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quarta-feira, agosto 18, 2004

Viciado em anestesias 

O sono é a antecâmara da morte, na dramática e perturbadora fórmula latina. O sono anestésico é a doce experiência química da morte breve, de que se regressa sempre que é o caso. Entra-se no bloco como quem se submete a uma experiência de limites, mas entra-se serenamente, porque cremos que merecemos aquele momento. À nossa volta, trocando uma linguagem incompreensível com vocábulos que designam provavelmente agentes químicos que em breve nos percorrerão o corpo até agir no cérebro, oficiam algumas vagas presenças. Há um momento para esquecer tudo, em que falamos de nós e rimos com gosto como se a conversa fosse durar a noite toda. Depois sentimos os primeiros sinais de abandono. Primeiro parecem-se com o deslizamento provocado pela desatenção, um ligeiro alívio da realidade. Começa a deriva. Por vezes sentimos náuseas, nas piores experiências, como quem hesita a queda. Nas melhores sentimos que caminhamos em direcção a um lugar rodeado de ar por todos os lados, pleno de ar, onde nada nos detém mas onde também nada nos pode tocar. O corpo esquece-se e por um momento concentramo-nos na nossa própria respiração como a única evidência física, como uma voz que nos fala. É a promessa de que nada correrá mal. Então já tudo está longe, como se olhássemos para outro lado, longe da realidade, ainda ouvimos vozes mas já não há resposta possível. Não há propriamente um durante. O prazer e a experiência dessa 'petit mort' já acabou. Durou segundos, ao contrário da morte a sério que vale para sempre, segundo consta. Depois acordamos para contar.

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