso da "menina de 7 anos" ultrapassa tudo o que se pode esperar de uma notícia quando lemos que ela repetia a gravidez pela segunda vez. Não uma - o que seria já um fenómeno - mas duas vezes, o que só passa por verdade porque vem logo no título. Depois o anti-clímax da revelação do concerto. Toda a notícia tem os seus motivos de análise. A descrição do espectáculo é servida com frases secas, curtas, quase inopinadas ("... aos homens calhava fazer lá-lá-lá", etc). O resultado é mortal para o prestígio e para a seriedade do cantautor britânico. Eu só recuperei o nome de Donovan quando recebi em casa, há anos, um CD de homenagem a Federico Garcia Lorca em que o autor tem uma prestação asseada. Para acabar, a jornalista volta à carga: "Em vez de "Menina de 7 anos grávida pela 2ª vez" esta notícia podia chamar-se Zeitgeist. Era mais piroso, mais adequado, e mais cultural." (Público, 18-6-1994)

Juízes de direito em união de facto
- Dois juízes que vivem maritalmente, isto é, em união de facto, podem integrar um colectivo? A dúvida sobre este aspecto esteve na base de um pedido de nulidade do julgamento do Pelotão de Segurança da PSP do Porto, entregue no tribunal de Vila Nova de Gaia, no ano de 1995. O advogado de um dos arguidos, entretanto condenados, alegava que os juízes "vivem maritalmente, em união de facto, em situação análoga à dos cônjuges". O magistrado responsável pela avalição do pedido de nulidade acabou por indeferir essa pretensão, porque, justificava ele, "na globalidade do nosso sistema legal, o casamento e a união de facto ainda são situações distintas, com tratamento, ne generalidade dos casos, diverso". A questão foi depois remetida para o Tribunal da Relação. (Público, 31-12-1995)

Conselho de Ministros em verso - O Conselho de Ministros votou dois diplomas e o Gabinete de Imprensa do Ministério da Agricultura divulgou-os em verso. O chefe de gabinete explicou depois que o ministro da Agricultura, Pesca e Alimentación, Luis Atienza, aprovou a ideia, considerando que um pouco de humor ajuda a trabalhar melhor. Os decretos eram sobre intercâmbios e importação de esperma animal e análise de alimentação destinada a gado. Segundo o jornalista do El Pais, Santiago Hernández, o chefe de gabinete é conterrâneo de Lope de Vega, mas ao que consta, nem este poeta copioso nem mesmo Gôngora se terão atrevido por temas tão bucólicos e especializados. A ministra da Cultura, Carmen Alborch, elogiou a altura poética do documento diante de todo o conselho. Restam os poemas para a posteridade.
Sobre a comida para gado:

"El Consejo de Ministros
en su reunión de hoy día
ha aprobado dos decretos
para nuestra agronomía.

El primero de los dos
trata de comida y piensos,
de cómo deben de hacerse
para que sean inmensos
los animales de granja
que se alimenten con ellos.

Con buenas materias primas,
como quisiera cualquiera
que aun no comiendo esos piensos
buen estómago tuviera.

Que puedan analizarse
con técnicas muy modernas
para tener la certeza
de que sean buenas piernas


las de cordero y de vaca,
las de pollo y de ternera,
las pechugas y los lomos
y cualesquiera otra pieza."


E sobre o decreto relativo ao intercâmbio de esperma:

"En el segundo decreto
que el Consejo hoy aprobaba
se incluyen las condiciones
de eficacia comprobada


que ha de cumplir el esperma
bovino de la cabaña
que quiera cruzar fronteras
de Europa comunitaria.

"Para tener descendencia
de carneros y de ovejas
se acostumbraba a dejarlos
en rebaños de parejas.

De esta manera primaria
ellos solos por costumbre
perpetuaban la especie
con contento y mansedumbre.

Quiere la modernidad,
para mejorar la raza,
que las parejas se escojan
con batas entre la paja.

Que no decidan los bichos
según su pobre albedrío,
sino los especialistas
aunque todo sea frío.

Porque de frío se trata
y de la conservación
que para ser primaria
cumple la eyaculación."


(El Pais, 26-11-1994)

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