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quinta-feira, setembro 30, 2004

Recado (aqui que ninguém nos ouve) 

É um recado para a minha amiga Lucília A. que me manda pedir informações sobre O Fantasma da Ópera de Gaston Leroux. Não li, não conheço a não ser pelas badanas e pela fama que sempre substitui razoavelmente a leitura de uma obra importante quando não a lemos efectivamente. Quanto a edições actuais só conheço uma: é o tomo 10 da colecção que o jornal Público vem distribuindo às quartas-feiras - colecção Geração Público. Não consegui encontrar uma foto do livro, que falta nas páginas de apresentação, mas é semelhante ao exemplar do Moby Dick aqui mesmo ao lado.
Em geral os quiosques ou as papelarias que vendem o jornal conservam exemplares da colecção que não foram vendidos na devida altura, como aliás fazem com tantos outros - agora os jornais vendem tudo, desde livros (vá lá) até serviços de chá, crucifixos, imagens piedosas da nossa Senhora de Fátima, gravuras para emoldurar, pins com a bandeira portuguesa para desfraldar na camisola, cd's com óperas (que continua a ser a música mais adequada para operários), etc. E os livros que sobraram vendem-nos a quem os pedir, só para se livrarem deles. No caso do livro da colecção do Público sei que o café Óasis (lá dentro há um quiosque) tem alguns exemplares, não sei de quais, e encontrará facilmente outros locais com livros desses. O problema é que O Fantasma da Ópera foi vendido em Julho, se não me engano, tendo já passado meses desde então. A probabilidade de o encontrar não é remota, mas também não é seguro que o encontre.
Uma sugestão: esta colecção tem outros bons livros para oferta - O Moby Dick, em dois tomos consecutivos... e tantos outros. Cada exemplar custa 4,20 €. Em resumo: sem embargo de existir outra edição, que haverá seguramente, conheço esta que ainda poderá encontrar, com sorte e preserverança. Os exemplares de saída mais recente encontrará de certeza. Não sei se ajudei a resolver o problema...
Para mais informações sobre a colecção do Público ver aqui.

quarta-feira, setembro 29, 2004

AlCultur em Portalegre 

A minha amiga Amélia Pardal enviou-me um convite simpático para ir asistir à apresentação do "AlCultur Portalegre 2004" na próxima 2ª feira, no café da FNAC de Almada, pelas 21.30. Na ocasião actuarão os grupos AG.CG & Avalon Ensemble e Pura Mistura. Este ano há festa rija em Portalegre, com um programa imenso. É ver, por favor.

O mapa conceptual da realidade 



Recebemos todos os anos um ou dois grossos volumes de oferta, sem que o editor nos peça nada em troca. Contêm milhares de informações úteis que facilitam a ligação entre as pessoas. Obra de múltiplos autores minuciosos, constitui um verdadeiro atlas da realidade, um interface com o mundo. Seguindo uma economia estrita na disposição dos seus dados, ajuda-nos a poupar tempo quando não podemos perder nem um segundo. Podemos sentar uma criança à mesa com o seu apoio (um político de pequena estatura foi aconselhado a útilizá-las para chegar ao microfone). Depois de usada ainda serve para enrolar castanhas: São as Páginas Amarelas da região de Lisboa.

Recebi há dias a edição de 2004/ 2005 das Páginas Amarelas. É uma obra monumental que nunca lerei na íntegra, mas sei que está ali se precisar dela para uma emergência. É mais ou menos o que parece acontecer com outras obras clássicas, tal como o Ulisses de James Joyce ou La Recherche de Proust, mas noutro âmbito. A obra tem evoluído muito nos últimos anos, ao que vejo. Esta edição conta com 1154 páginas de números de telefones, para além das informações preambulares que ocupam 36 páginas. Cada página encontra-se organizada em 4 colunas, com frequentes destaques e molduras, a várias cores e tipos de letra. A Lista abre com publicidade ao próprio volume que vem a público, depois segue com os telefones mais úteis, em diversas e cada vez mais sofisticadas categorias, a Planta de Lisboa, um guia para ajudar o utilizador a consultar a obra, apoio ao utilizador estrangeiro (Inglês, Francês, Espanhol e Alemão), um útil índice de títulos e finalmente mais de um milhar de páginas com informaçõa nuclear: de "Abat-jours" a "Zincogravura", sem esquecer os "Atrelados e Reboques", "Cabeleiras Postiças", "Chocolates e Bombons", "Direct Marketing", "Estores e Persianas", "Ferro Forjado", "Gruas e Guindastes", "Impermeabilização", "Lares e Pensionatos", "Pastelarias e Confeitarias", "Plataformas Elevatórias", "Relógios de Ponto", "Tectos Falsos", "Transitários", "Vedações", "Vidraceiros", "Viveiros" e "Xistos".

E pelo meio é toda a cidade em nove dígitos que nos passa pelos olhos. Trata-se de um verdadeiro livro de areia, um tratado alfa-numérico sobre a cidade e sobre o modo como iremos relacionar-nos uns com os outros, um mapa conceptual da realidade, em suma. Quantas vozes se encontrarão em virtude desta fina trama de algarismos? Quantos mistérios serão desvendados, quantos serão entretecidos?

A Sentinela (Anunciando o Reino de Jeová) 


A Sociedade Torre de Vigia é a editora da revista. A tiragem média de cada número ronda os 26.000.000 de exemplares. O objectivo da publicação é "enaltecer a Jeová Deus como soberano Senhor do Universo", exortar à "fé em Jesus Cristo, o agora reinante Rei designado por deus, cujo sangue derramado abre o caminho para a humanidade obter a vida eterna". A Sentinela publica-se desde 1879, sem interrupção, declara não ser política e "adere à Bíblia como autoridade".

Duas destas revistas impressas com modéstia e com fotos idílicas, de seres humanos finalmente pacificados, vivendo em harmonia uns com os outros, sem preocupações materiais, num clima benigno e num ambiente de fantasia e doçura, vieram parar-me às mãos. Fixei-me sobretudo no número de Agosto deste ano que desenvolve um assunto sério: "Um bom governo - onde pode ser encontrado?" A mesma cartilagem retórica de sempre: convocar citações exteriores ao universo intelectual da seita (Deus me perdoe), extraídas do seu contexto, instrumentalizando-as depois no sentido de legitimar as teses oficiais do grupo. Tudo num nível intelectual próximo da anemia, sem história e sem brilho. Com o horizonte da autoridade literal da Bíblia, sem qualquer contraditório.

Um olhar no Joe's Bar 

É assim que se chama o último livro do meu orientador, o professor Rogério Carrola. É uma longa narrativa em forma de poema, com 194 estâncias. Recebi-o hoje pelo correio, com dedicatória afectuosa, enviado da Sociedade Guilherme Cossul. É mais um número das edições fluviais, sob orientação do bom Alberto Augusto Miranda. Começa assim:

1.
Os viajantes que chegam
ao
Joe's Bar
não trazem sinais de grande sabedoria.

Chegam em pacotes, bem embrulhados
e pelo ar.

Cambaleiam um pouco
antes de começarem a beber
e a esvaziar os olhos para as mulheres
húmidas da noite
do Funchal.

Mostram fotografias originais,
mesmo do Eufrates
e do Nilo

e refrescam as gargantas
nas palavras de sonho
com que constroem
toda a mitologia do grande Oceano.

Imaginam essas águas primevas
nos seus copos
enquanto devagar uma lágrima
vai acometendo a mão feminina
como se fosse uma âncora

de desejo.

segunda-feira, setembro 27, 2004

públicos 

O acidente de Palmela que vitimou três pessoas que estavam a assistir às exibições dos street racers: num cenário soturno vários "populares" olham para a câmara da RTP enquanto o jornalista entra em directo para o telejornal.

A chegada ao tribunal de um suspeito de ter participado na morte da Joana: uma dúzia de pessoas procura entrever o suspeito através de uma fenda na parede da garagem de acesso às celas, enquanto grita e comenta o facto de não ter mudado ainda de camisola.

A partida da equipa do Futebol Clube do Porto para Inglaterra ao encontro do Chelsea: dezenas de adeptos do Porto, que se deslocaram propositadamente ao aeroporto, saúda a equipa que passa para fazer o chek in.

O que há de comum em todas estas situações? Há público para todas as ocasiões, funestas ou felizes, boas ou más, etc.

O Verdadeiro Almanaque 


(imagem: do blog Alentejanando)

Sou um fiel comprador d'"O Verdadeiro Almanaque BORDA D'ÁGUA" desde há vários anos. Inclusivamente cheguei a telefonar à Editorial Minerva, que publica a brochura, na perspectiva de falar com o seu velho editor João Domingues e de me encontrar com ele. Nada feito, porque depois de entregar as provas, o seu idoso director e editor retirava-se para descansar. Na altura - terão passado três anos, talvez - alimentei o projecto, de momento apenas adormecido, de criar uma publicação anual tipo-almanaque para a escola, cruzando o modelo do calendário com o do anuário informativo. A oportunidade disipou-se com o passar dos dias e perante a dimensão da tarefa. Pode ser agora o momento de retomar essa ideia.

Voltemos ao "Verdadeiro Almanaque": na verdade, tenho de declarar que o compro anualmente por altura do mês de Agosto, Setembro (por vezes compro mais de um exemplar, que perco), que o recebo com algum agrado, mas que todos os anos actualizo o meu desgosto com o conservadorismo da publicação. O Almanaque é, bem entendido, uma permanência saudosa e caprichosa de uma cultura de tipografia já ultrapassada. O lettering característico de uma composição manual, a montagem que nos evoca a produção artesanal, o espírito rural, vagamente ancestral, tudo isto são características do velho Borda D'Água. Não o estou a ver impresso em papel couché, com recurso às mais avançadas tecnologias digitais. Mas o que não muda perde realidade e credibilidade. O modelo não evoluiu, mas involui alegremente rumo a qualquer coisa sem sentido. Os textos são pior que o verdadeiro kitsch de estimação, marcados por um espiritualismo pacóvio, pelo senso comum a confinar com a supersticção. Era possível fazer melhor, mesmo sem perder aquele charme de publicação popular que aparece a meio do Verão, resistindo numa época que já não é a sua. Terá na mesma os seus compradores, como eu, mas não tem o meu entusiasmo. Arisca-se a morrer com os seus leitores, apesar da tiragem actual rondar os 150.000 exemplares.

O número deste ano custa mais 0,10 € que o do ano anterior - o preço está agora em 1,20 €. O director é novo - já desde o número do ano passado - mas tudo o resto permanece igual ou muito semelhante: Apresentação, índice, Calendário com conselhos de astrologia e de agricultura e jardinagem, colunas sobre a influência da lua na agricultura, Agricultura Biológica, plantas medicinais, páginas sobre a tradição do Espírito Santo em Portugal, Feriados, Feiras e Mercados, dados astronómicos. E o inevitável e profundamente moralista "Juízo do Ano": "Sejam pois os votos do Borda D'Água, consciencializar-nos do Espírito divino, em todo o nosso ser e aura, e vivermos amorosa, sábia e fraternalmente em 2005."

Mas o Verdadeiro Almanaque tem, pelo menos, dois adversários menores em fama e difusão: O Seringador (Reportório Crítico-Jocoso e Prognóstico Diário), da Lello Editores e de João Manuel Fernandes de Magalhães, na mesma onda, e o Almanaque Ribeirinho, do Cristiano Gandra.

De Espanha conheço o prestigiado "Zaragozano" que se desdobra em publicações (tanto quanto depreendo do que já vi) de dimensão variável. Recebi, há anos, um exemplar do Almanaque El Firmamento para o ano de 2002. É um opúsculo em formato de livro, com 144 páginas e muita informação.

domingo, setembro 26, 2004

o problema 

O problema é que ninguém, mesmo ninguém, gostava da Joana. E agora já é tarde.

sábado, setembro 25, 2004

Audioblog ou postar com a voz 



Descobri acidentalmente uma nova forma de blogar. É o Audioblog. É aquilo que parece, segundo o nome. Num dos exemplos do Blogger uma turista explica a sensação de subir à Torre Eiffel. Noutro um viajante fala das peripécias de viagem entre duas cidades americanas. Podemos imaginar um estudante de pintura reflectindo sobre o impacto das visitas ao Museu do Prado, um grupo de amigos viajando pela Europa e relatando a viagem de cidade em cidade. Podemos imaginar isto e o seu contrário.

A Blogger: "Dial the number and then hand the phone to your grandmother so she can tell us what's up. Read a poem a day into your audioblog and tell your lazy friends to subscribe to your blog. Maybe people will start publishing serialized audio versions of classic books using their cell phones and Project Gutenberg. There are so many cool ideas and—with apologies to Frasier Crane, "I'm listening." So what are you waiting for? Get your voice on."

Um ano para esquecer 

O Inimigo Público faz um ano. Também sou daqueles leitores que à sexta-feira começam a leitura pelas notícias que não aconteceram... mas que podiam ter acontecido. Depois a passagem para o "suplemento diário" do jornal satírico é sempre um pouco penosa. O non sense mantem-se mas agora com muito menos piada.

Hoje saiu um albúm com uma selecção do melhor do IP. Exemplos:

Alcoolismo afecta mais pessoas que bebem

Durão prepara Século XXII

Kumba Ialá vai integrar o Grupo dos Forcados de Alcochete

Silly Season já começou e não tem data marcada para acabar

E-Government atacado por vírus ParqueMayer.BWorm

Sampaio nunca esteve indeciso (Mudou foi de decisão todos os dias)

CPLP diz que lista dos mais corruptos foi "comprada"

Bailarinos de Olga Roriz fartos de dar estalos a si próprios

Berardo comprou ecoponto pensando ser arte

sexta-feira, setembro 24, 2004

O País das Uvas 


A actualidade não nos dá descanso. Sempre a andar. Um dia é o ministro que fala oficialmente ao país ansioso, no outro é a ministra que, finalmente, aparece a falar ao país incrédulo. E depois, de longe, entre líderes mundiais, o primeiro ministro cabisbaixo que balbucia algumas frases arrastadas, desta vez ao país resignado. E no meio disto por onde anda o país real? Com o presidente, de Hospital em Hospital, a fazer o diagnóstico do país relativo? Eu, por mim, ainda preferia o País das Uvas.

A Lei da república deve punir quem queime a bandeira? 


(Foto: Eduardo Gageiro)

Deveremos fazer a pergunta sem rodeios: a Lei da república deverá punir quem tenha queimado a bandeira portuguesa em público, ainda que no contexto da manifestação de uma opinião ou de uma posição político-cultural? Vem esta pergunta a propósito de um incidente recente em que um jovem, após queimar a verde-rubra, acabaria detido pela polícia e condenado a 280 dias de serviço à comunidade. Não partilho da causa, na circunstância um protesto contra a realização de corridas de touros no Campo Pequeno, porque sou um adepto "light", digamos que moderado, da festa brava (e no entanto não me reconheço inteiramente nesta linguagem)... Mas tenho uma posição liberal sobre o assunto. Prefiro o direito a expressar uma determinada posição pessoal, na esfera simbólica, à reverência e ao respeito pelos símbolos. Até que me convençam do contrário, julgo que a atitude perante a bandeira, o hino e outros símbolos nacionais, não deve ser extraída do âmbito da liberdade de expressão individual. Mas admito que a questão é espinhosa.

No ano passado Francisco Teixeira da Mota escreveu no Público acerca deste tema. Guardei então o excelente artigo em que o jurista reflectia sobre o assunto, a partir da história de um incidente semelhante ao ocorrido recentemente em Lisboa. O caso passou-se nos Estados Unidos em 1984, quando Gregory Lee Johnson queimou a bandeira americana em protesto pela política da administração de Reagan. Depois de muitas voltas e reviravoltas o Supremo Tribunal de Justiça considerou inconstitucional um diploma que criminalizava o acto de queimar a bandeira. Mas, é claro, a discussão continuou muito animada depois dessa decisão. Vou deixar um excerto longo desse artigo, para proveito e exemplo de quem queira reflectir sobre o assunto. Tenho pena de não ter guardado então o artigo prometido para a semana seguinte, acerca da realidade legal portuguesa acerca da matéria. Aqui vai:

Queimar a Bandeira Nacional!
Por FRANCISCO TEIXEIRA DA MOTA
Sexta-feira, 07 de Fevereiro de 2003

Texas v. Johnson
Em Junho de 1989, o Supremo Tribunal norte-americano, já com dois juízes nomeados por Ronald Reagan, defrontou-se com um complexo caso, em que estava em causa a liberdade de expressão, na sua vertente de expressão simbólica.

Gregory Lee Johnson, em 1984, no final de uma demonstração de protesto contra as políticas da Administração Reagan e das grandes multinacionais, em frente ao Dallas City Hall, tinha regado uma bandeira norte-americana com gasolina e, depois, pegara-lhe fogo.

Foi a julgado na primeira instância acusado de ter violado uma disposição legal do estado do Texas que proibia a profanação de um objecto venerado. Condenado à pena de um ano de prisão e a uma multa de 2000 dólares, Johnson recorreu para o tribunal superior, que lhe deu razão, revogando a decisão do juiz de 1.ª instância e absolvendo-o do crime que lhe era imputado. Considerou o tribunal estadual de recurso que tal disposição legal violava o direito à liberdade de expressão consagrado na 1.ª Emenda à Constituição norte-americana.

O estado do Texas recorreu para o Supremo Tribunal, pedindo que fosse confirmada a condenação de Johnson. A sua condenação justificava-se, segundo alegava, por dois motivos: em primeiro lugar, pelo perigo de causar distúrbios que o queimar da bandeira representava e, depois, pela necessidade de preservar a integridade da bandeira como um símbolo da unidade nacional. A proibição de profanação não era inconstitucional, encontrava-se devidamente justificada por dois motivos ponderosos.

O Supremo Tribunal não entendeu assim. Dividindo-se de uma forma marcante: 5 votos a favor e 4 contra, considerou que, de facto, o diploma que decretava tal proibição de profanação era inconstitucional.

Segundo a doutrina vencedora, relatada pelo conselheiro Brennan, quanto ao primeiro motivo, o perigo de perturbação da paz pública, o estado do Texas não fizera qualquer prova da existência de um perigo efectivo de perturbação da paz pública: Johnson queimara a bandeira no fim da manifestação, não se tinham seguido quaisquer actos violentos e as testemunhas apresentadas pelo estado do Texas que tinham assistido só tinham ficado ofendidas com o acto de Johnson.

Por outro lado, a questão de se querer preservar o símbolo da unidade nacional levanta problemas graves já que põe em causa a liberdade de expressão na sua vertente simbólica: a um símbolo que expressa uma opinião, mesmo que maioritária ou até consensual, não poderia ser oposto outro símbolo, isto é, outra opinião?
Esta proibição o que proibia não era o queimar da bandeira, mas sim o queimar da bandeira com determinado conteúdo expressivo/simbólico. Até porque, num qualquer regulamento estadual, se previa mesmo que fossem sendo queimadas as bandeiras, conforme "envelhecessem". Esse queimar da bandeira não era punido, antes pelo contrário, era incentivado. E cinco conselheiros optaram por entender que a proibição do acto de queimar a bandeira era incompatível com a proibição constitucional.

Tanto a decisão como as declarações de voto são fascinantes pela sua clareza. O conselheiro Kennedy, um "conservador" nomeado por Reagan e que votou a favor da inconstitucionalidade da proibição, começou deste modo a sua declaração de voto: " A dura realidade é que, por vezes, temos de tomar decisões que não gostamos. Fazê-lo porque entendemos que são correctas, no sentido em que a lei e a Constituição, como nós as vemos, obrigam a tal resultado..." Para Kennedy, "... a bandeira é uma constante na expressão das crenças que os americanos partilham, na lei, na paz e no facto de ser a liberdade que sustenta o espírito humano" e, por isso mesmo, era "confrangedor, mas ao mesmo tempo fundamental" que fosse a própria bandeira que protegesse, "aqueles que a desprezavam".

No seu voto de vencido, o conselheiro Presidente Rehnquist, pelo seu lado, despreza o lado simbólico como expressão do acto de queimar a bandeira considerando-o antes "um grunhido inarticulado ou um rosnar", que não contém em si qualquer ideia, mas que só serve para antagonizar terceiros. Johnson tinha gritado os "slogans" que quisera e manifestara-se da maneira que quisera e só foi punido pelo acto de queimar a bandeira, que não era qualquer forma de expressão no sentido protegido pela Constituição. Para os conselheiros Rehnquist, White, O'Connor e Stevens a proibição do estado do Texas não era inconstitucional e Johnson devia ter sido condenado.

Não se pense que esta decisão não provocou grande celeuma nos EUA, onde quase todos os estados tinham proibições semelhantes, com debates acesos e com a aprovação pelo Congresso de um novo diploma federal de proibição do queimar a bandeira. Diploma que foi "chumbado" pelo Supremo Tribunal pelas mesmas razões. Mas ainda agora se discute a aprovação de nova legislação federal que permita, de novo, a proibição do queimar da bandeira.

quinta-feira, setembro 23, 2004

Arquivo morto (5) 

Continuo a desenterrar notícias do ano passado, da década passada, do século passado. Ainda me impressionam, apesar de algumas se terem tornado relativamente mais ridículas do que no momento em que foram redigidas e publicadas. É o lento movimento de deriva de todas as coisas em direcção a nada de relevante. Um dia os factos deram origem a uma história, depois passaram a substãncia de arquivo, dentro de momentos serão apenas lixo. Desta vez apanhei três papéis (ainda hesitei).

Vidente não prevê o efeito funesto da sua própria previsão - É o que eu concluo desta história. Um romeno suicidou-se depois de uma vidente ter previsto a sua morte ou a do seu filho dentro de poucos dias. Mircea Teodorascu, de 51 anos, resolveu então suicidar-se para salvar a vida do filho de 23. Fechou-se na cozinha e empunhou uma grande faca com que se golpeou. Morreu pouco depois no hospital. A vidente de 71 anos, que não previu as consequências da sua previsão, rejeitou qualquer responsabilidade na morte, alegando que os clientes interpretam as suas respostas "conforme o seu próprio estado de espírito". Prever o futuro, a ser possível, permitiria manipulá-lo convenientemente. Por isso não acredito em videntes. (DICA da Semana, 30-1-2003)

Etarra reformado - Não se trata de uma notícia mas de um eloquente cartoon de Forges que publica regularmente no El Pais. Um quadro com um idoso sentado no vazio, só vazio à volta e o título: 2025... Nada por cima dele, nem por baixo, nem ao lado, à excepção do texto: "Etarra jubilado en el parque (que NO se pudo construir por sus acciones), viendo jugar a los nietos (que NO tuvo por los 30 años de cárcel), con otros niños (que NO pudieron nacer pos sus asesinatos)." Definitivo, como a morte. (El Pais, sem data)

Previde Silva, escravo do consumo - Brasileiro, 35 anos e habitante de S. Paulo. Foi detido pela polícia no metro da cidade a anunciar a venda da sua filha recém nascida. Pedia 760 contos, coisa pouca. Tinha visto na televisão uma reportagem garantindo que alguns ricos estariam dispostos a pagar para ter uma criança. Ele e a mulher, Marli Rosária, decidiram tentar o negócio. Acabou mal. (Público, 11-4-1996)

portokyoto 

Em plena leitura. portokyoto andava por aqui, à minha volta, livro emprestado, sentia uma obrigação de lê-lo já. É misteriosa esta escrita limpa e enxuta, sem grandes elaborações literárias. Aliás, segundo consta Pedro Paixão denega frequentemente a sua condição de escritor. O personagem do livro, depois de uma passagem por NY e pelo Porto, perdendo sempre em cada lugar alguma coisa de profundo e de essencial, acaba de chegar a Kyoto. Ando pegado ao livro desde ontem à tarde. É um pouco terrível (não apenas empolgante) mergulhar na vida de alguém para quem nada faz sentido, ou nada guarda sentido.
Mais talvez aqui.

quarta-feira, setembro 22, 2004

Primárias 

O debate desta noite foi praticamente uma reposição das discussões anteriores. Mas o verdadeiro exercício de democracia que ele supõe - três candidatos a líder de um partido discutindo aquilo que os aproxima e separa - é verdadeiramente motivador. Os partidos ou se abrem aos eleitores ou deixam de existir entre eleições. Sócrates, Alegre e João Soares, nem sempre particularmente inspirados, souberam, apesar dos vícios, chegar aos eleitores e não apenas aos militantes. Não gostei do debate desta noite, mas gostei destas primárias à portuguesa.

terça-feira, setembro 21, 2004

Bebo & Cigala 

A :2 passou ontem de madrugada um concerto gravado no verão passado em Mallorca, com uma constelação improvável de duas estrelas negras da música: Bebo, ao piano e El Cigala, na voz.
Bebo Valdés é um mestre do jazz latino; pianista, compositor e director musical, cubano de nascimento, vive em Estocolmo desde 1960 e durante 15 anos tocou piano numa cadeia de hotéis. Diego El Cigala é um dos nomes da actual cena flamenca. Nasceu em Madrid há 36 anos e afirma-se cada vez mais como um cantor aberto a experiências inovadoras. Este disco - Lágrimas negras - é um bom exemplo. A voz de um cantor encontra-se com a imaginação de um pianista, ignorando géneros e cânones. O programa de ontem revelou esse breve milagre. Um flamenco, acompanhado pelo pianista cubano, cantando Tom Jobim e Vinicius de Moraes. É possível encontrar a perfeição nestas coisas incompletas; flamenco em estado puro decantado num torvelinho de piano em estado líquido, no escuro da noite.
"Es una extraordinaria amalgama en la que la canción antillana suena a cante, y al revés", escreveu a propósito o poeta Ángel González.

Café cantante en Almada 


Assunción Pérez "La Choni", Vicente Gelo e Raul Cantizano

De acordo com o livrinho que comprei em 1996 em Toledo, perto da praça Zocodover - El Flamenco, Alicia Mederos, Acento editorial, Madrid, 1996 - por apenas 500 ptas: "Tales fueron la fuerza y el arraigo que tomaron estos cafés que en algunos de ellos se llegaron a lidiar novillos." Nos tempos que correm, tão propícios ao moralismo, é difícil imaginar estes ambientes vitalistas, esperpênticos, sem recear o pior. Mas os cafés cantantes foram sobretudo espaços onde surgiram os primeiros profissionais do flamenco. A partir dos finais do século XIX - em 1842 terá surgido o primeiro, em Sevilla - consolidou-se um circuito profissional de salas e tablaos para a fruição do flamenco, por parte de um público urbano ávido, que garantiria a emergência de grandes nomes e a sua sobrevivência artística. Consta que Silverio Franconeti, o mítico cantor cujo canto profundo e rutilante podia matar um pássaro em pleno voo, também possuiu um desses cafés cantantes.

Foi essa tradição que o pequeno grupo veio trazer a Almada, no sábado à noite ao Forum Romeu Correia. Semblanza Flamenca é o nome da formação que reune três figuras da arte: no baile Assunción Perez "La Choni", na guitarra flamenca Raul Cantizano, no canto e nas palmas, Vicente Gelo. Alegrias de Cádiz, uma sevillana no final para agradecer ao público, rumbas, cantos de ida e vuelta, bulerias, fandangos, completaram o ramalhete do breve espetáculo de canto, baile e guitarra. Artista jovens, na casa dos trinta anos, souberam deixar com o público uma imagem de sobriedade e parcimónia. Quem esperava a flamencada habitual, muita pandeireta, muito revuelo e muito jaleo, assitiu a um espectáculo simples, económico, que nunca entusiasmou verdadeiramente mas que valeu a pena e aguça o gosto. Infelizmente em Portugal não há público a sério para os grandes nomes. Nunca teremos entre nós Enrique Morente ou Chano Lobato, Jose Menese, La Paquera, Tomasa Guerrero, Rancapino, El Agujetas. Duquende, Miguel Poveda (que actuou há oito anos para vinte pessoas no teatro da Trindade), Jose Merce, Niña Pastori, Carmen Linares, Estrellita Morente, vieram nas não deixaram público.

sábado, setembro 18, 2004

"Nalguns casos é um eufemismo dizer-se que começou o ano lectivo."
Pedro Santana Lopes (Lusa, 16/09/04)

O que é que isto quer dizer?
Deixo algumas sugestões ao PM (com o devido respeito por ele e pela língua portuguesa):
- O ano lectivo começou em condições pouco precisas.
- O ano lectivo arrancou em condições precárias.
- O ano lectivo começou gradualmente por todo o país.
- O ano lectivo arrancou de forma incompleta.
- O ano lectivo começou de forma desigual.

Ou:
- O ano lectivo ainda não começou.

sexta-feira, setembro 17, 2004

Polícia dos Costumes ataca em Viseu 


(foto: Correio da Manhã/ André Amaral)

Em Viseu dois agentes da PSP local entraram numa livraria, pediram um livro e depois exigiram ao livreiro que o retirasse da montra. A notícia é do Correio da Manhã e merece o destaque que lhe foi dado. É o homem que, desta vez, mordeu o cão, não o contrário. De acordo com a notícia os dois agentes explicaram ao responsável da livraria que tinha havido uma denúncia verbal, alegadamente "porque [a exposição do livro] não se enquadrava na cidade". O caso terá mesmo motivado uma participação ao Ministério Público. E como é que se chama o livro, afinal: O Amor é Fodido? Não. A Cona de Irene? Também não. Heliogábalo? De modo nenhum. Mulheres? Bah... Chama-se: "As Mulheres não Gostam de Foder". Foi publicado pela editora Polvo e é da autoria do escritor espanhol Alvarez Rabo. Trata-se na verdade de um ensaio em banda desenhada. O PCP equaciona a possibilidade de chamar o Ministro da Administração Interna ao Parlamento para esclarecer o caso, que também já mereceu a condenação da Associação dos Editores.

Eu, que não sou de Viseu, nem sou mulher, ocorre-me perguntar:
1. O que dirão, de tudo isto, as mulheres de Viseu?
2. E os homens?
3. Como sabem os dois agentes da PSP que o livro "não se enquadra na cidade"? Onde estão os estudos que provem a tese? Perguntaram alguma coisa ás mulheres de Viseu?
4. Como reagirá a PSP do resto do país?
5. A rapidez com que o caso chegou ao Ministério Público obriga-me a repensar o preconceito muito generalizado de que estes trâmites costumam ser muito demorados e excessivamente burocratizados. (Esta não é uma pergunta)
6. Como é que os agentes pediram o livro em questão, caraças... o "As Mulheres não Gostam de Foder"? Apontaram para a montra?
7. Se eu me queixar em Viseu de que na minha rua alguém atira regularmente lixo para o chão, com prejuízo dos passantes, ou bate despropositadamente numa criança todas as quintas feiras de manhã, o processo chega assim tão depressa ao Ministério Público?
8. Um quiosque manhoso, a caminho da escola e do emprego, que exiba e venda revistas pornográficas (não é uma crítica velada e moralista ao género) teria o mesmo problema com a autoridade que teve esta livraria (provavelmente a única digna desse nome na cidade)?
9. Qual terá sido a primeira reacção da Ministra da Cultura, antes de pensar nas eventuais e pouco prováveis consequências politico-parlamentares do caso, ao ouvir ou ler o relato do incidente?
10. Quantos exemplares do livro do Rabo se venderam já em Viseu?
11. O nome do escritor - Alvarez Rabo - daria um bom pseudónimo, caso fosse necessário?
12. Em que parte do país se registará a próxima actuação da Polícia dos Costumes?

Arquivo morto (4) 

Devia haver um nome para isto; viver daquilo que em tempos recuados foi a actualidade. Ler as notícias de há dez anos, em folhas de papel cinzento que provocam alergias na pele. Ler nesses papéis antigos qual era o futuro do passado, porque eu guardava sobretudo as revistas e suplementos onde se faziam balanços e se projectava o futuro próximo. Propriamente hoje. Descobri mais estas:

Professor indemnizado por perder a voz - A agência Reuter enviou para as redacções e o "diario independiente de la mañana" - vulgarmente El Pais - deu a notícia em 33 palavras: "El profesor británico Frances Oldfield, de 55 años, ha ganado el derecho a ser indemnizado por perder su voz tras 17 años de impartir clase, en lo que ha sido considerado un acidente laboral." Em Portugal perde-se a voz a clamar justiça, mas ninguém é indemnizado por isso. (El Pais, ??-??-????)

Impacto das anedotas de Cícero (uma história mal contada) - Os jornais deram muito ênfase ao episódio, como se fosse uma anedota irresistível e de certo modo terá sido notícia apenas porque foi possível apresentá-la como anedota. Se a memória não me falha este ruído veio com a campanha eleitoral para as eleições em que Bill Clinton acabaria por ser eleito frente ao pai Bush. Clamava-se na altura contra o despesismo dos conservadores e deram-se exemplos de investigadores que gastavam milhares de dólares a estudar o diâmetro do rabanete ou a falsa simetria da pegada humana na areia da praia. A notícia do Público, aí por volta de 1992, diz num parágrafo: "Além da categoria "obscenos", há a dos "absurdos", como o caso do investigador da Universidade do Illionois que, em 1981, recebeu do NEA 22 mil dólares para estudar o impacto das anedotas de Cícero na Itália e França renascentistas". Não vejo onde está o absurdo de se estudar tal fenómeno; parte da piada deste exemplo resulta de se retirar a história do seu contexto, descrevendo-o a partir de fora com uma linguagem que omite mais do que esclarece. Faltaria estudar agora o sucesso destas charges e o seu verdadeiro impacto no sentido de voto do americano médio. (Público, 16-3-????)

Universidade livre em plena rua- Envio Botta era mendigo profissional em 1995, nas ruas do bairro romano de Trastevere. Chamavam-lhe "il prefetto" e era muito culto e industrioso. Tendo constatado que "devido à situação política italiana, os aspirantes a vagabundos aumentavam a olhos vistos", resolveu fundar a Universidade da Rua para diplomar pedintes. As aulas decorriam numa das praças do bairro entre as 19.00 e as 24.00 e a propina valia 30 mil liras (três contos). Os primeiros alunos formados sairam desta Universidade depois de frequentar aulas teóricas e práticas de Gramática do Calão, Indigência Activa, Sociologia da Marginalização, Geografia do Comer, Lavar-se e Dormir sem Gastar um Tostão, etc. Envio Botta, que foi cozinheiro antes de ser vagabundo, era o reitor desta Universidade que contava com mais cinco professores. Ele leccionava a Teoria da Mendicância pelo Método Criativo, a qual ensina a citar uma frase de um autor clássico sempre que se estende a mão à caridade. Botta era um apreciador de Shakespeare. (Expresso, 23-12-1995)

quinta-feira, setembro 16, 2004

O Começo das Aulas 



As aulas começaram hoje em todo o país... e eu sou a rainha de Inglaterra!

Rosto 

(Nerea Barrios, actriz e declamadora)

Este rosto persegue-me.

Novas no Cervantes 

Recebi por correio, como acontece regularmente, sem falhas, o Programa das Actividades Culturais do Instituto Cervantes de Lisboa para os meses de Setembro a Dezembro. Artes Plásticas, Cinema, Fotografia, Dança Contemporânea, Literatura e Recitais de Poesia, Música, são alguns dos vectores da actividade do Instituto em Portugal. Destaco o Recital de Poesia a 13 de Outubro (18.30) no espaço do Instituto Cervantes, sobre poesia de Eloy Sánchez Rosillo, traduzida para a língua portuguesa por José Bento.
Sugiro uma visita ao sítio do cervantes; e já agora vale a pena ouvir as palavras de Eduardo Mendoza, numa conferência em Abril, no Cervantes de Nova York acerca das cidades como personagens literários.

Arquivo morto (3) 

Descobrem-se coisas espantosas quando tentamos deitar papel no lixo. A ideia é desfazermo-nos de uma quantidade razoável de folhas amarelas e cheias de pó, não é perder mais tempo a lê-las e guardá-las no último instante, desviando-as do saco preparado para as receber. Os meus arquivos resistem ao furor justicialista com que ando a abrir as caixas de papelão; retive estas notícias.

"Menina de 7 anos grávida pela segunda vez" - Esta peça do Público, escrita pela jornalista Tereza Coelho, deu-me forte, quando a li há 10 anos. Primeiro parei os olhos no título, depois mergulhei no texto, como provavelmente fizeram todos os leitores daquela página da secção de cultura. Afinal a jornalista escreve logo: "É sobre o concerto de Donovan na quarta-feira em Lisboa, mas com outro título ninguém lia. O S. Luís estava cheio, mas com outro título ninguém lia na mesma porque as pessoas interessadas em saber com quem se parece actualmente Donovan estavam todas lá." Achei genial este estilo casual levemente áspero e utilizei-o frequentemente como exemplo de que a criatividade não pode repetir as suas receitas. O caso da "menina de 7 anos" ultrapassa tudo o que se pode esperar de uma notícia quando lemos que ela repetia a gravidez pela segunda vez. Não uma - o que seria já um fenómeno - mas duas vezes, o que só passa por verdade porque vem logo no título. Depois o anti-clímax da revelação do concerto. Toda a notícia tem os seus motivos de análise. A descrição do espectáculo é servida com frases secas, curtas, quase inopinadas ("... aos homens calhava fazer lá-lá-lá", etc). O resultado é mortal para o prestígio e para a seriedade do cantautor britânico. Eu só recuperei o nome de Donovan quando recebi em casa, há anos, um CD de homenagem a Federico Garcia Lorca em que o autor tem uma prestação asseada. Para acabar, a jornalista volta à carga: "Em vez de "Menina de 7 anos grávida pela 2ª vez" esta notícia podia chamar-se Zeitgeist. Era mais piroso, mais adequado, e mais cultural." (Público, 18-6-1994)

Juízes de direito em união de facto
- Dois juízes que vivem maritalmente, isto é, em união de facto, podem integrar um colectivo? A dúvida sobre este aspecto esteve na base de um pedido de nulidade do julgamento do Pelotão de Segurança da PSP do Porto, entregue no tribunal de Vila Nova de Gaia, no ano de 1995. O advogado de um dos arguidos, entretanto condenados, alegava que os juízes "vivem maritalmente, em união de facto, em situação análoga à dos cônjuges". O magistrado responsável pela avalição do pedido de nulidade acabou por indeferir essa pretensão, porque, justificava ele, "na globalidade do nosso sistema legal, o casamento e a união de facto ainda são situações distintas, com tratamento, ne generalidade dos casos, diverso". A questão foi depois remetida para o Tribunal da Relação. (Público, 31-12-1995)

Conselho de Ministros em verso - O Conselho de Ministros votou dois diplomas e o Gabinete de Imprensa do Ministério da Agricultura divulgou-os em verso. O chefe de gabinete explicou depois que o ministro da Agricultura, Pesca e Alimentación, Luis Atienza, aprovou a ideia, considerando que um pouco de humor ajuda a trabalhar melhor. Os decretos eram sobre intercâmbios e importação de esperma animal e análise de alimentação destinada a gado. Segundo o jornalista do El Pais, Santiago Hernández, o chefe de gabinete é conterrâneo de Lope de Vega, mas ao que consta, nem este poeta copioso nem mesmo Gôngora se terão atrevido por temas tão bucólicos e especializados. A ministra da Cultura, Carmen Alborch, elogiou a altura poética do documento diante de todo o conselho. Restam os poemas para a posteridade.
Sobre a comida para gado:

"El Consejo de Ministros
en su reunión de hoy día
ha aprobado dos decretos
para nuestra agronomía.

El primero de los dos
trata de comida y piensos,
de cómo deben de hacerse
para que sean inmensos
los animales de granja
que se alimenten con ellos.

Con buenas materias primas,
como quisiera cualquiera
que aun no comiendo esos piensos
buen estómago tuviera.

Que puedan analizarse
con técnicas muy modernas
para tener la certeza
de que sean buenas piernas


las de cordero y de vaca,
las de pollo y de ternera,
las pechugas y los lomos
y cualesquiera otra pieza."


E sobre o decreto relativo ao intercâmbio de esperma:

"En el segundo decreto
que el Consejo hoy aprobaba
se incluyen las condiciones
de eficacia comprobada


que ha de cumplir el esperma
bovino de la cabaña
que quiera cruzar fronteras
de Europa comunitaria.

"Para tener descendencia
de carneros y de ovejas
se acostumbraba a dejarlos
en rebaños de parejas.

De esta manera primaria
ellos solos por costumbre
perpetuaban la especie
con contento y mansedumbre.

Quiere la modernidad,
para mejorar la raza,
que las parejas se escojan
con batas entre la paja.

Que no decidan los bichos
según su pobre albedrío,
sino los especialistas
aunque todo sea frío.

Porque de frío se trata
y de la conservación
que para ser primaria
cumple la eyaculación."


(El Pais, 26-11-1994)

quarta-feira, setembro 15, 2004

Arquivo morto (2) 

Continuo a escolher papel na varanda de trás. O barulho é constante, a devassa e o pó também. O calor faz-me suar como há muito não acontecia porque tenho vivido longe do sol a pique. Mais folhas de jornal, amarelecidas e sujas do pó que chega a todo o lado. Com o tempo as folhas ganham aspereza e as notícias perdem vigor.

Loucos em tertúlia - Todas as 5ª feiras Leopoldo Maria Panero, poeta e narrador, filho e irmão de poetas, deixa o manicómio de Mondragón, na Guipúzcoa, para se dirigir ao estúdio da cadena Ser. Minutos depois estará no ar com outros doentes mentais, numa tertúlia radiofónica chamada La Ventana, em que são abordados temas da actualidade. Juan Carlos Colchero, em Sevilla, Begoña Mateos, Bilbao, Santiago Martínez, Santander e José María Párraga, em Murcia, são os seus outros companheiros. Todos com problemas psiquiátricos - esquizofrenia, esquizofrenia paranóica, psicoses. O convite partiu de Javier Sardà, um homem da rádio que reconhece que a "loucura não é idílica, mas uma coisa bastante triste". Sardà concebeu o programa a partir do pressuposto de que uma tertúlia poderia resultar do confronto das subjectividades de pessoas que não são tidas na conta de normais. O programa, em que é frequente falar-se das terapias de electrochoque aplicadas aos seus participantes, constitui também, em si mesmo, uma forma de terapia. (El País, 12-2-1994)

Nasce uma lenda cigana - O El País dá notícia da morte de Jose Monge, conhecido como Camarón de la Isla, falecido no dia anterior em Barcelona. O matutino espanhol dedica ao acontecimento três páginas e o editorial. Camarón morreu de cancro de pulmão, aos 42 anos em Badalona, depois de ter passado as últimas semanas de vida viajando de hospital em hospital. Enrique Morente, outro grande nome do flamenco, lamenta a morte do homem que revolucionou o canto, desde a pureza absoluta. Félix Grande escreve num depoimento que "el arte de Camarón era un aullido de la filosofía, un monumento a la condición humana, un obelisco a la derrota". Num dos seus últimos discos Camarón cantava, como um mestre absoluto do canto: "Dicen de mí que me amenaza el tiempo./ Dicen de mí que si estoy vivo o muerto./ Y yo le digo, le digo./ Mientras mi corazoncillo hierva/ yo venceré a mi enemigo." (El País, 3-7-1992)

O Prado no Paseo de Gracia 


Estava em Barcelona, juro que estava. Separei-me da família por alguns momentos. Procurei um lugar tranquilo sob o portal de entrada de La Pedrera. Lancei o olhar sobre alguns obstáculos próximos e para além deles descobri o Mediterrâneo, logo ali, imenso, tranquilo, com o sol a declinar como num filme. Chorei convulsivamente diante daquele espectáculo como nunca tinha chorado em sonhos de viagens (e vão muitos). Estava na véspera de regressar a casa e chorava como se expiasse todos os meus pecados. Depois consegui retomar... a sobriedade, atravessei a rua e entrei no Museu do Prado.

Pesadelo recorrente 


(do blog Giz na Tola)

A dura realidade frequentemente é precedida pelos nossos piores pesadelos.
Este bem poderia ser o meu pesadelo recorrente de finais de Agosto, princípios de Setembro. Os meus terrores são sobretudo em torno da questão de chegar sempre atrasado para qualquer coisa definitivamente importante. É claro que a história do atraso é apenas sublimação; no sonho resolve-se tudo facilmente, simplesmente não vou e pronto. Este ano os pesadelos mal afloraram aos meus sonhos. É o hábito ou a experiência, conforme se queira.

Os internautas da blogosfera 

Indústrias Culturais é um blog mantido por Rogério Santos, professor de Jornalismo e Comunicação, a par de outros sítios de conteúdo semelhante. O seu âmbito temático é muito alargado: "Pesquisas e leituras no domínio das indústrias culturais (imprensa, rádio, televisão, internet, cinema, vídeo, música e livros)." O autor afirma que entrou na blogosfera a 26 de Dezembro de 2002 e a partir de Lisboa.
Através deste cheguei ao MEDIAXXI onde acabei por encontrar um curioso inquérito acerca da identidade deste novo género, o weblog. Rogério Santos pediu a diversos autores de blogues e a três académicos da área da comunicação que definissem os blogues. Manuel Pinto (Universidade do Minho), Beth Saad Corrêa (Universidade de São Paulo, Brasil) e José Luis Orihuela (Universidade de Navarra, Espanha) produziram depoimentos que podem ser lidos ainda naquele sítio.
Este último investigador contribuiu com o mais interessante dos três depoimentos académicos: "El poder de publicar se extiende a los lectores, y los medios tradicionales pierden el privilegio de ser los intermediarios exclusivos en los procesos de comunicación pública."

terça-feira, setembro 14, 2004

Private joke 


Afinal sempre existe um Hotel Garcia D'Orta neste mundo e não apenas na minha imaginação. Não fica sobre as margens do Tejo mas à beira de Castelo de Vide. Só duvido que tenha um corpo clínico tão numeroso e eficiente como o outro. É só uma blague pouco feliz, nada mais. Aqui fica a foto para prova.

Arquivo morto (1) 

Estou a destruir uma parte dos meus arquivos. A parte que é feita de irrelevâncias: esboços de trabalhos, maquetas, folhas manuscritas, imagens sem legendas, catálogos de agências de viagens, notícias de jornais. Naturalmente continuo a guardar para uma emergência improvável os preciosos bilhetes de viagens fora do país, talões de comprar em férias, planos de cidades, guias turísticos cheios de publicidade comercial, entre outros papéis a que prevejo pelo menos mais um ano de vida - até à próxima razia.
Descobri numa caixa uma mão cheia de recortes, selecionados de acordo com a estranheza e a fantasia que me provocaram quando os li. Aqui fica uma lista breve:

Placenta estufada - Na província de Sichuan, na China, um restaurante particular serve placenta estufada, para além dos pratos de serpente e de burro. O produto é fresco, pois é servido pelo hospital local. O preço: 50 yuans (cerca de 4,95 €) (Público, 15-1-1994)

García Escalero, assassino em série - Um mendigo de Madrid foi preso e acusado de ter assassinado 15 pessoas, segundo afirmou empurrado "por uma força interior". O psicopata, que possui no braço uma tatuagem que representa uma urna azul com o dístico "Nasceste para sofrer", actuou durante 7 anos, sem levantar grandes suspeitas. Em tempos acorria ao cemitério de Nuestra Señora de la Almudena para profanar túmulos. Tinha 39 anos e uma inteligência bastante limitada. (El País, 29-1-1994)

Morte em Directo - A SBT, cadeia de televisão privada brasileira, foi condenada pelo tribunal a pagar 1,2 milhões de dólares à família de uma jovem cujo suicídio foi transmitido em directo. O drama teve início com um telefonema da suicida a um dos programas especializado em violência urbana, anunciando que se ia matar. A produção enviou uma equipa com o pivot até ao local onde a jovem se encontrava, a tempo de registar o seu suicídio. Depois acorre a casa da família para recolher as reacções dos pais. Dias depois novo directo do funeral da rapariga. O caso acabou em tribunal, com a condenação da SBT que reclamou "liberdade de Imprensa e guerra de audiências", perante um juiz insensível às suas alegações. (DN, 2-10-1994)

segunda-feira, setembro 13, 2004

Integrar, assimilar ou tolerar? 

As imigrações são uma das grandes questões dirigidas, nos tempos que correm, ao coração do mundo moderno. Há outras questões, mas esta interpela cada vez mais as nossas convicções e a nossa capacidade de nos adaptarmos a novas situações sociais. Vem isto a propósito do artigo de ontem de Sir Ralph Dahrendorf, no Jornal Público. O autor é um intelectual reputado, que não pode ser acusado de populismo. Mas as suas reflexões orientam-nos para um cenário preocupante, perturbadoramente conduzidas pelo bom senso. O artigo - Para Além da Assimilação - coloca em causa, mais do que as políticas reais, a capacidade de assimilação das sociedades ocidentais para acolher grandes contingentes de emigrantes em fuga do mundo subdesenvolvido. A assimilação, o multiculturalismo, segundo ele, falharam e não podem fornecer soluções estáveis. Qual a solução?

"Qual será então a alternativa à assimilação? A "salada" do chamado multiculturalismo não é uma verdadeira alternativa, porque não fornece o elemento necessário para manter as comunidades unidas. Todos os ingredientes são mantidos separados desde o início.
A única alternativa viável de que temos exemplos talvez seja a de Londres ou Nova Iorque. A principal característica desta alternativa é a coexistência de uma esfera pública comum partilhada por todos e um considerável grau de separação cultural na esfera "privada", nomeadamente nas áreas residenciais. O espaço público é multicultural no que diz respeito ao passado das pessoas, mas é governado por valores pré-estabelecidos, mesmo uma língua comum, deixando as suas vidas privadas numa espécie de guetos - para usar uma palavra feia."


A distinção entre a esfera pública e o domínio privado, já teorizada por Kant, num ensaio admirável, merece a nossa reflexão. Mas, tal como é afirmada, parece um recuo a que nos resignamos depois de abandonadas as posições iluministas do acordo entre homens de diferentes credos. Será mesmo impossível, numa sociedade democrática aberta à livre iniciativa de cidadãos livres, esperar mais do que a simples tolerância mútua?
E na escola? Como reagir à variedade étnica que constitui o nosso público escolar? Falar apenas em tolerância, desistir do projecto de um convívio afirmativo entre culturas, parece-me uma má pedagogia. Acredito que é possível, entre jovens, aproveitar a variedade étnica, linguística, cultural e religiosa, como uma oportunidade de aprendizagens e como uma interpelação positiva. Claro que é preciso trabalhar e muito nesse sentido, certamente a contra corrente, porque frequentemente os sinais exteriores são contrários. Mas admito que a escola é o lado mais visível desse espaço público a que Dahrendorf se refere e onde aceita os desafios da multiculturalidade.

"Se formos forçados a abandonar a esperança da assimilação, teremos de concentrar os nossos esforços na criação de um espaço público para o qual todos contribuam e onde todos se sintam bem. Idealmente, deveria ser um espaço público em expansão, porque, em última análise, o elemento de unidade numa sociedade moderna é a garantia da liberdade dos seus cidadãos."

Vale a pena uma leitura integral do artigo.

Sonho húmido 


A ideia tem o seu quê de romantismo e de generosidade. "Libertar" um livro "in the wild" depois de o termos lido, como se se tratasse de uma pessoa a quem não queremos aprisionar na nossa amizade, dá um sentido inesperado à relação com os livros. De leitor em leitor os livros ganham uma biografia e não podem permanecer indiferentes a essa nova história que vão segregando de mão em mão. A posse de um livro, ainda que temporária, é já por si uma história e um cruzamento de circunstâncias e de contingências que não se repetem. Um livro que circula de mão em mão, como acontece nas redes clandestinas de leitura de livros proibidos em Cuba, não pode deixar de ser lido também na acumulação das suas circunstâncias políticas. Hoje já não encaro esse movimento de leitores alternativos, a que deram o nome feliz de Bookcrossing com a boa vontade de antes, sobretudo não me agrada a superficialidade da vida social gerada pelo BC, o ruído objectivamente adverso à leitura que essa gente urbana produz. Por isso achei imensa graça ao brevíssimo post de Pedro Mexia, no Fora do mundo, acerca do Bookcrossing. Vale o clic.

domingo, setembro 12, 2004

Um jornal para todo o condomínio 

É uma blague pouco inspirada, já sei. Mas o Expresso é um jornal que eu leio só algumas semanas depois de publicado e quando oferecido. O meu amigo Pessoa acredita que é uma leitura aconselhável para quem está a convalescer de quase ter morrido. Não sou ingrato, por isso agradeço-lhe sempre. Acho que a edição semanal bem poderia ser adquirida por um condomínio de média dimensão e dividida de acordo com os interesses dos condóminos; o caderno principal e a revista Actual poderiam circular por todos, porque o seu interesse é transversal. É uma ideia. Assim comprava.

O poeta declamatório 

Outra forma de ler é passar os olhos velozmente pelas linhas à procura de uma citação, de um episódio, de uma referência. A curiosidade e a memória de leitor escrupuloso, quando se trata de um livro já lido, acabam por trair-nos e sempre nos demoramos numa anedota, numa história, numa página. Foi o que aconteceu com a autobiografia de Pablo Neruda em que decidi procurar uma breve referência, correndo demoradamente o livro de uma ponta à outra. Parei algumas vezes para reler. A minha leitura do livro, na edição da Europa-América, há anos, foi verdadeiramente empolgante. Hoje, quando o folheio, não consigo evitar uma certa frieza em face da prosa do poeta chileno. Não creio que a dimensão de um poeta e o seu valor se reduzam simplesmente a um adjectivo. Mas o tom declamatório de megafone, o bombardeamento de metáforas a que os leitores são sujeitos constantemente, afastam-me afectivamente desta poesia. O mesmo na prosa. O livro de Neruda, - "Confesso que vivi" - é belo e generoso, mas a sua ingenuidade ideológica, para não dizer parcialidade, num tempo em que era difícil não ser parcial, torna-o muito datado, por vezes quase ilegível. Anoto uma passagem breve, entre tantas, que me deixaram objectivamente por fora: "Está-se a trinta graus abaixo de zero em Moscovo, estrela de fogo e neve que se situa como coração aceso em pleno peito da terra./ Olho pela janela. Há guarda de soldados nas ruas. Que se passa? Até a neve se deteve ao cair. Enterram o grande Vishinsky."
Quanto ao mais, confesso, que estas páginas fazem demasiado parte da minha memória de leitor para que as possa renegar. Podemos renegar uma leitura que tenhamos feito um dia?

sábado, setembro 11, 2004

O acontecimento forcluído 

O termo "forclusão" é da psicanálise e consiste num "mecanismo psíquico de rejeição das representações insuportáveis, antes mesmo de se integrarem no inconsciente ao indivíduo" (Houaiss). Segundo Lacan esta recusa liminar da realidade estará na origem da psicose. Seria tentador ignorar, por exemplo, que a nossa realidade actual se faz de mensagens diárias e relatos de terror e ameaça. Os actos terroristas, em que uma violência desproporcionada e arbitrária faz vítimas inocentes à margem de qualquer protocolo imaginável, são diários. Isso não nos surpreende. Claro que isto não é o resultado do 11 de Setembro nem a consequência da guerra sui generis desencadeada pelo ocidente, mas apenas a continuação previsível daquele acontecimento.
Em Impasses, de Fernando Gil e Paulo Tunhas, podemos ler logo na apresentação, um curioso parágrafo que não resisto a transcrever: "O seu efeito de real [do 11 de Setembro] - se assim se pode dizer, as palavras faltam - foi tal que, ou nos transformou, ou nos obrigou ao que Freud chamou forclusão: uma rejeição absoluta para fora da pessoa. O acontecimento forcluído não é recalcado nos abismos da consciência (recalcar implica dar guarida dentro de si, ainda que para esquecer), ele é a tal ponto insuportável que se torna necessário expulsá-lo pura e simplesmente, como se nunca tivesse existido. Para onde vai então? Freud e depois Lacan explicam que reaparece na realidade, num modo distorcido e alucinado. Literalmente, a forclusão consistiu em ter-se querido "provar" que nenhum avião embateu contra nenhuma torre. Houve até um livro inteiro, publicado salvo erro no Cairo, a pretendê-lo. Menos psicoticamente, ela consiste em recusarmo-nos a integrar em nós - no nosso pensamento, nos nossos afectos - a realidade do assassinato terrorista. Sabe-se que existiu, remotamente, mas sem efeito de real. Desliza sobre nós sem nos tocar. Mas não vemos para onde o forcluído retorna - o que poderia alimentar uma outra interpretação, mais simples e mais cínica: o negacionismo da monstruosidade visa apenas proteger o sossego do espírito. Graças a uma livre decisão. A ser assim, o 11 de Setembro só poderia afectar quem estava já predisposto para tal." (15 - 16)

sexta-feira, setembro 10, 2004

Aniversário 9/ 11 

O Terrorismo global é a apoteose mediática do facto consumado à escala local. Mal comparada, a guerra é apenas uma discussão de vida e de morte.

quinta-feira, setembro 09, 2004

Selecção bipolar 

Temos a selecção que merecemos (e os políticos também, mas isso já não é futebol). Uma selecção bipolar. Fomos vice-campeões da europa num campeonato lambuzado de traços épicos, de rasgos desesperados, de jogadas de raiva que por vezes davam golo. Mas podemos jogar quase uma hora a devolver gentilmente os maus passes de bola da Estónia, que só não marcou por completa azelhisse. E depois de um jogo de farfalheira, quase a acabar, quando se entra no último quarto de hora que é uma agonia ver passar o tempo sem marcar, lá vêm finalmente 4 golos de rajada. Bons golos... e o resto é política.

Fora do mundo (um grande título) 

É um novo blog, estilizado, para não distrair o leitor do texto essencial. Tem um bom nome - porque isto de facto é mesmo Fora do Mundo. Segundo Pedro Lomba, Pedro Mexia e Francisco José Viegas são apenas Notas & Apontamentos. Imprevisíveis, porque fazem blog sem agenda. Sofisticados, porque sim. Quase sempre verdadeiramente espirituosos.

Da linguagem náutica, do vocabulário da marinhagem tiraram a Gávea. Um blog de portugueses sobre a literatura brasileira, de Francisco José Viegas e Pedro Mexia. No primeiro post explicaram: "O Gávea Blog será um site dedicado à literatura brasileira, mantido por dois portugueses que gostam, intermitentemente, do Brasil ou da literatura do Brasil." Compreendido. Uma vez mais o bom gosto e a simplicidade que é preciso. E como diríamos agora, tudo sobre o Brasil. Enfim, sem exageros.

E depois, que foi primeiro, o ainda blog pessoal de Francisco José Viegas, o aviz, onde o escritor escreve e descreve a seu bel-prazer. Quase sempre em tom melancólico-crítico, sobre o Brasil e a dizer mal da esquerda. Vou lá quase diariamente.
No post de ontem, Francisco José Viegas perguntava: "O que aconteceria à realidade se não existisse, finalmente, a televisão?" Eu acho que deixaríamos de ter a realidade na moldura do prime time e sem publicidade a meio. Seria mau?

quarta-feira, setembro 08, 2004

Com o tempo tudo vira a mesma coisa 

Continuo a ler jornais fora de prazo. A revista Actual do Expresso, com data de Maio ,é uma leitura suculenta, o Diário do Alentejo de Julho também me surpreende. Mas é a descoberta do escritor brasileiro Luís Fernando Veríssimo, com uma página a abrir o conteúdo informativo daquela revista semanal, que mais me tem agradado. Já o tinha lido antes, com gosto e júbilo. Porque Fernando Veríssimo é um daqueles escritores que provoca verdadeiro júbilo no seu leitor, uma espécie de alegria superior na descoberta de algo de que secretamente já suspeitavamos.Ontem levei para a esplanada ventosa um exemplar da revista. O escritor olha o vago, com o rosto iluminado pelo sol que declina. Assina de entrada uma coluna, que na verdade preenche toda a página, chamada "Do Lado de Lá". Presumo que é do lado de lá do Atlântico, mas pode ser do lado de lá de muita coisa. A crónica de ontem, que na verdade saiu na revista Actual com a edição do Expresso de 8 de Maio passado (faz hoje 4 meses), é uma fantasia sobre o tempo - "Com o tempo"."Há pessoas que, com o tempo, acrescentam outras. O rosto fica mais carnudo, a cintura se expande, tudo engrossa: incorporam um estranho. Com outras acontece o contrário: perdem um outro inteiro. (...) Deve ser parte do tão falado amor da natureza ao equilíbrio, nada aumentar aqui que não diminui em algum lugar. E há um certo consolo em pensar que a sua barriga pode ser a barriga enjeitada de outro".Desde há muitos anos que aprendi a vigiar a passagem do tempo pelas marcas que os anos deixam no rosto e no corpo das figuras públicas que mais aprecio. Por vezes a comparação entre uma imagem actual de um personagem e uma sua foto de arquivo, mantida obstinadamente na cabeça de uma crónica de jornal assinada por ele, faz-me cair na realidade. O tempo passou sobre os outros, o tempo passa inevitavelmente sobre mim também. Mas essa confirmação do tempo que deixa os seus sinais no rosto marcado dos outros dá-me uma consciência diferida de que envelhecemos todos em conjunto.Escreve Luís Veríssimo nesta crónica: "A suprema conquista da idade é poder chamar desânimo de sabedoria". Tudo bem. O tempo tudo alisa. Até esmorece a nossa escala de valores, prescreve uma boa dose de ironia porque a idade é doença. E depois, o golpe fatal: "O espectáculo das paixões humanas nunca muda, muda é o ângulo de visão: o que antes era voyeurismo, hoje é contemplação." Ver é imoral, contemplar é amoral. Também é uma questão de tempo.

terça-feira, setembro 07, 2004

Nomes 

"Viajar é perder países", mas pode ser ganhar os nomes dos lugares. Desejo as minhas viagens, pelo menos em parte, em função dos nomes. Já visitei cidades cujo nome não me diz nada e há outras onde gostaria de ir só pelo nome. É um critério, mas também gosto de cruzar critérios. De mudar, viajar de um para outro até não saber o motivo.
Encontrei no programa de Setembro - Outubro do CCB uma consagração estética deste gosto pelos nomes. Trata-se de uma apresentação no âmbito do Festival Europeu Temps D'Images, que decorrerá ali entre 23 de Setembro e 4 de Outubro. Segundo o programa este festival é consagrado ao "cruzamento da imagem em movimento e das artes performativas" e já vai na 3ª edição, simultaneamente em Portugal, França, Itália e Alemanha. Informações mais detalhadas sobre este evento poderão ser encontradas, em breve, não à data da publicação deste post, neste sítio. O vídeo marcará presença, assim como as artes performativas e a dança. Uma das apresentações estará a cargo de ASTRA TOUR. Trata-se de um espetáculo idealizado por Ion Munduate, um bailarino e coreógrafo do país basco. Diz o programa: "Uma viagem de automóvel pela Península Ibérica, percorrendo cidades selecionadas em função do seu nome. Astra Tour utiliza a instalação vídeo e a performance, funcionando o nome das cidades visitadas como elo de ligação entre ambos."
O espectáculo acontece nos dias 25 e 26 de Setembro, pelas 21.00 horas no Pequeno Auditório do CCB. Preço único: 8 € .

segunda-feira, setembro 06, 2004

Um outro Knopfli 

Deve referir-se a uma marca de sopa instântanea ou a cereais para o pequeno-almoço. Basta uma visita à secção alimentar de uma grande superfície, no corredor dos cereais, para nos darmos conta dos malabarismos linguísticos a que se prestam os especialistas de marketing e os conceptores da imagem destes produtos alimentares. Os nomes são frequentemente híbridos de outros nomes, jogos de sílabas que colidem umas com as outras, palavras que de longe evocam o ruído da mastigação frenética e da mistura salivar; em suma, constituem uma nova língua do ramo alimentar, com termos que ficam no ouvido a arranhar-nos os tímpanos. Não me surpreende que a Maggi - marca que me acompanha desde a infância - tenha escolhido o nome Knopfli para designar um dos seus produtos. E lamento que essa escolha não tenha um significado literário. O nome é fortuito e se os especialistas da empresa investigaram correctamente (independentemente do produto ser recente ou não... a verdade é que não faço ideia) devem ter percebido que o Knopfli dos poemas não terá tido nada a ver com sopa instântanea, mas que também não se chocaria especialmente com a coincidência do seu nome de família corresponder à marca de um produto alimentar.
Agrada-me a ideia, desde uma perspectiva de vulgarização que não me parece chocante, de atribuir nomes de figuras da arte, da ciência, do pensamento, aos produtos mais comuns. Algumas figuras encontraram o seu nicho na linguagem que falamos todos os dias. Picasso é uma categoria para classificar o gosto; Einstein ajuda-nos a compreender a excepção do génio e como a descoberta científica se faz com tanto de rigor como de fantasia e imaginação; Bulhão Pato é um método para preparar ostras antes de ser o poeta ultra-romântico; o Doutor Jivago designa um estilo no vestir, tão vago e passageiro como qualquer moda que regressa sempre. Há outros exemplos. Kafka e Maquiavel deram o nome a adjectivos sem os quais dificilmente passaríamos hoje, Bovary também mas é para diletantes. Pegar de manhã ou à hora do jantar na embalagem de Knopfli e preparar um pequeno almoço rápido ou uma sopa instantânea... é um gesto que não me deixaria indiferente. Afinal a poesia é para comer, pelo menos a acreditar na Natália Correia, que se dirigia nesses versos admiráveis aos subalimentados da poesia. E isso somos todos, sobretudo quando passeamos, meio tontos e completamente vazios por dentro, por entre os corredores de cereais das grandes superfícies comerciais.

Leituras em diferido 

A não ser nos casos óbvios em que o ritmo vertiginoso dos acontecimentos se encarniça para deixar fora da actualidade uma edição recente de um jornal ou de uma revista acabados de chegar, e à disposição no café ou ainda expostos no escaparate, a leitura em diferido tem os seus encantos. Claro que toda a leitura de actualidades é diferida no tempo, pelos menos um certo número de horas, entre o fecho da edição e a chegada do jornal ao ponto de venda. Mas não é disso que falo. Há alguns anos (talvez vinte, não é tão pouco quanto se possa pensar) o DN chegava à minha terra, no interior, quase 30 horas depois de sair da rotativa. E chegava de combóio directamente do Barreiro, que fica em linha. Não sei por onde andariam entretanto os poucos exemplares enviados na altura, enquanto o mundo corria a desactualizar as suas manchetes. Recentemente tenho lido alguns jornais fora de prazo. Bastam dois ou três dias. E a distância em tempo da notícia aos acontecimentos ajuda a configurar outra leitura, mais dilatada e ponderada, enriquecida com factos que nos chegaram entretanto através de outros meios. A opinião sofre também alguma usura, no bom sentido, de modo que uma opinião desactualizada acaba, inevitavelmente por ser uma opinião contextualizada. E a limite é mais seguro, até ao ponto em que os acontecimentos posteriores e as interpretações recentes lhe retiram toda a credibilidade, muito mais seguro, ler uma opinião com a distância de alguns dias que uma opinião ainda a fumegar dos prelos. O tempo dá contexto também quando se trata de uma notícia de jornal, cujo desenvolvimento não seguimos no seu tempo. Quando já sobra só o contexto e o caso acabou por entrar numa vasta e complexa rede de causalidades, sendo assimilado à filigrama da pequena história, já não vale a pena ou é apenas anedótico. É o que vai acontecer daqui a algum tempo com o ruído mediático que acompanha a odisseia do barco do aborto, dos seus apoiantes e detractores. Quanto ao governo e às autoridades envolvidas (li que há cinco ministros a acompanhar o caso!) o anedótico já vem misturado com a massa de que se faz a notícia.

sábado, setembro 04, 2004

Have you seen this picture? 

Prefiro este aos anteriores. É menos literal que os primeiros (neste negócio conta-se à meia dúzia) e o enredo expande a atmosfera de claustro para o exterior do colégio de feiticeiros. A fotografia leva-nos para um mundo marcado pelo realismo poético, onde as leis da física podem admitir excepções. É esse lado da aventura (outros chamam magia) que resulta bem e não enfada. Há lugar para o olhar intimista e a pirotecnia dos efeitos especiais não deita tudo a perder. A história do rapaz que sobreviveu afinal pode sobreviver às adaptações. Veremos os próximos. A criança oblige...

"Eu sou a parte supérflua deste mundo." 

Choveu esta noite. Caiu granizo aqui e em Maputo. É o tempo a marcar a nossa agenda. A esplanada no túnel do vento, onde costumava acabar as tardes, é agora mais irregular. Knopfli não vem aqui todos os dias. Ele fala como se o tempo não passasse nunca definitivamente e por isso tudo está permanentemente em aberto. Afinal lá chegou e sem pedir licença lembrou-se do tempo em que escreveu "O País dos Outros", o tempo em que se sentia estrangeiro na sua terra e disso tirava pacientemente a sua poesia; desatou a falar como se lhe tivessem feito uma pergunta irrecusável, como se fosse um desabafo: "- Eu sou a parte supérflua deste mundo. Eu sou o branco que sei que este mundo tem o direito de nascer, portanto não me ligo ao outro mundo branco que não quer que ele nasça. Mas para ele ter de nascer, eu tenho que (...) desaparecer pela esquerda baixa, ou alta, ou como você quiser." Não lhe disse, mas suspeito que Knopfli nunca resolveu inteiramente essa mágoa, o problema da pertença, diriam os críticos. Por isso falava tanto dela, como quem precisa de limpar regularmente uma ferida inofensiva e purulenta. A consciência é uma ferida aberta, ele deve ter dito isto alguma vez. E o grande tema volta sempre, o problema que Knopfli tem consigo mesmo: "- Foi nele que eu nasci: nasci no país dos outros! É essa mesma consciência, que lhe tenho estado a dar aqui, de me descobrir, depois dessa tal transparência em que não há cor, porque as cores são todas iguais e eu sou clour-blind, eu sou daltónico, em sentido racial." Mas nada disto é um lamento. Um poeta, num certo sentido, faz a sua pátria, que é, num certo sentido, a sua poesia. E não é preciso citar o outro poeta que viveu a sua infância em inglês, em Durban, um pouco abaixo de Maputo. O sentido é outro. Esclarece: "- Eu sou o resultado das minhas circunstâncias - as minhas circunstâncias, felizmente, foram estas."

sexta-feira, setembro 03, 2004

Dar de beber à dor... 

Sou uma pessoa muito interessada pela anestesia, na perspectiva do utilizador. Subscrevo inteiramente aquela afirmação conhecida de Fernando Savater, que tem a vida a prémio em virtude das suas posições corajosas contra a ETA, de que 'se recusaria a viver numa época anterior à da invenção da anestesia'. Em todo o caso, para estar mais informado, apanhei o programa do próximo Congresso da APED (Associação Portuguesa para o Estudo da Dor) que se realizará entre 14 e 16 de Outubro próximo, na Casa do Artista em Lisboa. A agenda do encontro: Anestesia Regional, Dor Crónia, Dor Aguda. Os participantes vêm do Porto, de Coimbra, de Lisboa, do Funchal, de Faro, do Barreiro, da Covilhã, de Santarém, de Almada, mas também do Reino Unido, de Helsínquia, de Bordéus, de Valência e de Barcelona, da Suiça e dos Estados Unidos.

Só num programa destes veríamos títulos de intervenções tão inusitados como o de uma palestra do primeiro dia: "A Europa e a Dor". "The State of the Art" vem depois, o que me faz pensar que a anestesia bem poderia ser uma das belas artes, se não acabar por ser um culto religioso. Ainda antes da pausa para o café o Prof. Mário Gouveia, acusando uma clara influência literária, renascentista, proferirá uma conferência subordinada ao título "Sufrágio do corpo, refrigério da alma". As apresentações mais técnicas e especializadas aparecem depois: "Anestesia regional na cirurgia de amputação", "Anestesia espinhal continua: um ano depois", "Como controlar o vómito pós-operatório?", "Dor lombar como sequela da anestesia regional", "Bloqueio subaracnoideu. Porque juntar opióides?", e assim mais algumas.

Para já estas pessoas são apenas uma das tribos do grande continente em expansão da Medicina. Podem bem vir a ser um dia os oficiantes de um culto novo. Eu acredito.

quinta-feira, setembro 02, 2004

Ignomínia 

Não é fácil encontrar, nestas circunstâncias, as palavras para a coisa. Quando a coisa é praticamente impossível de nomear, pelo excesso de realidade que representa. Talvez "ignomínia", talvez "opróbrio". A crise dos reféns que se vive em Beslan, na recôndita república da Ossétia do Norte, escapa à linguagem comum, ao esforço para a adjectivar. Está a mais, sobra das palavras. É preciso comprimir o horror, encerrá-lo no interior da nossa linguagem, para que ele possa finalmente ser nomeado e com ou sem negociações as crianças e os adultos sejam poupados à degradação.

Um orgasmo em directo 

Mais um indício do fim do Verão é o regresso das reposições das entrevistas de Jesus Quintero. O Outono pode começar, as folhas cairam, os concursos de professores estão entupidos, as notícias de turistas desvairados em terra perdem lentamente a primazia, voltámos todos para ocupar o nosso lugar na grelha de partida da melancolia.
Revi em silêncio, para ouvir melhor, aquela entrevista de Quintero a uma libertina multiorgásmica obesa. Não me pareceu, uma vez mais, à altura da sua reputação, porque uma multiorgásmica confessa tem de ser uma intelectual convincente. Tem de saber teorizar com elegância, citar com humor, relativizar com fleuma. Nada disso transpareceu daquele encontro e uma vez mais foi Jesus quem brilhou no estúdio.
Perguntou-lhe, como quem se prepara para terminar, quantos orgasmos tinha tido durante a entrevista. Respondeu-lhe, com uma veemência cheia de virtude, que não tinha tido nenhum, por respeito ao público, por respeito para com ele, pelo respeito em que tinha o público (repetiu). E insistiu que não. Depois fez-se silêncio, a libertina obesa acomodou-se no lugar, mordeu os lábios. Quintero olhou-a fixamente, como se a desafiasse. A realização deu-nos grandes planos do rosto de um e de outro. Silêncio no estúdio. Uma pergunta, resposta breve. Silêncio e uma contracção do rosto. Quintero sorri. Outra pergunta e outra ainda, bem espaçadas no tempo, entre silêncio e silêncio. Respostas breves, um monossílabo apenas para a última. Mais um esgar, o corpo dela muda de posição na cadeira e a câmara completa a narrativa. Jesus Quintero pergunta se já está, ela confirma que sim, e acabam os dois a rir e o público em silêncio. Três minutos de televisão, qualquer coisa difícil de classificar, entre o programa de autor, o programa de culto, e os abismos da "realidade" servida com charme.

quarta-feira, setembro 01, 2004

Festival de Poesia de Moncayo, Aragão 


Ao varrer uma das minhas contas de email encontrei uma mensagem do BC-spain, quer dizer, da lista de contactos do Bookcrossing espanhol de que faço parte quase apenas por inércia. A mensagem vem de um amigo que reproduz provavelmente uma notícia sobre o Festival de Poesia de Moncayo, no Mosteiro de Santa María em Trasmoz, uma localidade da recôndita comunidade aragonesa. Repito aqui a mensagem, cometendo uma inconfidência virtuosa, porque se trata de poesia.

POESÍA EN EL MONCAYO
Festival y liberación de libros de la Ed. Olifante
by Zancocho


El pasado fin de semana, 28 y 29 de agosto, se celebró en Trasmoz y en el Monasterio de Santa María de Veruela el III Festival de Poesía Moncayo (Zaragoza, Aragón, España).

El sábado por la tarde en Trasmoz, un pequeño pueblo en las faldas del Moncayo inspirador de artistas y poetas (dado a conocer, sobre todo, por Becquer durante su estancia en el Monasterio). El domingo por la mañana el recital de poesía se trasladó al Monasterio.

Este año se ha dedicado especialmente a Pablo Neruda, para conmemorar el centenario de su nacimiento.

El Festival ha estado organizado por la editorial Olifante (y apoyado por diversas administraciones). Esta editorial (dedicada exclusivamente a la poesía) mostró su compromiso y confianza y Bookcrossing decidió liberar toda su colección en Trasmoz y el Monasterio. De esa manera el Festival no acabará tras el fin de semana y, junto a los libros, seguirá viajando y viviendo.

La información completa sobre el Festival (aunque ha haya pasado merece consultar la web) en:

[Programa do Festival 2004]

Saludos cordiales.
Zancocho, desde Madrid
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O Festival deste ano contou com uma vasta selecção de poetas lidos - o que pode ser confirmado na consulta do Programa - entre os quais se contou o português António Osório. Mais informações sobre o certame deste ano podem ser encontradas aqui. El Periodico de Aragon fala do acontecimento com o devido detalhe, numa notícia que antecipa o início do festival.
A primeira edição da festa da poesia, como os organizadores da editora Olifante quer que se encare o Festival, teve lugar no ano passado, no mesmo local, com apoios das autoridades locais. O [Programa do Festival 2003] contou já com a presença poética de vozes portuguesas, através da leitura pública de poemas de José Viale Moutinho e de Vergilio Alberto Vieira.

A responsável da editora, Trinidad Ruiz Marcellán, também directora do Festival, apresentou esta iniciativa como a evidência de que "es posible, por necesario, otro mundo mejor. Y que ese mundo mejor está en nosotros".
Por isso a realização destes encontros tem qualquer coisa de milagroso e de absolutamente improvável: "Los poetas son como islas, estrellas extraviadas en la tierra. A veces los poetas se hacen reunión y llamada", explica Trinidad Ruiz no manifesto do Festival.

A organização, numa deriva libertária e romântica, associou aos actos deste Festival o movimento Bookcrossing espanhol. Muitos dos livros lidos terão sido "libertados" no final, para iniciar desde Moncayo um percurso incerto de mão em mão. Gostemos ou não do romantismo implícito do movimento BC, que conta em Portugal e Espanha com largos milhares de participantes, o abandono voluntário de livros ao acaso dos seus leitores, em lugares emblemáticos ou inesperados, para uma viagem sem fim à vista, é uma excelente forma de encerrar um Festival de Poesia.



"la question de la douleur de corno" 

Com o início do mês de Setembro o tempo piora sempre, ainda que seja apenas na nossa imaginação. As expectativas baixam tanto ou mais do que as temperaturas mínimas, e cada saída à rua é precedida por uma inevitável impressão de desconforto. Talvez isso ajude a explicar alguma relutância com que o Knopfli vem agora à esplanada varrida pelo vento. O Verão já não é o que era e isso prova que a nossa agenda mental e a nossa exposição social também são regidas pelas mesmas leis cósmicas dos equinócios e dos solstícios.
Mas veio na mesma e chegou preocupado com as grandes questões da crítica literária, vertidas em linguagem de café, entre amigos. Vinha bilingue, a pensar e a falar em duas línguas, em parte porque gosta de driblar os interlocutores, em parte porque é assim que pensa sempre que quer dizer alguma coisa mais séria.
Era a poesia, o que é um poema, porque é que se escreve. Ouvi-o: "- Você, como professor, pode dizer-me o que é em princípio um poema? Quelle est ton idée d’un poème? Moi, je pense que, quand il y a un décalage - não sei se o meu francês é bom -, entre moi et la realité, a forma de a fechar ou de a vencer, ou de a apagar ou de a pisar, é escrever um poema, n’est-ce pás? Donc on retourne à la question de la douleur de corno. (...) Só a forma, realmente, de a gente resolver um diferendo, uma mágoa contra a realidade, é através do verso. Como, por exemplo, esta coisa que tu chamas uma entrevista, nós estamos aqui a conversar, e até me faz muito bem, porque é uma espécie de catarse, é como tornar Alka Selzer depois de uma noite de bebedeira, ou Guronsan... c’est ça."
Perguntei-lhe porque não publica regularmente, porque espera tanto para dar outro livro ao prelo. Perguntas ociosas, já se vê. Respondeu-me com paciência: "- Não escrevo nada, porque não acontece. Porque, tal e qual como eu te dizia há [pouco], não sou um literato. (...) Mas a poesia só realmente me ocorre - não a procuro deliberadamente - só me ocorre quando é inevitável, quando há, realmente, no meu espírito qualquer coisa..."
Comecei a imaginar que os poetas se dividem em categorias: há os poetas da necessidade, que só escrevem quando tem mesmo de ser, e não têm alternativa, os poetas frenéticos que escrevem um poema para poder depejar logo o próximo que já está a entupir o seguinte, os poetas casuais, que escrevem por escrever e vivem bem com isso, os obscuros, que trabalham as trevas da sua poesia e gastam parte do seu tempo em trabalho de 'criptação'... e há aqueles que ao longe se parecem com pessoas normais.