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sexta-feira, agosto 20, 2004

"Um caracol com travões" 

Chegou com o riso a despontar, passe a imagem de gosto duvidoso. Vinha com vontade de se meter, de contar uma anedota. Lembrou-se da Jangada de Pedra do Saramago e arremeteu sem piedade: "- Para já, não tenho jangadas de pedra - vão ao fundo! E se realmente a intenção de metáfora dele é essa: é a metáfora mais desgraçada para título..., mais pesada ou, como dizia ali aquele meu ilustre amigo: você sabe qual é o símbolo da tecnologia adoptado no Alentejo? É um caracol com travões: A jangada de pedra é um caracol com travões!"
Ficámos assim. Depois veio a questão da poesia e da originalidade. Vivia obcecado. Alguns poemas de Knopfli tratam por tu essa questão da influência e da originalidade do poeta. Contou-me uma história com o Eugénio Lisboa, de que foi muito próximo, envolvendo outros amigos; o Kavafi, o Steiner, o Apolo e Mársias... Nem queria acreditar: "- Foi esfolado, como você diz e muito bem! E porque é que foi esfolado? Porque o Apolo, como era deus: agora vira a flauta ao contrário e toca no cu! E o Mársias não conseguia tocar no cu: aquilo não sopra de fora para dentro - sopra de dentro para fora! E o Apolo tocou. Esfolou o gajo e amarrou o gajo à árvore. Porquê? Porque o poeta desafia os deuses. Eh pá, isto ficou cá em cultura - como quando um gajo pôs os micróbios em cultura -, a germinar, a sedimentar, e um dia eu escrevi aquele poema. E, quando estava a preparar as provas do livro, mostrei ao Lisboa. Sei perfeitamente o que está roubado ao Kavafi, etc. E diz o Lisboa, o gajo é um leitor afinadíssimo: "- Você esteve a ler o Steiner ultimamente? - Não. Anda sempre comigo, mas não li... - Mas, porra! Isto não tem a ver com o Language and Silence?" Eu cheguei a casa e... "Eh pá! Isto é copiado do gajo!" Diz o Lisboa: "Ainda bem, porra, deixe estar..." Há frases quase iguais!..."
Era, claramente, um nominalista. Evitava as generalizações, que como alguém disse uma vez são sinal de hipocrisia ou de bajulação. Antes de sair ainda deixou uma advertência: "- Eu é mais humilde do que dizer nós, ou falar em nome da humanidade."

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