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quarta-feira, setembro 15, 2004

Arquivo morto (2) 

Continuo a escolher papel na varanda de trás. O barulho é constante, a devassa e o pó também. O calor faz-me suar como há muito não acontecia porque tenho vivido longe do sol a pique. Mais folhas de jornal, amarelecidas e sujas do pó que chega a todo o lado. Com o tempo as folhas ganham aspereza e as notícias perdem vigor.

Loucos em tertúlia - Todas as 5ª feiras Leopoldo Maria Panero, poeta e narrador, filho e irmão de poetas, deixa o manicómio de Mondragón, na Guipúzcoa, para se dirigir ao estúdio da cadena Ser. Minutos depois estará no ar com outros doentes mentais, numa tertúlia radiofónica chamada La Ventana, em que são abordados temas da actualidade. Juan Carlos Colchero, em Sevilla, Begoña Mateos, Bilbao, Santiago Martínez, Santander e José María Párraga, em Murcia, são os seus outros companheiros. Todos com problemas psiquiátricos - esquizofrenia, esquizofrenia paranóica, psicoses. O convite partiu de Javier Sardà, um homem da rádio que reconhece que a "loucura não é idílica, mas uma coisa bastante triste". Sardà concebeu o programa a partir do pressuposto de que uma tertúlia poderia resultar do confronto das subjectividades de pessoas que não são tidas na conta de normais. O programa, em que é frequente falar-se das terapias de electrochoque aplicadas aos seus participantes, constitui também, em si mesmo, uma forma de terapia. (El País, 12-2-1994)

Nasce uma lenda cigana - O El País dá notícia da morte de Jose Monge, conhecido como Camarón de la Isla, falecido no dia anterior em Barcelona. O matutino espanhol dedica ao acontecimento três páginas e o editorial. Camarón morreu de cancro de pulmão, aos 42 anos em Badalona, depois de ter passado as últimas semanas de vida viajando de hospital em hospital. Enrique Morente, outro grande nome do flamenco, lamenta a morte do homem que revolucionou o canto, desde a pureza absoluta. Félix Grande escreve num depoimento que "el arte de Camarón era un aullido de la filosofía, un monumento a la condición humana, un obelisco a la derrota". Num dos seus últimos discos Camarón cantava, como um mestre absoluto do canto: "Dicen de mí que me amenaza el tiempo./ Dicen de mí que si estoy vivo o muerto./ Y yo le digo, le digo./ Mientras mi corazoncillo hierva/ yo venceré a mi enemigo." (El País, 3-7-1992)

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