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quinta-feira, agosto 05, 2004

O Knopfli seguinte 

De novo à conversa com o escritor na esplanada. Knopfli veio com uma história espantosa de uns italianos que apareceram lá em casa: "- Depois deste italiano já encontrei mais cinco! Só digo aos gajos: "Ah! I knew your father!" Os gajos arrancam... Mas comprei, da primeira vez..., à minha custa! Os gajos são sensacionais, os truques são sensacionais. Será máfia? O último era assim: "Vous parlez français?" E, com um mapa na mão: "- Pouvez-vous me dire où est King’s Road? –Vais por aqui, vais por ali... " Então o gajo vem-me com a história e eu disse-lhe: "Come on! Je connais déjà cette histoire... – Ah! Vous connaissez?" Arrancou e, em vez de ir para King’s Road, virou à esquerda para apanhar o Knopfli seguinte! Nem se deu ao trabalho de disfarçar – está farto de conhecer, conhece Londres melhor do que eu!"
Depois a conversa derivou para a poesia que se faz, para a obscuridade procurada por alguns poetas do nosso tempo, enfim do tempo dele que também é o nosso. E o Knopfli não tem papas na língua quando fala dos contemporêneos. Sobretudo desses. "- Ou é um grande poema ou não é. E pode ser um grande poema veiculado por uma indignação de carácter social. Mas tem que ser um grande poema, porque só a indignação de carácter social não chega para fazer um grande poema, não é? Eu estou convencido que o melhor da nossa poesia - nossa, não é portuguesa, é ocidental! – é obra daquilo que, em português, se chama a dor de corno! Você percebe isto, não é? É o amor desapontado, traído, a jalousie, não sei que mais. E em matéria de arte, a discriminação racial, a ofensa, é uma espécie de dor de corno."
Nem o "pobre" do José Gomes Ferreira, que Knopfli aprecia como pessoa, escapou. E vendo bem, nem eu que sou um leitor benévolo me deixo arrebatar por aquela poesia tão cheia de boas intenções e metáforas intensas. Tudo demasiado correcto, para não dizer politicamente... Mas cada época escolhe os seus poetas-bandeira, o seu temário. Dizia o Knopfli: "(...) poemas sobre a fome e a miséria: lembro-me perfeitamente quando se batia num poema bacocamente ridículo desse excelente ser humano, mas paupérrimo poeta que é o José Gomes Ferreira, que é: "sofro noite/ não as dores metafísicas que os homens suam nas estrelas (...)", e que depois vem falar na velhinha miserável que sofre a metafísica da fome nos degraus da soleira da porta... Porra! E o violino na lama... Coitado do marrequinho da esquina a vender cautelas! Só em Portugal é que se consegue que esta poesia seja alcandorada às asas da fama!"
Mas foi e a intensidade humana do poeta, a sua magnífica imagem romântica (lembro-me do José Carlos de Vasconcelos elogiar frequentemente a sua "bela cabeça") chegou e sobrou para fazer o prestígio da sua poesia. O problema, dizia o Knopfli é o pessoal ser muito literal: " - Quando o Diderot disse: "Poetas, sede obscuros...", os gajos perceberam que o gajo estava a dizer: sejam opacos, ninguém vos entenda... De maneira que desataram a escrever palavras."
Fez-me lembrar o Herberto Helder num texto dos "Passos em Volta da Poesia" .

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