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segunda-feira, agosto 02, 2004

À volta da mesa do Rafael com o Knopfli 

Andei "com" o Knopfli durante semanas e semanas. Levava-o para o café, às vezes nem falávamos. Era só para ter companhia. Habituei-me à sua maneira desgarrada, ao desassombro quase desbocado, às coisas que dizia, e que coisas, sem pestanejar (é uma figura de estilo). Mas é sempre divertido, mesmo quando parece que insulta. Fala de toda a gente com inteira liberdade, sente-se livre e poeta, é livre. Por vezes não podia deixar de rir com a lata dele, a latosa... Sentava-me à mesa com ele, na ventosa esplanada do Rafael, quase sempre, e lá vinha o Knopfli com as opiniões mais inesperadas: "- O colonialista sempre se pôs na colonizada! A menos que em sociedades como a sul-africana, em que isso constitui crime! Também não serve... Mas acho que um tipo que se deita com uma mulher doutra cor não pode ser racista e vice versa. Talvez aqui esteja errado – não sei -, não sou nem psicólogo, nem psicanalista. Se o ser é tão desprezível... Não sei, aqui estou um bocadinho perplexo, confesso."
E às vezes falava dos moçambicanos, seus patrícios de outra raça, com visível deslumbramento, não podia esconder: "- Seja lá qual for o regime, aquilo é a melhor gente do mundo. Aquela gente com que convivi no Sul é mais civilizada do que nós. A maneira como tratam os animais e as crianças, esse aspecto de encobrimento, de que eu lhe falava há bocado, das faltas das crianças... Os tipos detestam ver o castigo corporal aplicado a uma criança."
E a civilização para um lado, a civilização para o outro, as conversas do costume. Dizia-me ele, segurando um copo da bebida dourada etc e tal: "- Civilização é pólvora e dar tiros uns aos outros - isso foi o que nós descobrimos."

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