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sexta-feira, agosto 27, 2004

A rota de Azorín nos campos de Castilla 

La ruta de Don Quijote de Azorín é um pequeno livrinho da CATEDRA, colecção de Letras Hispánicas. O meu exemplar ainda exibe o autocolante da FNAC do Callao, em Madrid, o "preço mínimo garantido" de 618 pts e a data de compra, 22 de Junho de 1994. Li-o agora, nestes últimos dias, para acompanhar a difícil, exigente e demorada leitura do Quijote na edição muito comentada (talvez demasiado) do académico cervantista Francisco Rodríguez Marín.
A rota de Don Quixote pelos áridos campos planos de Castilla la Mancha desde há muito desafiam a imaginação dos seus leitores. A oferta turística em torno da obra de Cervantes é considerável. Em 1905, quando Espanha se preparava para comemorar o III Centenário da publicação da primeira parte do Quixote, ainda no rescaldo dos acontecimentos de 98, que dariam nome à geração de que se reclamava o próprio Azorín, a realidade seria um pouco diferente. O cervantismo ortodoxo - representado por Rodriguez Marín, entre outros - dominava a cena intelectual.
Azorín, aliás José Martínez Ruiz, conta apenas 32 anos em 1905, quando o director do jornal El Imparcial, de grande influência na vida pública da altura, lhe encomenda uma série de artigos acerca da rota de D. Quixote pela Mancha. Não se tratava de repetir penosa e docilmente todo o percurso caprichoso do senhor Quijano pelos planos de Montiel e arredores, mas de ensaiar uma breve saída a partir de Argamasilla de Alba. O breve percurso de Azorín, numa releitura muito pessoal, inclui, para além de Argamasilla, que lhe serve de centro e apoio, El Toboso, Puerto Lápiche, el Camino de Ruidera, a Cueva de Montesinos, os moinhos de vento de Criptana e, naturalmente, uma paisagem humana desolada e ruinosa, preenchida por personagens que nos confirmam o perfil psicológico entre sonhador e impenetrável do tipo manchego.
Azorín erra por estes santuários perdidos e abandonados durante pouco mais de uma semana, numa visita breve, porque o director de El Imparcial reclamava a presença do jovem escritor anarquista na Andalucia, onde uma revolta de camponeses ameaçava incendiar aquela província. O resultado desta saída são 15 artigos de curta extensão, publicados ao ritmo da remessa do correio, enviados para Madrid do próprio lugar onde são escritos. Publicados em primeira página, à excepção de um, teriam saída em livro pouco tempo depois. Azorín cumpre um percurso estilizado, de pousada em pousada, escrevendo em "cuartillos" as impressões de viagem, ainda mal refeito do esforço e da exaustão de muitas horas no terreno. O que impressiona é a segurança e a nitidez do seu traço, da narrativa ao diálogo, vivamente impregnado do tempo, da profunda ausência que se sofre em Castilla, do silêncio da vida diária, da monotonia das formas. A escrita é muito ágil, marcada por diálogos muito vivos, e rapidamente nos damos conta de que Azorín nos poupará à minúcia costumbrista de outros autores do seu tempo. A rota de Azorín pode parecer pouco cervantina, pecado por que foi atacado pelo cervantismo ortodoxo. Mas a imagem que nos deixa, sobretudo da paisagem humana, dos académicos de Argamasilla, dos Sanchos de Criptana, da Xantipa, da fidalguia decadente, das moças castellanas, sempre tão misteriosas e refractárias à curiosidade do jovem escritor, é irrepetível. Vale a pena parar de seguir, por uns dias, a cansativa rota do Quixote e acompanhar Azorín nas suas saídas pelos Campos de Montiel.

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